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Lia Assumpção

Obsolescência programada, de novo.

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

16/08/2020 04h00

Costumo dizer que todo mundo conhece essa prática, só não sabe seu "nome". A prática a que me refiro é a de ser mais fácil (ou mais barato) comprar algo novo do que mandar consertar algo que já se possui. Esse é um dos "sintomas" da obsolescência programada, assunto que pesquiso há um tempo e acabo sempre falando por aqui.

Uma definição mais formal pode ser: obsolescência programada é uma estratégia de mercado que reduz o tempo de vida útil de um produto, tornando-os ultrapassados e motivando o consumidor (ou nos obrigando mesmo) a comprar um novo. De maneira geral, essa redução do tempo de vida do produto pode acontecer de três maneiras: a) pelo lançamento de um produto em uso com uma nova aparência que torna a anterior ultrapassada; b) pela impossibilidade de conserto do produto em uso; c) por sua tecnologia não funcionar mais, tornando lentos alguns dispositivos ou impossibilitando o uso do equipamento em alguns casos. Na prática, você pode pensar em algum produto que acabou de comprar porque não conseguiu consertar o que tinha antes. Talvez um telefone celular?

Uma das principais conclusões da minha pesquisa de mestrado — dando spoiler — é que o termo está obsoleto por si só. Isso porque a lógica do compra-usa-descarta já está tão naturalizada na maneira como consumimos, que não é necessário que as coisas sejam feitas para quebrar para que as troquemos.

Pensa só nas últimas coisas que quebraram por aí. Arrisco dizer que você se revoltou ao perceber que não conseguiria consertar e teve que trocá-las um pouco a contragosto; ou que você concluiu que o conserto custaria quase a mesma coisa (ou eventualmente mais caro) do que comprar um novo. Ou que você nem pensou em consertar, afinal, custa tão barato a nova versão ainda é muito mais bonita ou veloz do que a que você tinha. Pois é isso tudo que eu chamo de estar naturalizado.

Eu, que tenho todos esses pensamentos, várias vezes não consigo resistir ao compra-usa-descarta. Isso porque consertar vai na contramão dessa lógica e, muitas vezes, custa muito caro ou demora demais pra consertar algo. E eu me rendo. Às vezes não tem opção mesmo, não é possível colocar mais memória no computador, ele não roda o sistema e não rodar o sistema, faz com que eu não possa trabalhar. E sim, nesses casos eu me irrito muito e tenho vontade de ficar fazendo discurso pra atendente da assistência técnica. Nos dias que estou tomada pelo otimismo (fantástico talvez), eu faço discurso, faço sim. Um pouco na ambição de convencer mais uma pessoa de que o sistema é errado, outro pouco na esperança inexplicável (fantástica, talvez) de que meu interlocutor compre essa briga lá dentro da empresa e fale com alguém que fale com alguém que pense, "é mesmo!"; e que tudo mude.

Apesar de gostar muito desse assunto (e por vezes tê-lo quase como uma causa a ser defendida), de tempos em tempos, acho que ele é irrelevante. Um pouco por conta dessa conclusão do meu mestrado (afinal, a máquina gira assim e vai levar um tempo até ela parar), outro tanto porque, nesses dias de pessimismo não vejo mudanças efetivas em larga escala (numa indústria, por exemplo), e as pequenas iniciativas (que são muitas!) me parecem irrelevantes. Nesses dias, me sinto eu mesma um pouco obsoleta. Mas o que acontece muitas vezes quando sou acometida por esses pensamentos (que não levam a nada), é que acabo esbarrando em alguma notícia que me diz o contrário deles todos. Semana passada aconteceu isso. No meio do pessimismo chegou a mensagem de uma amiga que está trabalhando em um projeto que trata questões de sustentabilidade. Ela me pedia uma ajuda porque o coordenador do projeto, estava pedindo para ela dar mais ênfase à obsolescência programada.

Uns dias depois, li a notícia de que a Microsoft apresentou um plano de parar de usar plásticos descartáveis em suas embalagens até 2025 e zerar a produção de lixo em suas operações até 2030. Eles planejam criar "Centros Circulares" para que os resíduos possam ser reutilizados ou reciclados por eles mesmos, ao invés de terceirizar esse serviço.

Finalizei a semana com um encontro com um cliente do mundo do café que quer introduzir aos clientes a compra a granel. Ficamos pensando juntos em separar o preço do produto e da embalagem, de maneira a estimular a pessoa a voltar com sua latinha para encher de café novamente, ao invés de ir lá e comprar tudo de novo. (tudo bem, aqui não é obsolescência programada, mas é anti-descartáveis e o conceito de descartável é um primo muito próximo da obsolescência programada, talvez até irmão.)

Além desses fatos que, no final das contas, começam a acontecer mas não tem resultados que podem ser vistos na prática (em forma de novos produtos que sejam passíveis de serem consertados, por exemplo), tem notícias da Comunidade Europeia que há tempos vem estudando regulamentar as empresas para que ofereçam serviços de reparo a seus produtos, fugindo da lógica da obsolescência programada.

Algumas notícias são longe, outras perto, mas ainda que o termo "original" esteja obsoleto, o assunto é muito atual e vale a pena pensar nesse sistema nocivo em que vivemos. Isso porque, vindo de vários lados diferentes, começam a surgir ações (em formas de leis e produtos) que vão na contra-mão da lógica do compra-usa-descarta. Porque já tem bastante gente querendo fazer a coisa andar em outra direção. E me agarro no pensamento que compartilhei aqui outro dia: muitas iniciativas surgindo em pequenos círculos que vão crescendo e crescendo até que um encontre o outro e formemos uma nova malha de boas práticas, no que diz respeito ao consumo consciente e à questões de sustentabilidade.

E só de escrever essa coluna, já me toma de novo o otimismo e a urgência de falar desse assunto. Talvez eu ligue em alguma empresa concorrente da Microsoft na esperança (fantástica) de catequizar alguém. Ou na Amazon, pra falar do kindle descartável.

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PS: A morte de 1.000 brasileiros por dia não pode ser naturalizada e espaços públicos, como este, devem ser usados para que isso não aconteça. Por isso, deixo aqui meu minuto de silêncio à todas as 100 mil vítimas da covid-19 e a todas as famílias que perderam pessoas queridas. Deixo também minha indignação diante de um governo pouco comprometido com as vidas dos que votaram nele e que poderiam ter sido poupadas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.