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Mari Rodrigues

Nivelar por muito alto e a farsa da meritocracia

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

24/10/2020 04h00

Achei que não iria falar sobre isso, até porque é melhor ignorar certas indignações para não dar vitrine; esta, porém, é uma conversa necessária. Esta semana, vimos como uma fintech super "descolada" virou o assunto do momento quando sua cofundadora citou a dificuldade em encontrar altos cargos, devido às altas exigências.

Também citou que para algumas destas vagas, há uma questão com o domínio do inglês, e até aí, tudo bem; só que numa fala extremamente infeliz, ao ser questionada sobre o fato destas altas exigências dificultarem a contratação principalmente de pessoas negras, ela respondeu que não pode "nivelar por baixo" e que investe em formação.

Ou seja, no pensar dela, pessoas negras ainda não têm as qualificações suficientes para estar em sua empresa, por não terem o padrão quase intransponível de qualificações que a mesma exige. Há tantas pessoas, brancas ou negras, cheias de qualificações (tanto hard skills quanto soft skills) que devem ter se sentido ofendidas com essa declaração.

E isso reflete a farsa que é a "meritocracia" por tantos defendida. Não há igualdade de condições quando não há igualdade de acesso. Pego isso por este período que estamos passando nas universidades. Nem todo mundo tem a condição material ou mesmo mental de seguir as aulas; ainda assim, a empatia é de poucos. E a qualidade do aprendizado é nitidamente inferior.

A moça citada pediu desculpas, como qualquer pessoa minimamente sensata faria. Agora a questão é se essas desculpas serão efetivadas em ações, como perceber quais exigências são extremamente restritivas e como fazer com que as pessoas beneficiadas por essas ações almejem um desses postos quase impossíveis de se conseguir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.