PUBLICIDADE
Topo

Por que o apoio à diversidade nas empresas incomoda tanto?

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Mari Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

26/09/2020 04h00

Na última semana, teve muita repercussão o fato de o programa de trainees do Magazine Luiza ter aberto vaga apenas para candidatos negros. Tal fato gerou furor entre extremistas e políticos de viés conservador, que chamaram tal atitude da empresa, uma das mais valorizadas do país e com bom desempenho na bolsa de valores, de "racismo reverso".

Este termo, absurdo de tão ridículo que é, só mostra a que ponto chegamos no trato com a diversidade. Privilégios de séculos de uma sociedade escravagista que resistiu o quanto pôde para se manter racista e escravagista, e que agora estão sendo quebrados como uma reparação histórica às populações oprimidas por esse regime, continuam tratados pelas pessoas brancas como "direito líquido e certo", e as tentativas de tornar os quadros empresariais mais diversos são vistas como uma afronta a esse pensamento.

Discussão semelhante aconteceu quando foram aprovadas as cotas raciais nas universidades. Preciso fazer um mea culpa: eu também fui contra as cotas raciais, iludida pelo discurso de meritocracia que é bastante problemático. Meritocracia envolve oportunidades iguais para todos, e hoje sei que pessoas negras nunca tiveram as mesmas oportunidades que pessoas brancas. Portanto, as cotas ainda são necessárias.

Esta discussão sobre o programa de trainees do Magazine Luiza me trouxe alguns questionamentos. Como as empresas estão buscando tornar seus quadros mais diversos e mais alinhados à realidade racial, de gênero e de orientação sexual do Brasil? Como transformar as vidas de pessoas que têm qualificação, mas não oportunidades, e assim transformar inclusive os ambientes corporativos?

Na empresa em que trabalho, do pouco mais de uma dúzia de pessoas que têm algum poder real de decisão, apenas duas são mulheres; nenhum negro. De um universo de mais ou menos duas mil pessoas, apenas duas pessoas trans. Como colocar mais pessoas negras e mais pessoas LGBTI+ em ocupações que não sejam as estereotipadas para essas populações?

Mesmo quando se fala na população LGBTI+, vê-se que em algumas empresas, o padrão se repete: homens gays, brancos, de classe média, ainda são a maioria nas atividades mais burocráticas e de decisão. Quando as áreas de recursos humanos enfrentarão seus racismos e LGBTI+fobias para mudar este cenário?

Iniciativas como do Magazine Luiza ainda são muito pouco. Pensar estratégias de ter mais pessoas qualificadas com oportunidades reais de serem líderes em empresas, grandes ou médias, ou mesmo em órgãos do governo, deve ser um norte para políticas públicas de inclusão e de erradicação das desigualdades.

Isto ainda precisa ser feito de forma paliativa, como as tão faladas cotas. Foi uma verdadeira luta para implantar cotas raciais e sociais nas universidades, o que tem mudado a realidade do alunado, ainda incompreendida pela alta administração que ignora toda e qualquer realidade fora da sua. Foi outra luta implantar as cotas raciais em concursos públicos e em vagas de estágio na administração pública, para mudar uma mentalidade.

Podemos pensar também em cotas para pessoas trans, que algumas universidades já implantaram, não sem muita polêmica, e que continuarão no debate por um bom tempo, até a normalização em nossa sociedade de que pessoas trans são pessoas e merecem dignidade. E em programas específicos de qualificação para essas pessoas, que necessitam desse apoio para se erguer como pessoas dignas que são. E que também têm direito a almejar um posto de liderança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.