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OPINIÃO

Que tal sentir o prenúncio do alívio? Sobre a alegria como afeto político

Chico Buarque toca violão em sua casa, no Rio de Janeiro Imagem: Leo Aversa/Divulgação

Julián Fuks

Colunista do UOL

02/07/2022 06h00

Vocês, brasileiros, tendem a substituir a luta política pela busca impetuosa da alegria, disse meu pai. Há aqui o mais audaz esforço para convocar celebrações, festas, carnavais, e sobra apenas um ímpeto menor para assembleias e manifestações. Há aqui uma enorme atenção ao riso, ao canto, a tudo o que se fez improvável nos últimos anos, e uma disposição mínima a ouvir os tantos gritos de indignação, a deixar que os gritos ecoem até que se tornem ação.

Estávamos em sua casa, no quarto abafado pela calefação, no espaço de onde ele tem saído pouco, salvo em improváveis incursões. Tem problemas graves no pulmão, e a pandemia o obrigou a uma cautela extrema, a uma defesa aguerrida da continuidade de sua existência. Se agora me dizia isso era por sentir a minha pressão, o meu apelo para que ele saia mais, para que se junte a nós nos pequenos encontros, nos abraços, nas celebrações, para que assuma esse risco que tantas vezes vale a pena.

Já assumi muitos riscos na vida, foi o que ele respondeu, e os assumi sobretudo quando eram imprescindíveis. Quando era necessário se erguer contra a sangrenta ditadura argentina, quando a resistência possível se dava em assembleias proibidas, quando a única opção que existia era entre a resignação e a vida clandestina, e quando só o que restou foi o exílio precário em terras brasileiras. É verdade, concedi. É verdade que nunca faltou a ele coragem e compromisso, que nunca foi de seu feitio fugir aos riscos, e é verdade também que esse compromisso às vezes falta aos brasileiros, ou à minha geração, ou talvez a mim.

É verdade, pensei sem muito dizer, que andamos pouco dispostos à revolta ordenada, à composição de novas frentes políticas. É verdade que, em muitos casos, não temos sabido ser mais que espectadores de tempos graves, nos limitando a vociferar diante da infinidade de fatos terríveis. Ao nosso redor colapsa o país e continuamos a pensar na próxima cerveja entre amigos, na noite de sábado, em alguma ocasião festiva que se aproxima. Nisso investimos boa parte do tempo e do pensamento, na manutenção de uma rotina alegre, como incerta resistência à tristeza circundante.

E, no entanto, ainda em silêncio, cuidei de me refazer desses pensamentos negativos, pesados de culpa e fastio. Pode ter nos faltado um vigor coletivo, sim, mas na soma das indignações avulsas não teremos realizado o essencial do serviço? Com fibra e alguma monotonia, repetindo as indignações costumeiras, esgotando os vitupérios contra o presidente, não teremos chegado a dizer quanto tudo isso é inaceitável, improrrogável sequer em um dia? É verdade que não tomamos as ruas, que não realizamos grandes protestos, que fomos até nos esquecendo de gritar às janelas, mas acho que soubemos dizer o que era preciso. Entendeu quem quis, e esses já têm sido suficientes para que o desastre chegue ao fim, em poucos meses.

E se assim for, se é essa agora nossa perspectiva mais realista, não será tempo justamente de dar vazão ao riso reprimido, de nos reunirmos com maior leveza, de incluirmos na conversa a promessa da alegria futura? Que tal um samba? Chico nos convida, afirmando que já chega o tempo da desforra, que já é possível erguer a vista e a coluna, de coração pegando fogo e cabeça fria. Depois de tanta derrota, tanta demência, tanta dor, que tal sentir o prenúncio do alívio? E me pergunto: não virá do alívio, não virá da alegria, o afeto necessário ao futuro, ao desafio de recompor um país atormentado e partido?

Aqui tento responder, pai, com as palavras que não cheguei a encontrar na nossa conversa. Você tem razão: há momentos em que nos perdemos na busca impetuosa da alegria. Esquiva, apressada, incompreendida, ainda assim a alegria é justa e bem-vinda, é o que sinto. Ela é já fim em si, depois de uma longa espera que ainda não termina. Luta política ou busca impetuosa da alegria, você contrapõe em sua crítica, você me desafia a escolher. Mas eu só posso responder que há dias em que essas duas coisas são uma coisa só, indissociável, indiscernível, e esses talvez sejam os mais transformadores e felizes. Estaremos juntos nesses dias, disso tenho certeza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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