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Uma visita ao Capão Redondo e um choque de realidade

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

23/05/2020 04h00

Para aqueles que ainda pensam que sou mais uma ativista de sofá, vou contar uma história bem interessante hoje.

Um colega da faculdade iniciou uma campanha de arrecadação de produtos de higiene e cestas básicas para pessoas LGBT+ do Capão Redondo, uma comunidade carente de São Paulo, que tem sofrido bastante com a pandemia. Só na rua onde ele mora, três pessoas contraíram o coronavírus e uma faleceu.

Na última semana, eu e mais alguns colegas fomos até o bairro entregar cestas básicas e conhecemos um pouco da dinâmica do lugar: grafites em vielas, muitas escadas para subir e descer os morros, casas com músicas evangélicas em alto volume... Alguns moradores, sabendo da campanha, nos agradeceram pela iniciativa e esperam que ela se mantenha durante o período.

A auto-organização das comunidades é uma das poucas coisas que pode nos salvar durante este período tão difícil. E o sentimento de gratidão das pessoas ajudadas é recompensador. Sabemos que para estas regiões, tão necessitadas de serviços básicos e que sem uma forte presença do Estado acabam levando jovens sem perspectiva para o uso de drogas e a criminalidade, qualquer ajuda é bem-vinda.

É ainda mais emblemático que essa ajuda tenha partido de pessoas LGBT+ para pessoas LGBT+. Se o discurso de combate ao preconceito contra nós ainda está em consolidação nas áreas centrais, tentem imaginar como é difícil levá-lo às periferias. Ainda se fala no "viadinho", na "vergonha da família", entre outros adjetivos pejorativos. Somente uma força de vontade muito grande consegue manter as pessoas LGBT+ de pé em ambientes tão hostis.

A visita ao Capão Redondo foi um verdadeiro choque de realidade para todos que participaram dela. Percebemos que as necessidades vão além de cestas básicas e produtos de higiene. A presença do Estado, não apenas policial, mas com políticas públicas efetivas, como mutirões de saúde, fomento ao lazer e outras atividades que sejam do interesse da população tão diversa do bairro, é fundamental para mudar uma realidade de sofrimento.

Se você tem interesse em contribuir de alguma forma com essa ação de solidariedade no Capão Redondo, entre em contato com o Josimar, pelo e-mail jomont@usp.br.