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Já podemos falar sobre luto e genocídio da população negra e periférica

Inês Bonduki/UOL
Imagem: Inês Bonduki/UOL
Mariana Belmont

Nascida em Colônia, extremo sul da cidade de São Paulo, Mariana Belmont se define como uma esticadora de pontes. Atuando com mobilização e comunicação para políticas públicas, faz parte da Rede Jornalistas das Periferias, constrói o Ocupa Política e colabora com a Uneafro Brasil.

02/04/2020 04h00

Quando eu era criança já tinha muito medo de morrer, é verdade, eu sempre tive muito medo. Nunca lidei muito com a morte, a morte sempre foi um grande problema que precisei enfrentar algumas vezes, perdendo família e amigos. Era sempre como se a gente, um pedaço da história, se fosse. Eu sei que não é assim, a morte gera ensinamentos, mas outras mortes nos geram ainda mais ódio ao Estado.

Já perdi amigos que foram mortos pelo Estado, pelo tiro e pela falta de comida ou atendimento decente em qualquer pronto-socorro, de qualquer periferia deste país. Meu amigo, seu amigo, meu irmão, seu irmão, seu pai, sua mãe, seu filho ou qualquer pessoa que vive em situação de pobreza e vulnerabilidade extrema no Brasil. É triste? Absurdamente.

Vivemos tempos ainda mais difíceis, ainda mais dolorosos, sabendo que muitos dos nossos serão jogados em valas, não terão mais uma vez direito a velório e enterro. Serão esquecidos pelo Estado que nem contando os corpos os desgraçados estão.

E quem conta nossos mortos?

Corpos que morrem pela bala do Estado e por outras doenças não identificadas no pronto-socorro, porque está tudo muito cheio. Pessoas que vão morrer de fome ou de coronavírus mesmo, porque pegaram dos patrões que não dispensaram do trabalho.

Por hora já começamos a entender que a redução dos investimentos sociais, junto com a privatização dos serviços públicos, é o caminho irresponsável e descabível que o SUS ainda que precário precisa ser mantido e garantido para toda a população. O SUS precisa ser melhorado para atender com rapidez e eficiência. Os nossos direitos trabalhistas são fundamentais para que o trabalhador tenha qualidade de vida junto com a sua família.

A desigualdade social será ainda mais sinônimo de mortes seletivas nas periferias, sabemos bem a cor e a renda das pessoas que já começaram a morrer e são subnotificadas pelos hospitais. São muitos os que já morriam todos os dias, agora será cada vez mais.

Ficar em casa é privilégio, se você pode, fique. Você ficando em casa ajuda a retardar a propagação do vírus pela cidade. Mas se você não puder porque precisa trabalhar, se cuide, se proteja e, se for o caso, denuncie o seu empregador. Quando tudo passar precisamos repensar nossos governantes, repensar porque votaram em Bolsonaro (sim, vamos precisar falar de novo sobre isso, mas propositivamente). E vamos precisar com urgência olhar para o sistema público de saúde com um olhar generoso e de urgência para grandes mudanças.

Teremos um grande desafio político, e nesse sentido quero dizer que teremos que olhar a política como meio fundamental para o combate às desigualdades, um olhar para reconstrução. E é isso que me alimenta. É isso que me dá forças todos esses dias. Dentro de casa há quase 20 dias, preocupada com minha família em Parelheiros, meus amigos e toda a rede de proteção e afeto. Toda essa rede que vai precisar falar de política e vida assim que essa onda passar e estivermos prontos e vivos.

Para saber e acompanhar tudo sobre o Covid-19 nas periferias, vou deixar os links abaixo. Consuma, compartilhe e ajude os coletivos de comunicação periférico. #CoronaNasPeriferias

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Mariana Belmont