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M.M. Izidoro

Você está sendo enganado

A gente foi e está sendo enganado. - maystra/Getty Images/iStockphoto
A gente foi e está sendo enganado.
Imagem: maystra/Getty Images/iStockphoto

M.M. Izidoro

30/01/2021 04h00

Em um quarto de hotel na Paris de 1925, um homem austríaco chamado Victor Lustig lê em um jornal um artigo sobre a Torre Eiffel.

A Torre, que leva o nome do seu engenheiro, havia sido construída 26 anos antes, em 1899, para marcar a entrada da Feira Mundial de Paris de 1899 com planos de ser desmontada dez anos depois, em 1909. Mas, com o advento do rádio, e com a primeira guerra acontecendo, uma estrutura de mais de 300 metros vinha a calhar para colocar antenas que conseguiam captar as mensagens dos alemães. Agora, mais de um quarto de século depois e com o mundo se recuperando da primeira grande guerra, a cidade de Paris não tinha mais recursos para manter a Torre, que já estava enferrujando e deixada ao deus dará. Com isso, o autor do artigo que Lustig estava lendo se perguntava, "Será que não está na hora de vender a Torre e usar o dinheiro para coisa melhor?".

Foi nesse instante que Lustig decidiu que isso era uma boa ideia, mas que era ele que ia vender a Torre Eiffel.

Em uma série de eventos digna de um filme com o Leonardo DiCaprio, Lustig falsifica documentos e papéis timbrados do governo francês, marca reuniões com grandes empresários de indústrias ligadas ao ferro fingindo ser um funcionário corrupto do governo que pode ajudá-los a comprar as sete mil toneladas de metal da Torre. Não demora nem um dia depois da reunião para ele conseguir fisgar a vítima perfeita para seu golpe, um novo industrialista sedento por atenção e reconhecimento com o infeliz nome de Monsieur Poisson, ou Senhor Peixe.

Lustig pega a maleta que Poisson deu para ele com os valores da Torre e do suborno e minutos depois está em um trem indo para Viena. Chegando na capital da Áustria, ele passa seus dias lendo os jornais procurando por notícias sobre a venda da Torre e do coitado do Monsieur Poisson. Mas essa notícia nunca vem. Ele logo entende a razão.

Veja, a notícia nunca aparece no jornal, porque ao chegar na secretaria municipal que cuidava da Torre Eiffel e mostrar seu documento de compra falso, os fiscais simplesmente riem da cara de Poisson e mandam ele sair dali. Poisson finalmente entende que foi enganado e em vez de ir para a polícia, ou contar para jornalistas, para tentar reaver seu dinheiro e colocar o homem que o enganou na cadeia, ele fica com muita vergonha e simplesmente não fala nada para ninguém.

Eu gosto muito dessa história desde que um dos meus professores da faculdade, e sobrinho neto de Lustig, me contou ela em um café em um sábado de manhã em que ambos não queriam estar na faculdade. Eu sempre pensei muito no cara que cometeu o golpe, Victor Lustig, e como ele era uma espécie de anti-herói que a gente veria em uma série em um serviço de streaming hoje em dia. Nesses últimos tempos meu foco da história acabou mudando. Hoje em dia, eu fico pensando no Monsieur Poisson e por que mesmo sendo enganado e perdendo uma fortuna ele não falou nada para ninguém.

E finalmente eu acho que estou começando a entender por que ele fez isso e é por que todos nós estamos sendo enganados exatamente como ele foi e estamos todos com vergonha de falar com alguém e assumir isso.

Não importa seu nível de escolaridade, quanto você tem na sua conta bancária ou que número você colocou na urna eletrônica nas últimas eleições, você provavelmente não vai assumir, ou até se rebelar, por estar sendo enganado por qualquer pessoa, principalmente aquelas que deveriam estar nos protegendo.

Durante muito tempo foi assim e era até aceitável e confortável, o "mundo" pedia que a gente estudasse, tivesse uma profissão, para poder consumir algo que alguém dizia que a gente devia desejar e assim um dia talvez a gente fosse feliz. Mas como quase sempre acontece, a gente não leu as letrinhas miúdas desse contrato social e que talvez nada ali nos fizesse feliz e que os juros do financiamento do nosso carro e da nossa casa só ia continuar sendo cobrados a gente sorrindo ou não.

Isso se intensificou demais com a internet. Principalmente com as redes sociais e seu modelo de negócios em que os donos dos serviços ganham pelos cliques e pelo tempo que a gente usa seus aplicativos e sites, a verdade deixou de ser algo essencial e o que importa é que o público engaje no conteúdo para poder aparecer algum comercial no nosso feed de algo que a gente não sabia que queria até aquele momento.

Todas essas coisas já não eram legais quando era no individual, mas nos últimos anos isso foi crescendo para o coletivo.

Agora no meio de uma pandemia tivemos provas disso com o caso do grupo do Reddit - um fórum de mensagens online - que manipulou o mercado de ações americano e faliu fundos bilionários do mesmo jeito que os grandes bancos fazem direto e que tiveram seu fórum bloqueado por que foram enganados que qualquer pessoa pode fazer o que quiser no mercado financeiro. Esses mesmos bancos que cobram juros altíssimos se você tiver devendo para eles e te pagam juros minúsculos se você investir em uma poupança. Quantas mulheres morreram porque homens não conseguiram lidar com seus sentimentos de trair ou ser traído. Pior ainda é termos fake news, e até governos no mundo todo, enganando e mentindo sobre a gravidade de um vírus letal e altamente contagioso. Chegando ao cúmulo de até dar tratamentos comprovadamente não eficazes para suas populações. Isso é um sadismo e violência com a gente sem noção.

Ser enganado é um saco. Machuca o ego. Faz a gente parecer um idiota. Além de que, tem poucas forças tão poderosas no mundo ocidental quanto a força que impede uma pessoa de assumir que está errada e pedir desculpas ou de tentar mudar, por parecer um fraco.

O problema é que a gente ficando quieto, essas mentiras vão ficando maiores e mais perigosas.

O Monsieur Poisson foi enganado, perdeu apenas dinheiro e não falou nada. Nós estamos sendo enganados, perdendo nossas vidas e de quem a gente ama, perdendo empregos, educação, até a felicidade de viver e continuamos a não falar nada.

Ao entender que Poisson não ia falar nada, pois estava com vergonha de ter sido enganado, Lustig entende o poder disso e volta para Paris. Não satisfeito em ter dado o golpe uma vez, ele consegue vender a Torre Eiffel pela segunda vez. Dessa vez, o empresário vai até a polícia e denuncia Lustig, que consegue fugir com o dinheiro para os Estados Unidos. Onde em uma vida ainda mais cinematográfica que sua vida na Europa, consegue aplicar golpes como vender a Estátua da Liberdade, vender máquinas que imprimiam dólares falsos e - meu favorito - aplicar um golpe no gangster mais famoso do mundo, Al Capone.

Mas isso não dura muito. Lustig acaba sendo preso pelo FBI e fica preso alguns anos na famosa prisão de Alcatraz, na Califórnia, onde coincidentemente reencontra Al Capone. Até que morre sozinho em uma cela com um postal da Torre Eiffel preso na parede onde se lia, "vendida por cem mil francos".

Essa história toda do Lustig é muito divertida, mas é por que ele estava tirando dinheiro de gente rica e criminosos, como um Robin Hood Húngaro (que não dividia o dinheiro com ninguém). Mas a história que a gente está vivendo hoje é triste demais e a cada momento que a gente fica calado, não assumindo que estamos sendo enganados e não indo atrás de mudanças são mais milhares de vidas afetadas, algumas das quais não irão estar mais aqui.

A gente foi e está sendo enganado.

Está na hora da gente respirar fundo, assumir o fato, deixar a vergonha de lado e fazer alguma coisa sobre isso.