PUBLICIDADE
Topo

Opinião

Prêmio Ecoa


OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Contra o Pacote do Veneno, Brasil precisa apostar na agroecologia

Cultivo de verduras e legumes agroecológicos - Virginia Yunes/iStock
Cultivo de verduras e legumes agroecológicos Imagem: Virginia Yunes/iStock
Ana Cristina Nobre, Elizabete Ferreira Nobre e Apolonia Gomes da Silva

sobre os colunistas

Ana Cristina Nobre

Ana Cristina Nobre é educadora social com pós-graduação em Geopolítica e História. Feminista, é filha de agricultores familiares. A Rede Mulheres Produtoras do Pajeú, que ela coordena, foi a vencedora da categoria Iniciativas que Inspiram do Prêmio Ecoa 2021.

Elizabete Ferreira Nobre

Elizabete Ferreira Nobre é educadora social com formação em Psicopedagogia. Trabalha há 15 anos com grupos de mulheres no sertão de Pernambuco.

Apolonia Gomes da Silva

Apolonia Gomes da Silva é educadora social, com formação técnica em Agroecologia. Trabalha há 8 anos com grupos de mulheres no sertão do Pajeú e é integrante do movimento agroecológico e feminista.

16/02/2022 15h53

O nosso planeta, enquanto casa comum, vem exigindo mudanças de comportamento e de atitude em nossa relação com o meio ambiente, sobretudo para preservar a espécie humana e as outras formas de vida que por aqui estão. A exploração sem limites dos recursos naturais vem desencadeando uma transformação ambiental que, segundo os cientistas, compromete a vida na Terra.

O agronegócio brasileiro é um dos sistemas de produção que mais vem explorando e degradando o meio ambiente, provocando expulsão de famílias pobres do campo, secando mananciais e envenenando os solos e as águas. O que se nota é que os governos não têm nenhuma política de controle sobre isso. Muito pelo contrário. A bancada ruralista, que por séculos forma a base dos governos, vem aprovando leis que intensificam a exploração. Prova disso é que nos últimos dias os governistas da Câmara dos Deputados aprovaram a PL 6299/02, popularmente conhecida como "Pacote do Veneno", impactando diretamente na saúde das pessoas e dos animais, contaminando ainda mais o ambiente e fazendo uso de venenos que já são, inclusive, proibidos em outros países.

Agroecologia: um caminho pouco noticiado

Em contraponto a esse pacote da morte, existem diversas experiências agroecológicas desenvolvidas por organizações sérias que, preocupadas com o futuro do planeta, trabalham a sustentabilidade em suas ações, preservando e conservando os meios de vida das pessoas e dos animais em seus diferentes biomas. Infelizmente, elas sequer são notadas pelos governos.

A agroecologia, enquanto ciência, nos ensina a trabalhar de forma harmoniosa com a natureza. Um exemplo são os quintais produtivos agroecológicos trabalhados por mulheres. Desenvolvemos essa experiência no Sertão do Pajeú, em Pernambuco.

Na agroecologia, as mulheres são guardiãs das sementes, das águas, e, sobretudo, são elas com seus saberes e aprendizados que cuidam do meio ambiente.

"Agroecologia para nós, mulheres, é mais do que uma ciência. É um modo de vida sustentável, com práticas justas e solidárias, preservando o planeta para nós e para as futuras gerações; é acreditar que um outro mundo é possível com mais justiça e igualdade, onde nosso trabalho produza, além de alimentos saudáveis, conhecimentos e experiências que transformem a sociedade para melhor."
Ana Cristina Santos, educadora social da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú

Na produção agroecológica dos quintais produtivos, as mulheres criam pequenos animais como galinhas, porcos e caprino ovino e cultivam plantas medicinais para chás e xaropes, além dos alimentos que garantem a soberania e segurança alimentar de suas famílias. Apenas o excedente é comercializado em feiras agroecológicas nos municípios e programas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Sustentabilidade de ponta a ponta

Produzir de forma agroecológica não é apenas deixar de usar veneno, mas adotar um conjunto de práticas que garantam a sustentabilidade do produto como um todo. Por exemplo, as agricultoras sertanejas usam sementes crioulas, que são adaptadas às condições climáticas locais. Elas também promovem mutirão para trocar conhecimentos e aprendizados, comercializam tudo de forma justa e solidária. Tudo isso é agroecologia.

Essas mulheres, que sempre foram vistas como meras ajudantes, hoje ocupam novos lugares nas etapas de produção de alimentos e conquistam dia a dia mais autonomia em sua geração de renda. Muitas delas até mesmo conseguiram escapar de situações de submissão e violência doméstica e passaram a se reconhecer como sujeitos de direitos.

Todas essas transformações são, também, agroecologia. Mas, infelizmente, ainda são pouco percebidas e valorizadas na construção de políticas públicas, que passam por um desmonte nos últimos anos graças às crises econômica e política em que estamos mergulhadas.

Dois modelos, dois caminhos

Pelos rumos que as pautas ambientais têm tomado, fica claro para a sociedade que esse Pacote do Veneno vem fortalecer única e exclusivamente o agronegócio brasileiro, aumentando a exploração sobre os recursos naturais, a contaminação dos solos e mananciais, e, sobretudo, impactando a saúde das pessoas e dos animais.

Sendo um contraponto a esse modelo, a agroecologia convida as pessoas a repensarem suas práticas, sua relação com a natureza, seu modo de consumo. Nos convida a pensar o planeta como nossa casa, respeitá-lo, compreendendo que dependemos um do outro e que, juntos e juntas, podemos construir um novo mundo com mais igualdade e justiça entre as pessoas.