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Mari Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Os padrões que matam Lorenas

Lorena Muniz, de 25 anos - Reprodução/Instagram
Lorena Muniz, de 25 anos Imagem: Reprodução/Instagram

Mari Rodrigues

27/02/2021 04h00

Na última semana, mais uma tragédia chocou a comunidade LGBTQIA+: a morte de Lorena Muniz, mulher trans que saiu de Recife para implantar próteses de silicone numa clínica em São Paulo. Após ser deixada sedada na clínica que começou a pegar fogo, foi internada em estado grave e não resistiu.

Em entrevista, o marido de Lorena disse que a implantação das próteses era o sonho dela, e que ela sofria muito preconceito, o que é uma constante entre pessoas trans. E todo esse desenrolar trouxe uma lista de questões que deveriam ser discutidas.

A primeira é sobre a insuficiência de políticas de saúde pública para as pessoas trans. Desde a formação de profissionais conscientes das questões de saúde específicas dessa população até os procedimentos que permitam uma transição segura, nada parece trabalhar a favor das meninas.

Elas ainda recorrem a procedimentos arriscados como a aplicação de silicone industrial ou outros procedimentos cirúrgicos em locais despreparados, e depois só resta ao sistema público trabalhar com a redução de danos. Talvez se houvesse maior disponibilidade de estrutura mínima para se realizar tais procedimentos em locais seguros, a tal redução de danos nem seria necessária.

Outra coisa intrigante, e que queria desenvolver melhor aqui, é uma discussão sobre o porquê dessas meninas se sujeitarem a estes procedimentos arriscados. Se entendermos o contexto de que a maioria das pessoas trans no Brasil está sobrevivendo da prostituição, podemos deduzir que há um padrão corporal específico que o "mercado do sexo" exige. E podemos deduzir também que há um padrão corporal que a sociedade exige para que pessoas trans sejam minimamente toleradas ou para que passem "despercebidas" aos olhos das pessoas preconceituosas.

Pensar nisso traz a suposição perversa de que uma pessoa trans só pode ser aceita se se sujeitar a toda sorte de procedimentos para se encaixar neste padrão: impostação de voz, procedimentos faciais para deixar o rosto mais "feminino", próteses de silicone, e mesmo a transgenitalização. Tudo isso para ser mais "feminina", para ser mais próxima do padrão do "feminino" imposto pela sociedade, e em última instância, pelo "mercado do sexo".

Pessoas trans a todo momento parecem que "precisam" ter sua identidade validada por outras pessoas; só a autodeterminação consciente não basta, e pode ser questionada a qualquer tempo.

Muitas acreditam que só com estes procedimentos cirúrgicos, conseguirão a harmonia entre corpo e identidade, e pensar isso é totalmente válido. O que não pode acontecer é a situação atual, em que somente com esses procedimentos se consiga um pouco de respeito, e por consequência, um pouco de dignidade. E outras Lorenas se arrisquem com a própria vida para atingir essa dignidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL