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Na pandemia, existem ilhas e ILHAS

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Imagem: Getty Images
Rodrigo Hübner Mendes

Rodrigo Hübner Mendes tem dedicado sua vida para garantir que toda pessoa com deficiência tenha acesso à educação de qualidade na escola comum. É mestre em administração pela Fundação Getúlio Vargas (EAESP), membro do Young Global Leaders (Fórum Econômico Mundial) e Empreendedor Social Ashoka. Atualmente, dirige o Instituto Rodrigo Mendes, organização sem fins lucrativos que desenvolve programas de pesquisa e formação continuada sobre educação inclusiva em diversos países.

27/03/2020 04h00

"O ritmo de trabalho parece que está ainda maior", comentou um dos líderes da minha equipe. Estamos em regime de home office há dez dias e, de fato, bastante absorvidos pelo grande volume de demandas, entregas etc. É claro que a vida mudou muito nesse curto período de tempo, mas nossa área de atuação tem permitido que continuemos com as mentes bastante ocupadas com nosso ofício. Ilhados, mas conectados.

Diante desse momento de inevitável reflexão, temos sido provocados a pensar nas pessoas cujo trabalho depende diretamente da vida urbana cotidiana. Dentistas, fisioterapeutas, massagistas, lojistas, camelôs, garçons, cabeleireiros, manicures, atores... O espectro de atividades parece não ter fim. E como vão sobreviver nesses próximos meses, ou já nas próximas semanas, aqueles que enfrentam condições econômicas mais precárias? Esses, sim, estão ilhados. Ilhados e totalmente desamparados.

Mas a emergência parece estar sendo ouvida: bons exemplos já estão acontecendo. É o caso de um movimento articulado por lideranças comunitárias que se formou há menos de duas semanas com o objetivo de dar apoio às populações mais necessitadas que moram nas maiores favelas do Brasil, como Heliópolis e Paraisópolis, em São Paulo, e Maré, no Rio de Janeiro. O grupo, composto também por profissionais de várias áreas do conhecimento (economistas, assistentes sociais, psicólogos, engenheiros), busca não apenas a solução financeira, via doações, mas também estabelecer algumas bases estruturantes, como a presença de voluntários do campo da saúde, assistência jurídica e até fabricação de certos equipamentos. A ideia é também buscar parcerias para dar escala a esse modelo. Maiores informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 3089-8856 ou por mensagens enviadas a porque@bei.com.br.

Outro exemplo é o Fundo Emergencial para a Saúde, criado por organizações da sociedade civil para apoiar as entidades que estão na linha de frente no combate à pandemia, como o Hospital das Clínicas e a Santa Casa de São Paulo, a Fiocruz e a Comunitas, que está investindo na compra de respiradores para serem doados aos hospitais do SUS. Contribuições podem ser feitas pela plataforma www.bsocial.com.br/fundosaude.

Todos estamos impactados até a alma nesse momento. O esforço precisa ser coletivo. Nesse sentido, me parece fundamental a lucidez de perceber que existem ilhas e ILHAS.

Rodrigo Hübner Mendes