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Rodrigo Ratier

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Redações nota 1000 do NE espelham avanço da rede pública?

21 nov. 2021 - Caderno do primeiro dia de provas do Enem, em São Paulo - Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo
21 nov. 2021 - Caderno do primeiro dia de provas do Enem, em São Paulo Imagem: Ronaldo Silva/Futura Press/Estadão Conteúdo

16/02/2022 06h00

O total de redações nota 1000 — pontuação máxima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — ainda não foi divulgado oficialmente. Mas desde o dia 9, quando saíram os resultados individuais, alunos e alunas têm exibido com orgulho o boletim com seus textos "gabaritados". O fato novo é um alegado predomínio de estudantes do Nordeste. Veículos regionais registram um suposto "balanço parcial" com 7 redações da região entre as 10 com nota máxima. O Inep, autarquia que organiza a prova, não respalda a informação. Em nota à coluna, afirma que os dados finais da aplicação serão publicados nos próximos dias.

É tentador enxergar relação entre os números não confirmados e outros indicadores positivos sobre a educação do Nordeste. Trata-se, porém, de análise apressada. É impróprio comparar casos individuais como a nota de um punhado de alunos numa prova com o desempenho de toda uma rede de ensino. Além disso, o perfil dos "alunos nota 1000" ainda não reflete o sucesso das políticas públicas em que a região tem apostado.

Alice Souza Moreira, da Bahia, estudou em escola privada, fez cursinho e se jogava nos livros em casa diariamente do meio-dia às 23h. A cearense Cássia Aguiar, medalhista em olimpíadas de Física e Química, entrava de manhã e só saía à noite do colégio particular em que cursou o Ensino Médio. Três alunas de Pernambuco atribuem ao curso específico de redação as explicações detalhadas que possibilitaram o desempenho perfeito.

Dedicação e esforço são elementos a se considerar na equação do sucesso. Mas também é preciso avaliar as condições objetivas para aprender. Ensino regular em escolas de ponta, tempo livre para os estudos, apoio suplementar de cursinhos e aulas particulares são benefícios que estão longe de ser universais.

É verdade que existem boas notícias vindas dos estados do Nordeste, como contamos no fim do ano passado. A região foi a que mais avançou em termos de oportunidades educacionais, concentrando 70% dos 500 municípios que mais melhoraram no quesito. Políticas públicas como a colaboração entre municípios, o avanço da educação em tempo integral, reformas curriculares e formação de professores têm modificado a cara do ensino e servido de exemplos a regiões mais ricas, como o Sudeste.

Mas as dificuldades ainda são grandes e os avanços, tímidos. Só dois estados da região, Pernambuco e Ceará, estão no top 10 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Problemas seculares como evasão e repetência ainda jogam os índices para baixo — e o que é mais dramático, interrompem trajetórias escolares precocemente e perpetuam a pobreza.

Quanto a isso, ainda é preciso fazer muito mais. Também é importante saber onde mirar. Nesse sentido, ter alunos nota 1000 vindos de escola pública não deveria ser um alvo. Muitas vezes, o topo de rankings desse tipo espelha quem melhor se preparou para a prova — o que, como se sabe, pode ser muito diferente de ter uma boa educação? O que incomoda é a persistente discrepância entre os dois sistemas, o público e o privado, com a relativa ausência de bons desempenhos para a aprovação em escala no ensino superior. A despeito das cotas, justas e necessárias, é preciso aproximar esses dois mundos. A torcida é que as políticas públicas implementadas no Nordeste possam reduzir esse fosso. Essa, sim, seria uma lição nota 1000 para o Brasil.