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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Escuta e diálogo: meios para esclarecer dilemas sobre inclusão escolar

FG Trade/iStock
Imagem: FG Trade/iStock

Rodrigo Hübner Mendes

22/10/2021 13h18

Na última terça-feira, tive o prazer de voltar ao programa "Conversa com Bial" para discutir o tema da educação de pessoas com deficiência. Bial abriu o programa com a pergunta "o que se descobriu, na prática, para mudar a ideia de educação exclusiva para inclusiva?".

Retomando os argumentos que tenho explorado nesta coluna, o fato de dispormos de uma das legislações mais avançadas do mundo, que defende a inclusão escolar, não é suficiente para permitir que as pessoas entendam o assunto. Existe um falso dilema do senso comum que precisa ser esclarecido: é melhor proteger a criança com deficiência em um ambiente mais "preparado", com especialistas - que é como se imagina a escola especial - ou é melhor permitir que ela conviva com os outros na escola inclusiva?

A escola especial é uma instituição que atende exclusivamente alunos com deficiência. Em geral, em turmas pequenas, em que os alunos têm especificidades semelhantes. A última que conheci tinha salas com cinco ou seis crianças, todas com Síndrome de Down. Raramente essas escolas seguem o currículo oficial do município ou do estado. E, de alguma forma, partem da crença de que a criança não vai conseguir conquistar autonomia.

Cena do programa "Conversa com Bial" de 19 de outubro de 2021 - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Cena do programa "Conversa com Bial" de 19 de outubro de 2021
Imagem: Reprodução/TV Globo

Nessa escola que menciono, por exemplo, as professoras diziam para os pais se conformarem porque seus filhos eram sindrômicos. É como se o ponto de chegada já fosse definido antes mesmo da largada na caminhada da vida. Esse modelo foi testado por décadas e fracassou. O resultado pode ser observado nas várias gerações de crianças que não foram suficientemente desafiadas, o que pressupõe convívio, interação e estímulo contínuo.

A proposta da escola inclusiva, frequentada por todos os perfis de alunos, surgiu com o objetivo de democratizar o direito à educação de qualidade e, acima de tudo, o direito à aprendizagem. Esse modelo ainda gera insegurança porque muita gente imagina que significa, simplesmente, matricular a criança com deficiência juntamente com as demais, sem que a escola altere seu modus operandi. É evidente que isso não funciona. Para que as coisas corram bem, a escola precisa se transformar, investindo na formação dos professores, oferecendo recursos pedagógicos alternativos, disponibilizando tempo para o planejamento das aulas, de forma que as equipes possam discutir cada caso e criar estratégias pensadas para cada turma. Além disso, o estudante com deficiência pode precisar do atendimento de especialistas e do apoio de intérpretes, cuidadores etc. Isso não significa, no entanto, privá-lo das atividades com os outros alunos, mas sim, complementar essas atividades. Quer dizer, não se trata de substituir - mas de somar.

A conversa com Bial contou com a brilhante participação de Mariana Rosa, que é mãe da Alice, uma menina com paralisia cerebral. Seu testemunho explicita as barreiras ainda existentes nas redes de ensino. Seis instituições rejeitaram a matrícula de Alice, até que a família encontrou uma escola que respeita a legislação e busca diversificar suas práticas para atender a todos. Mariana apresentou colocações muito precisas sobre o caminho que precisamos seguir a partir do lugar de fala de alguém que reflete com profundidade e não se esquiva da vida como ela é.

O programa foi muito honesto ao apresentar outros depoimentos que revelam as diferentes nuances que permeiam o tema. Uma aluna com deficiência intelectual falando sobre seu sofrimento diante do bullying dos colegas. Um jovem com Síndrome de Down que desfrutou do acesso a escolas inclusivas durante toda sua formação e acaba de se formar em pedagogia. Uma mãe que, inicialmente, matriculou seu filho em uma escola especial, até que entendeu os benefícios do convívio e migrou-o para uma escola inclusiva. Uma pedagoga com transtorno do espectro do autismo que precisou do apoio da mãe para se alfabetizar em uma época em que a legislação não garantia o referido direito. Enfim, o espectador foi presenteado com muitos pontos de vista.

O dilema citado acima e tantas outras dúvidas ainda expressas por quem ainda não teve a oportunidade de se aprofundar no tema serão desconstruídos verdadeiramente conforme a escuta e o diálogo sincero se tornarem mais frequentes em nossas esferas sociais. Pedro Bial e sua equipe deram uma aula sobre como fazer isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL