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Pedofilia. Em todo lugar.

Mari Rodrigues

Estudante de Letras, Marina Rodrigues participa da Frente de Diversidade Sexual e de Gênero da USP. É apaixonada por comida do norte e por reciprocidade nas relações. Ainda está decidindo o que vai fazer com sua vida.

16/05/2020 04h00

O dia 18 de maio é marcado pela lembrança do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. E por que você está falando isso, Mari, o que tem a ver? Respondo.

É comum ouvir falar que os homossexuais são pedófilos abusadores de crianças. Um grande absurdo falar isso, pois isso é apenas uma projeção do que certas pessoas, embebidas em seus ódios, querem que acreditemos. Associar a homossexualidade à pederastia, a prática sexual entre um homem mais velho e outro mais jovem, não é nada muito recente; desde os tempos de Platão, já existia esse papo.

Interessante salientar que isso só é condenável pela pessoa média quando se trata de relações homossexuais. Mas um silêncio sepulcral surge quando precisamos comentar sobre a normalização da pedofilia em relacionamentos heterossexuais. Sim, normalização da pedofilia, essa mesma que contribui para a normalização de determinados comportamentos, que mentes mais doentias transformam em abuso.

Não é normal, ou melhor, não deveria ser normal o galã de novela ou de cinema já nos seus quarenta, cinquenta anos, só ter como pares "românticos" menininhas de vinte. Não deveria ser normal a cultura da "novinha safadinha" expressa quase graficamente nas letras de funk. Não deveria ser normal uma pornografia em que quanto mais cara de criança a menina tem, mais sexualmente atrativa ela se torna.

Parafernálias feitas para esconder os avanços da "mulheridade", como os já banais cremes "anti-idade" e mesmo coisas muito específicas como os clareadores íntimos, contribuem para "infantilizar" a mulher e normalizar um pensamento de que só assim se pode ser sexualmente atrativa. E daí para o abuso infantil, é um pulo.

Botar a mão em nossa consciência e perceber as sutilezas cotidianas que normalizam e de certa forma legitimam comportamentos repugnantes como a pedofilia é um passo. O outro é ensinarmos as nossas crianças, pelo menos as que falam, a se protegerem desses abusos e conseguir falar sobre eles. A educação sexual não é uma forma de corromper as crianças, muito pelo contrário, é uma forma de fazer com que elas saibam melhor sobre seu corpo e sobre suas defesas contra atitudes doentias.