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O impacto dos materiais

Lia Assumpção

Lia Assumpção é designer, mestre em Arquitetura e Design pela FAU-USP, curiosa dos assuntos relacionados a consumo e sustentabilidade.

26/07/2020 04h00

Sabe quando alguém te pergunta alguma coisa, você responde algo na hora e depois passa dias respondendo aquela pergunta de outras maneiras? Aconteceu comigo umas semanas atrás, numa conversa sobre materiais em design; a pergunta era o quanto isso impacta na sustentabilidade deles ou não. Acho que tive dificuldade de responder pois fico sempre muito mais atenta ao processo produtivo do qual esse material faz parte do que no material em si; mas se fosse respondê-la hoje (depois de vir respondendo ela em pensamento nas últimas semanas) diria que sim, eles impactam muito na sustentabilidade de um produto. Até porque, às vezes, a escolha do material modifica a maneira de fazê-lo.

Você pode escolher fazer seu móvel com madeiras certificadas ou não; a embalagem do alimento que você vende com plástico ou papel (e esse plástico pode ser reciclável, reciclado ou descartável), entre outros tantos exemplos que ilustram a escolha dos materiais. E sim, isso tudo impacta na relação harmônica que ele terá com o meio ambiente.

Um exemplo que ilustra como a escolha de materiais pode modificar sua produção é o das medalhas da próxima Olimpíada de Tóquio, que foi adiada para 2021; elas foram feitas a partir da reciclagem do ouro e da prata de celulares. Foram instalados na cidade diversos pontos de coleta de celulares antigos, nos quais a população descartou telefones antigos, dos quais foram extraídos os metais preciosos contidos ali dentro. Conheci também o trabalho de uma designer de joias que utiliza o mesmo material, ouro extraído de eletroeletrônicos descartados. Engraçado pensar que esses objetos de alto valor, foram feitos de metais preciosos que compõe aquelas fotos de montanhas de lixo eletrônico que a gente vê na internet?

A Oriba é uma marca de roupas bem rigorosa nos parâmetros de sustentabilidade de seus produtos e parou de vender peças feitas de jeans, pois não encontrou no mercado nenhuma empresa que fizesse o tecido de maneira mais racional (o problema do jeans é que ele gasta muita água, no cultivo do algodão e no tingimento, que também tem processos bastante químicos). E o que eles dizem é que enquanto não encontrarem alguém que produza o tecido de acordo com o que eles acreditam, nada de jeans pro pessoal que compra lá. Esse é um exemplo de marca que vai incentivar o desenvolvimento de um novo material, assim que encontrar alguém interessado e capaz de produzi-lo

O mundo da moda é cheio de casos de escolhas de materiais inusitados e inovadores. Um outro exemplo é o da Coma's, marca que trabalha com o conceito de upcycling, processo que, a grosso modo, propõe a reutilização de materiais ou objetos que seriam descartados. Ele normalmente acontece com os materiais em sua característica e forma original, sem uma modificação como no caso das medalhas ali de cima. Garrafas, pneus e lâmpadas utilizadas como vasos, são exemplos de upcycling. Mas o que me chamou atenção nessa marca é que sua dona se interessava pela utilização de roupas que não passavam nos controles de qualidade de grandes marcas e também pelas sobras geradas em sua produção, especialmente pelas bordas dos tecidos (aquela franjinha que fica na lateral deles e que um dia foi a ponta do tear que teceu aquele tecido, sabe?) que quase sempre viram lixo. Sua marca tem roupas feitas a partir de peças de alfaiataria com defeito (então camisas furadas ou manchadas, viraram saias e shorts) mas um de seus projetos, era desenvolver uma máquina que pudesse criar um novo tecido a partir de todas essas pequenas aparas que virariam lixo. Vale dizer que o resultado de seus testes iniciais eram lindos: tecidos mais firmes e listradinhos que ela experimentou fazendo casacos.

Esse maquinário imaginado por ela era um projeto de pesquisa de mestrado, o que me leva ao último ponto que gostaria de tratar aqui hoje: a parceria entre indústria e universidade. Sempre me incomodou o fato de muitas pesquisas ficarem restritas ao ambiente acadêmico, quando teriam grande serventia à sociedade. Um exemplo disso é justamente o desenvolvimento de materiais. Na minha breve passagem no ambiente acadêmico, topei com algumas pesquisas de materiais e quando penso nessa marca que não encontra um produtor de jeans que o faça de maneira mais sustentável, me pergunto se não existiria uma pesquisa sendo desenvolvida por aí nesse sentido nesse exato momento. O Materialize, da FAU-USP, tem um acervo de materiais que me pergunto se é suficientemente explorada pelo mercado.

Em muitos países, como na Itália para citar um exemplo que conheço, existe uma parceria forte entre indústria e universidade e muitos materiais novos são desenvolvidos graças a ela. Essa parceria pode acontecer a partir de uma demanda da indústria ou da apresentação de uma pesquisa a uma indústria que se interesse. A ordem dos fatores não altera o produto, nesse caso. Fato é que essa relação mais estreita, faz com que exista no mercado mais opções de materiais, que cada vez mais tem características mais alinhadas com questões de sustentabilidade. E os materiais estando mais disponíveis por aí, podem ser utilizados também por pequenos produtores. Sabemos que a pesquisa no Brasil não é uma área "rica" por assim dizer e por esta razão também, incentivos privados são mais que bem-vindos nessa área.

Então, fazendo votos para que a Oriba encontre um produtor mais racional de jeans e que a Coma?s tenha conseguido implementar sua máquina de tecidos listrados que virariam lixo, finalizo dizendo que a Suíça aprovou uma lei de incentivos fiscais para produtos feitos a partir de matérias primas não virgens, como o exemplo das medalhas da próxima Olimpíada e da joia de uns parágrafos acima. Pra pensar como a escolha de materiais tem mesmo um papel importante no impacto de produtos nesse mundo e como isso pode modificar processos produtivos e legislações, independentemente da ordem em que as coisas aconteçam.

Lia Assumpção