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Rodrigo Hübner Mendes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Dorival, sua escola inclusiva e o ingresso no ensino superior

Gabriela Cais Burdmann/UOL
Imagem: Gabriela Cais Burdmann/UOL

Rodrigo Hübner Mendes

07/05/2021 06h00

"Professora, eu vou poder ir para a universidade?", indagou Dorival ao ingressar no primeiro ano do ensino médio da rede pública de ensino de Teresina. Até então, todo seu percurso escolar havia sido traçado em escolas particulares. Três anos mais tarde, o próprio Dorival encontra a resposta para sua pergunta ao ser aprovado no processo seletivo do curso de Geoprocessamento, do Instituto Federal do Piauí. O caso de Dorival, que tem transtorno do espectro do autismo, é mais um dos centenas de exemplos de boas práticas de educação inclusiva que temos acompanhado em todas as regiões do Brasil.

Alguns elementos aparentam ser comuns a tais práticas. Em primeiro lugar, as políticas públicas vigentes no respectivo município ou estado são determinantes para que as escolas de suas redes incorporem e aprimorem projetos pedagógicos inclusivos. No caso do Piauí, com quem trabalhamos no último ano, a secretaria estadual de educação dispõe de uma equipe destinada a planejar e executar ações que endereçam os diversos desafios inerentes ao atendimento dos estudantes com deficiência e outras especificidades. Investimento em formação de educadores é uma das áreas abarcadas por essas ações. No primeiro semestre de 2020, por exemplo, tive a oportunidade de acompanhar um programa de formação dos gestores e educadores da rede piauiense sobre a temática da educação inclusiva, promovido em parceria com o Instituto Unibanco. Durante todas as etapas desse programa, ficou evidente a profunda transformação pelas quais os participantes passaram, tendo em vista a ampliação do seu conhecimento e capacidade de criar soluções para casos desafiadores de inclusão. Várias professoras da escola em que Dorival estudou estiveram presentes nessas formações.

Em segundo lugar, a gestão escolar apresenta-se como um catalisador imprescindível para que as escolas desenvolvam competências para atender tais estudantes. Isso envolve construir uma cultura que assuma a valorização da diversidade humana como uma premissa inegociável, investir na capacitação de suas equipes e mobilizar os familiares dos alunos. Sula, diretora da escola em que Dorival estudava, desde o início abraçou o compromisso de criar condições para que todos desfrutassem da oportunidade de aprender, independentemente de suas singularidades.

Outro elemento decisivo é a forma como as estratégias pedagógicas são pensadas e implementadas. Diante do fato de que cada aluno aprende de uma determinada maneira, os educadores precisam explorar diversas perspectivas, de forma a não deixar ninguém para trás. Ana Célia, uma das professoras que atenderam o Dorival, conta que as aulas de matemática e língua portuguesa contaram com a diversificação da abordagem por meio da qual o conteúdo curricular era apresentado aos estudantes. Uma dupla de professores do Atendimento Educacional Especializado participava da rotina escolar e oferecia apoio pedagógico. Interessante notar que todos os alunos eram beneficiados por esse modelo mais plural de pedagogia.

Dorival deve já começar a cursar a universidade no segundo semestre. A partir daí, vai construir seu futuro. Como teria sido sua trajetória sem uma escola como a que teve? Sua história é mais um exemplo de que participar da sala de aula comum, conviver com as diferenças e ser desafiado a todo tempo são condições insubstituíveis para que cada estudante tenha a chance de alcançar o seu melhor. Incluir enriquece a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL