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O que podemos aprender com nossos ancestrais?

Sandra Caselato

Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Está sempre em busca de experiências que contribuam com a transformação pessoal e de outras pessoas. Especialista em Comunicação Não-Violenta, atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos.

05/05/2020 04h00

Independente da nossa origem, tivemos todos antepassados que passaram por muitos desafios, dificuldades e, de alguma forma, sobreviveram. Suas vidas podem nos servir de inspiração para enfrentarmos as dificuldades que vivemos hoje.

Vejo muito valor em seguirmos a tradição de vários povos originários e culturas ancestrais de relembrar e honrar nossos antepassados, aprendendo com eles, especialmente neste momento de desesperança e crise mundial.

O que você conhece da sua história ancestral? Que ensinamentos você pode usar neste momento?

Você não precisa ter conhecido seus antepassados para saber que carrega em seu corpo e em seu DNA muitas informações sobre eles.

Você pode se conectar com a verdade de que eles tiveram alguém que cuidou deles e atendeu suas necessidades em seus primeiros anos, que cresceram e viveram da melhor maneira que puderam, dadas as circunstâncias específicas de vida. Talvez tenham sofrido perseguições, opressões, preconceito, sobrevivido a massacres e guerras. Talvez tenham passado frio, fome e enfrentado doenças. Talvez não tenham vivenciado nada disso. Mas certamente experimentaram alegrias e tristezas, medos e inseguranças, tiveram sonhos, desafios e conquistas. Buscaram sentido e propósito em suas vidas. Se conectaram com outras pessoas, muitas vezes formaram famílias, pertenceram a grupos, e de alguma maneira influenciaram o mundo e a vida de várias pessoas ao seu redor.

Todos nós também tivemos alguém que nos cuidou durante a infância, que nos trouxe ensinamentos e experiências que vivem em nós. Também não precisamos ter conhecido pai e mãe biológicos para saber que eles existiram e que antes deles vieram tantas outras pessoas. Todos vivem em nós agora, de alguma forma. Nossa genética, nossas experiências e história de vida nos constituem, estão gravadas em nosso corpo, em nossa memória e em nossa subjetividade.

Além da história da minha família e das minhas próprias experiências de vida, também carrego em meu corpo e em minha genética toda a complexidade da história do Brasil.

Assim como muitos de nós brasileiros, trago em minhas células a experiência dos povos originários massacrados e conquistados, e também do colonizador; do povo escravizado e do escravizador, do oprimido e do opressor.

Pequena parte dos meus genes vem dos povos originários desta terra e viram o território onde viviam e suas paisagens sagradas sendo destruídas. Não cederam voluntariamente suas terras para os que vieram depois. Mesmo assim resistiram, sobreviveram e sobrevivem ainda hoje, lutando para manter sua cultura, sua língua, suas tradições e até mesmo o direito aos poucos territórios aos quais foram confinados.

Também sou descendente de povos trazidos à força de terras distantes, escravizados, subjugados, oprimidos, separados de suas famílias. Sobreviveram travessias oceânicas desesperadoras e traumatizantes, para viver uma vida não menos terrível e difícil nas gerações seguintes. Ainda assim resistiram. Foram capazes de regar suas raízes de herança ancestral mantendo vivo na religião o culto aos orixás e na cultura expressões como a capoeira e o samba.

Outra parte dos meus ascendentes vem dos povos colonizadores, que roubaram, expulsaram, massacraram, escravizaram e subjugaram os demais. Meus antepassados diretos, se não fizeram eles mesmos essas coisas, se beneficiaram dos sistemas que essas ações criaram, recebendo alguma forma de privilégio por serem brancos. Talvez não tenham enfrentado dificuldades coletivas, mas tiveram obstáculos e desafios pessoais.

Carrego em meu corpo os traumas individuais e coletivos dos meus antepassados, que se misturam com muitos dos traumas sociais da história deste país e do mundo. Ao mesmo tempo carrego também em mim sua resiliência, seu poder de transformação e potência de vida!

Meu corpo é uma célula do corpo maior que é este país e o planeta onde vivemos, e reflete a história do mundo!

E você? Que histórias seu corpo conta? Como as experiências dos seus antepassados e da sua família (biológica ou não) vivem em você? Que características, qualidades e valores você admira no que você sabe ou imagina de seus ancestrais? Que narrativas e histórias te inspiram e podem contribuir com você neste momento de sua vida?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.