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Lia Assumpção

Ecossistemas e sustentabilidade

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

11/10/2020 04h00

A palavra do título tem me perseguido nas últimas semanas. Vira e mexe, ela aparece num texto que estou lendo ou em uma conversa aleatória.

Sempre que ouço "ecossistema" me lembro da aula de biologia do colégio e penso na bromélia, que era o exemplo que meu professor dava de um miniecossistema. Isso porque nessa planta tem uma espécie de piscininha com alimentos e água para os bichos que quiserem morar por ali. Então, digamos, ela vira uma casa com piscina para moscas e aranhas que quiserem dividir a casa com ela.

Ecossistema, na definição do Houaiss é: ECO sistema que inclui os seres vivos e o ambiente, com suas características fisioquímicas e as inter-relações entre ambos." Olha a bromélia dividindo sua piscininha com a aranha!

A vez mais recente que ela surgiu, foi numa conversa com uma amiga bióloga que está trabalhando num projeto de implantação de um gasoduto no litoral brasileiro. O trabalho dela é olhar o projeto desenvolvido pela empresa e analisar o impacto desta implementação no meio ambiente. Ela estuda comunidades pesqueiras, então seu estudo fica mais voltado para essa parte. E aí é que está. O que ela estava me contando é que é muito difícil de separar todas as partes num trabalho como este. O peixe está no mar, rodeado de outros peixes, plantas, corais. Ao redor desse mar, normalmente tem uma comunidade que mora ali e pesca, anda de barco, nada e que muitas vezes não tem saneamento, por exemplo. Então, quando ela olha para os impactos da implementação na pesca, não dá pra não esbarrar em tudo que a pesca está, digamos, encostadinha. É tudo uma coisa só, um ecossistema. Como o da bromélia, talvez não tão mini…

(Me vem em mente um livrinho pequeninho que leio para os meus filhos que vai fazendo como que uma lente de aumento para dentro e depois para fora da casa do personagem. A casa dele está numa colina e tem uma janela, que tem um quarto, que tem uma cama, que tem uma meia embaixo da cama; a casa está numa colina, que está abaixo de uma nuvem que chega também até uma outra colina que tem uma caverna onde mora o abominável homem das neves. A brincadeira do livro está em olhar para o micro e o macro, nas muitas páginas de ilustrações. E já me vem em mente um monte de outros quadros que brincam com isso também, mas olha só o tamanho desse parêntesis!)

O trabalho dela é também tentar mitigar o dano que a implementação de um gasoduto, por exemplo, pode causar. Essa mitigação pode se dar por meio de programas de compensação ambiental em que são disponibilizados cursos e materiais para ajudar quem mora ali a entender o efeito dessa mudança, lidar com ele, e tentar adotar práticas mais sustentáveis ali naquele entorno. Também pode se dar numa sugestão de mudança do lugar onde passará o gasoduto e que cause menos dano. Mas a coisa é que é muito difícil separar as coisas; além também do fator "se correr o bicho pega, se ficar o bicho come" porque ela é só uma das muitas pessoas da equipe que analisa esses projetos (ela é mais voltada para a pesca, mas tem quem olhe mais para os corais, quem olhe mais para a comunidade e assim por diante). Então, se ela achar que para a pesca, tá tudo ok, pode tocar o projeto, a moça do coral pode dizer, "ih, aqui tem uma barreira enorme de corais, não dá para o cano passar não". E isso tudo junto com o pessoal que olha os custos, do jurídico e uma quantidade de gente e de variáveis que dão uma palhinha da complexidade de fazer esse tipo de implementação…

Como tudo impacta em tudo — e tudo já está previamente impactado —, não dá pra fazer uma conta separada de cada coisa impactada (parece um trava língua, não? Três tigres tristes…). Então, não dá pra fazer a conta de se o tubo passar aqui, ele vai destruir esse tanto de área de coral, que não tem como replantar e nem deslocar, e o coral faria isso, então, a gente faz aquele outro pra compensar.

E a ideia dela é, então, olhar para o empreendimento e o impacto dele no ambiente, como se olha para um ecossistema — nesse caso com peixes, mar e a comunidade que mora ali — e as relações que existem ali para tentar, digamos, melhorar o que não está funcionando bem por ali.

Como na imagem do livro dos meus filhos que falei acima, fico imaginando muitos ecossistemas, que integram outros ecossistemas; começando com um monte de pequenos e micro elementos que fazem nosso corpo funcionar como um único humano; muitos humanos morando em uma cidade que tem carros e pessoas e comidas e lixo; muitas cidades formando um estado; muitos estados formando um país; e assim até chegarmos ao globo como um todo.

E tudo isso não é muito diferente do que diz respeito à produtos. Se nas questões relacionadas à natureza, usamos ecossistemas, nas relacionadas a produções industriais, usamos sustentabilidade. E ecossistema é muito amigo de sustentabilidade; porque a sustentabilidade também inclui seres vivos (nós) e ambiente; e deve contemplar também as inter-relações entre ambos. Lembrando que a Sustentabilidade verdadeira tem 3 partes: ambientais, sociais e econômicas. As que servem só para vender produtos, normalmente, deixam algum dos 3 aspectos de fora.

Imagina então se, como no caso dos gasodutos, houvesse também uma análise de sustentabilidade de cada produto colocado no mercado? Porque com produtos (pequenos ou grandes), também não dá muito pra separá-los de seus impactos. Você pode não querer olhar pra isso, mas que impactos acontecem, acontecem. Muitas empresas tem departamentos de sustentabilidade, é verdade; mas me pergunto se nesses departamentos, quanto desses impactos são levados em consideração; se é uma pauta mitigá-los; se tentam de alguma maneira reduzir lixo, por exemplo, facilitando o conserto de eletroeletrônicos ou responsabilizando-se por embalagens descartadas. Me pergunto se a pauta de sustentabilidade nos departamentos de grandes empresas tem essa visão mais sistêmica dos produtos ou se elas fazem somente o necessário para que algo seja enquadrado como sustentável (muito mais como palavra da moda do que como conceito mesmo).

Tenho certeza que não existe uma resposta só para essas perguntas e que tem empresas de todo tipo e muita gente preocupada de fato com a sustentabilidade, tentando encontrar soluções para os problemas do lixo, por exemplo.

Quando falamos de ecossistema, tratamos de relações entre seres vivos e o ambiente. Quando falamos de sustentabilidade, fazemos parte da conta de maneira "mais oficial", digamos; além de incluir nela a parte econômica. Nos dois casos, é preciso olhar o conjunto todo da coisa. Como diz uma amiga, estamos todos em cima de uma grande bola que gira no Universo. E a ideia de olharmos todos os processos de maneira mais sistêmica e sustentável, quer dizer que não podemos deixar de fora nenhuma das espécies que giram em cima da bola junto com a gente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.