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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Em meio à guerra, onde estão os ucranianos com deficiência?

Pessoas atravessam o rio Irpin ao lado de uma ponte destruída, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia - VALENTYN OGIRENKO/REUTERS
Pessoas atravessam o rio Irpin ao lado de uma ponte destruída, em meio ao ataque da Rússia à Ucrânia Imagem: VALENTYN OGIRENKO/REUTERS

11/03/2022 06h00

Ultrapassamos a marca dos 15 dias de conflito armado na Ucrânia e um assunto ainda pouco mencionado pela mídia é a situação das pessoas com deficiência neste contexto. A História nos mostra que situações de guerra geram graves impactos sobre esse segmento. Além da negligência político-social comumente enfrentada em momentos de crise, existem questões de ordem prática que elevam significativamente sua vulnerabilidade: o acesso a estações de metrô e bunkers de proteção, a obtenção de orientações sobre rotas de fuga de emergência e o apoio para a comunicação por meio de língua de sinais são alguns dos exemplos que expõem essa parcela da população a riscos maiores de morte, violência ou abandono.

A Ucrânia afirma ter 2,7 milhões de pessoas com deficiência, o que representa cerca de 6% de sua população. Antes mesmo do início do conflito, essas pessoas já enfrentavam entraves cotidianos. Relatórios internacionais indicam que apenas 4% da infraestrutura física de Kiev, a capital, cidade mais importante e mais populosa da Ucrânia, tem alguma acessibilidade. Somente em 2021, a Ukrzaliznytsia, empresa ferroviária nacional da Ucrânia, lançou os primeiros trens acessíveis com espaço para cadeirantes.

Existem questões legais que amparam e protegem tais pessoas em situações emergenciais. Cito duas delas aqui: o artigo 11 da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência - que foi ratificada pela Rússia e pela Ucrânia -, e a resolução 2475 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que criam obrigações claras e incontestáveis para garantir proteção e segurança para todas as pessoas com deficiência, bem como o acesso oportuno e desimpedido à assistência humanitária.

Alguns veículos têm se preocupado em dar notícias sobre esse recorte da guerra. A agência Associated Press (AP), por exemplo, nos conta sobre crianças e adolescentes com deficiência ucranianos que viviam nos orfanatos Svyatoshinksy e Darnytskyy. No segundo dia de março, saídas de Kiev a bordo de um trem, 200 delas chegaram à Hungria, foram recebidas pela Caritas Internacional e encaminhadas para território polonês. O blog Vencer Limites, do jornalista brasileiro Luiz Alexandre Souza Ventura, também tem noticiado a situação de pessoas com deficiência nesse contexto e relata uma situação de abandono e descaso.

Em carta publicada no site International Desability Alliance (IDA), Yannis Vardakastanis, presidente da organização e do Fórum Europeu da Deficiência (EDF), afirma que "estou profundamente preocupado com meus irmãos e irmãs na Ucrânia que enfrentam múltiplas barreiras para acessar evacuação segura e assistência humanitária".

Que suas palavras possam reverberar pelo mundo e chamar as autoridades à consciência para que cumpram com suas obrigações, protegendo a todos os cidadãos e salvando as vidas das pessoas que enfrentam os maiores níveis de vulnerabilidade social.