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Sobre feminismos e interseccionalidade

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

27/06/2020 00h04

Este mês, o do orgulho LGBTI+, trago à discussão temas caros às pessoas trans. E hoje, o meu papo é sobre feminismo. Um feminismo possível.

Recentemente, temos visto estarrecidos como a escritora J. K. Rowling, da saga Harry Potter, se afundava num mar de declarações transfóbicas, uma pior que a outra. E a reação de vários artistas, inclusive que participaram dos filmes da saga, contrária às declarações da autora mostrou que ainda há esperanças de um mundo mais compreensivo e deram um recado: a aceitação de pessoas trans é primordial num movimento que se considera progressista.

E caímos num terreno espinhoso. Algumas vertentes do feminismo não compreendem a questão trans como válida ou a deturpam, como aquelas que consideram homens trans como parte do seu feminismo apenas por estes terem sido designados mulheres no nascimento, ou são ainda mesmo abertamente transfóbicas, quando encaixam as mulheres trans no conceito de "estupradores em potencial".

A cultura do estupro, que realmente existe na nossa sociedade e que é um tema extremamente válido para se discutir e se desconstruir, foi levado a um nível paroxístico por certas vertentes do feminismo e algumas mulheres, felizmente poucas, mas infelizmente beligerantes, aproveitaram-se para usá-la como muleta para propagar seus próprios preconceitos.

Pergunto-me: que tipo de feminismo é esse? Quando foi que se trocou a sororidade pelo ódio? Quando foi que a discussão sobre os direitos reprodutivos se tornou uma invalidação do gênero pelo fator biológico? Quando foi que a liberdade feminina, inclusive sexual, virou uma cruzada de intolerância pelo temor infundado do estupro? Se quem estupra é homem, por que mulheres trans, que não são homens, são consideradas fonte de estupro?

O feminismo que se diz progressista é interseccional e reconhece as diferenças que cada mulher tem nas suas lutas contra as opressões machistas. Questões de classe, cor, identidade de gênero, dentre outras, são consideradas nas construções de pautas comuns, que abarquem todo mundo.

A filósofa e ativista Angela Davis recentemente mostrou-se favorável a esta interseccionalidade, quando declarou que as mulheres trans, e principalmente as mulheres trans negras, são peça fundamental na construção de um feminismo libertador para todas as mulheres. E o que aconteceu? Algumas mulheres, ditas feministas, têm espalhado nas redes sociais (sempre elas, palco do que presta e do que não presta) que ela falou isso por medo. Ilação esta de uma desonestidade sem tamanho.

Onde e quando uma mulher, negra, que enfrentou tudo o que já enfrentou, teria medo? Ainda mais medo de gente que está do seu lado? Quando finalmente nos livrarmos do ódio do outro, e do ódio de nós mesmas, quem sabe este feminismo possível, que já se forma e que já é forte para o que propõe, não seja invalidado.