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Lia Assumpção

Águas, ônibus e círculos

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

09/08/2020 04h00

Assisti a uma palestra da Raquel Rolnik em que ela explicava como foi pensada a malha viária de São Paulo. Pensada, não, como ela foi se desenvolvendo, digamos assim, por um sistema de vias formando uma grelha "radioperimetral", nas suas palavras. Por conta de contratos das empresas que tinham a concessão dos bondes, a malha viária se desenvolveu um pouco em cima dessa estrutura, trocando bondes por ônibus, sem um planejamento mais sistêmico da cidade naquele momento, que já era de expansão. O que acontece nesse sistema é que tudo acaba tendo que passar pelo centro, o que faz com que haja uma distribuição desigual de linhas; ou seja, alguns lugares acabam ficando com muitas linhas enquanto outros ficam menos servidos. No final das contas, isso faz com que quem mora no centro espere menos tempo pelo ônibus do que quem mora na periferia.

Lembrei dessa explicação assistindo uma entrevista com a Marussia Whately sobre o marco regulatório da água e do saneamento. A Marussia é consultora na área de recursos hídricos e sustentabilidade e diretora do Instituto Água e Saneamento, que, diga-se de passagem, é um projeto maravilhoso pois tem como objetivo levar saneamento básico para quem não tem, fazendo com que cheguemos mais próximos do momento em que todo mundo tenha água encanada e esgoto; isso, que é um direito básico de todo ser humano, mas que não é uma realidade para todos por aqui. É uma organização civil que faz pesquisas e levanta dados sobre saneamento, procurando encontrar e disseminar boas práticas por aí, realizando parcerias com municípios e sociedade civil.

A entrevista aconteceu logo após a aprovação do marco, ainda antes dos vetos do presidente. A grande questão em torno desse novo marco regulatório é a possibilidade de partes do saneamento serem privatizadas, o que ela disse não ser exatamente ruim, pois a rede de saneamento tem uma quantidade enorme de ramificações, processos e etapas e privatizar algumas delas não seria exatamente um problema. O que ela destaca é que a discussão acaba ficando em torno de quem já tem água encanada e saneamento, não colocando no centro do problema, o grande número de pessoas que não tem acesso à água ou ao esgoto. Isso fica ainda mais urgente no meio de uma pandemia, em que uma das recomendações é justamente a de lavar as mãos sempre. E, sem água, sem mão lavada, confere?

O que a Marussia dizia na entrevista tem um pouco esse caráter. Ficamos discutindo se partes do saneamento serão privatizadas, enquanto deveríamos discutir porque não temos esgoto e saneamento básico no Brasil todo; pensando no sistema como um todo e dando diretrizes para que ele chegue a todos. Na palestra da Raquel Rolnik, a ideia era um pouco essa também, modificam-se linhas ou incluem-se novos meios de transporte, quando deveríamos repensar o princípio sobre o qual a malha viária foi estruturada; talvez ela tenha funcionado na época dos bondes, mas agora não dá mais conta.

Achei curioso que nos dois casos fala-se de circularidade. Uma relação direta com a economia circular que, no final das contas, pensa o sistema como um todo, do começo até o fim. No caso de produtos, entendemos o fim do uso que não se soluciona com o descarte. No caso dos sistemas de água e transporte contemplar centro e periferia, faz parte de atingir o sistema inteiro.

Enfim, fiquei com essas imagens todas de círculos e ramificações, desses sistemas todos, como se fossem vistas aéreas da malha viária de São Paulo e do saneamento no Brasil. E me lembrei do conto de um livrinho pequeno e muito lindo sobre noções de tempo. Num dos contos, o tempo tem círculos concêntricos: passa mais rápido nos círculos maiores e, conforme aproxima-se do centro (nos círculos menores), ele vai passando mais devagar, ficando meio que em câmera lenta, até que tudo fique parado no centro. Fiquei imaginando o trânsito em São Paulo como essa imagem do tempo que para no centro. Ou como se fosse ao contrário e que na periferia é que tudo não chegasse.

Moro numa região central de São Paulo e nesses últimos meses recapearam minha rua toda. Outro dia um amigo estava elogiando, dizendo que parecia a Suíça. Enquanto ele falava, só pensava nos ônibus, na água e nesses sistemas todos… Fiquei pensando que minha rua parece a Suíça e que tem rua que nem parece rua na periferia. Que tem lugar que não tem saneamento e que o ônibus não chega.

Uma das soluções para o problema do transporte é justamente ele não ser radioperimetral. Que houvessem várias pequenas cidades na cidade e que as linhas fossem distribuídas por ali, ao invés de ter sempre que passar por regiões centrais. Para a água, a Marussia também fala dessas etapas do sistema, uma diretriz geral que vem do governo federal e que vai ficando mais específica nos Estados e depois nos municípios para dar conta do sistema como um todo.

Acho que no final da palestra da Raquel Rolnik, alguém perguntou sobre bicicletas e iniciativas de boas práticas na cidade. O quanto isso tem força e o quanto isso é engolido por um sistema vigente. Ela disse que vamos criando vários pequenos círculos de boas atitudes por aí que parecem pequenas mas que vão crescendo até que uma encontre a outra e criemos um movimento maior. Nos dias em que o pessimismo me vence e acho que as atitudes individuais de cada um de nós passam desapercebidas e não mudam nada, me apego nesse pensamento. Vários pequenos círculos que vão crescendo e se encontrando e fazendo uma nova malha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.