PUBLICIDADE
Topo

O shopping center e a bifurcação

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

23/08/2020 04h00

Um tempo atrás meu filho de 9 anos me perguntou porque eu não gosto de shopping centers. Me distraí pensando que a pergunta já vinha com uma afirmação (de que eu não gosto desses locais) e acabei respondendo alguma coisa rasa que não me lembro qual é; mas a pergunta ficou comigo por uns dias.

Não sei se isso acontece com vocês, mas às vezes meus filhos me perguntam algo e eu fico ali olhando para aqueles olhos curiosos pensando qual lado da bifurcação tomar. Por que podemos pegar o caminho mais curto, com uma resposta rasa qualquer, ou o caminho mais longo, de fazer da pergunta um gancho para um conversa a respeito de algum assunto maior. Acho que nesse dia, tomei o caminho mais curto por pura falta de tempo, mas a pergunta ficou comigo, elaborando a conversa mais longa sobre consumo que ainda não veio.

No meu planejamento da conversa, fiquei com vontade de separar a ação (consumo) do local (shopping center). Mas eis que percebi que elas são meio inseparáveis pois o nome que vem do inglês, já traz a ação e o local juntas: shopping (comprar) center (centro); ou seja, centro de compras. O dicionário online me ajudou um pouco na tentativa de separação, porque lá definição é "substantivo masculino; centro comercial; estabelecimento que possui, num mesmo local, diversas lojas, serviços, cinemas, teatros etc. Etimologia (origem de shopping center). Do inglês shopping center." Graças a ela, me lembrei da loja que conserta celular, da Receita Federal que tem num shopping aqui de São Paulo e que já me ajudou muito no quesito praticidade. Com isso, consegui me libertar do meu primeiro pensamento de resposta (não executada) que era: o shopping estimula as pessoas a associarem alegria e satisfação a consumo, endeusando essa ação.

A ideia de separar um pouco as duas coisas, era tentar manter a conversa em aberto, já que havíamos largado de uma opinião fechada. Queria mostrar minha opinião, mas não gostaria que ela consolidasse uma ideia na sua cabecinha em formação.

Um parêntesis longo pra falar desse pensamento educacional. Quando tinha uns 4 anos esse mesmo filho me perguntou se eu acreditava em algo pelo qual ele estava muito interessado e eu respondi a resposta curta: não. E ele chorou. Muito. Não deu pra consertar nesse dia, porque ele ficou inconsolável, mas aprendi que a gente não deve responder nem sim nem não para perguntas importantes (em minha defesa, digo que agachada ali do lado do box com a manga da camiseta molhada depois de lavar o cabelo dele, com pressa porque tinha que acabar algo logo após o banho, não percebi que era importante). Enfim, entendi que as respostas têm que ser abertas ou pessoais, para que as portas e janelas das cabecinhas deles continuem abertas para o ar entrar e as ideias fluírem e eles irem se apropriando de suas próprias opiniões, de acordo com suas idades. E isso serviu para eu entender que a cada uma dessas bifurcações seria bem importante ele perceber que tudo bem cada um pensar e acreditar em coisas diferentes, que meu amor por ele não muda se nossas opiniões a respeito de algum assunto forem diferentes.

Enfim, acho que na coisa do shopping center fiz uma linha rápida na minha mente de que eu sou crítica a respeito de consumo, porque acredito que ele deixou de ser algo que se faz por necessidade, para tornar-se algo central em nossas vidas. Ficamos suscetíveis a novos desejos que nos são apresentados e que nos apegamos sem saber exatamente o por quê. Aceitamos ideias de que precisamos loucamente de algo que, se pararmos para pensar, não precisamos realmente. Muitas vezes, tenho uma visão a respeito de shopping centers de que ele só pode ser frequentado por gente que só encontra alegria no consumo. Ou que se eu passar a frequentar o shopping, sucumbirei eu também a essa ideia. E sei que me equivoco, pelos motivos que acabei de listar acima e porque cada um está lá por alguma razão que realmente não é da minha conta e cada um com sua opinião e escolha, não era isso que eu aprendi no banho?

Talvez eu pense isso porque li num livro que leva o título de "Vida para consumo" que deixamos o consumo ficar central em nossas vidas e aí, ficamos meio reféns de algo que deveria ser feito para nos servir; e assim, passamos a conviver em sociedade com regras de mercado. E o shopping center pra mim é um pouco a materialização dessa ideia.

Durante a quarentena, li um monte de elucubrações a respeito da mudança nos nossos padrões de consumo. Um otimismo que estranhei (e olha que me enquadro na categoria otimista). Por um momento acreditei que o consumo consciente dominaria o mundo e que compraríamos todos menos e geraríamos menos lixo e passarinhos cantariam e a seríamos todos felizes (contém ironia). E eis que no primeiro dia de reabertura do comércio as vendas em shopping centers superaram as expectativas. E eu lembrei dessa pergunta do meu filho, da conversa não conversada, do Bauman (autor desse livro do consumo) e de todos os amigos pessimistas que falaram que era tudo balela essa mudança do paradigma depois da pandemia e que tudo voltará a ser como antes, quiçá pior!

E pensei que, na verdade, não preciso ter essa conversa com meu filho, porque pela própria percepção dele, das coisas que compro e não compro por motivos variados, a ideia de que devemos ser responsáveis pelo que consumimos está sempre presente, indireta ou indiretamente. E que estar consciente disso significa também estarmos críticos e atentos para não deixar o consumo dominar nossas vidas, ainda que ele seja parte dela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.