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Julián Fuks

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se eu não puder dançar, não é a minha pandemia

Se eu não puder dançar, não é a minha pandemia - VectorStory/Getty Images/iStockphoto
Se eu não puder dançar, não é a minha pandemia Imagem: VectorStory/Getty Images/iStockphoto

Julián Fuks

Colunista do UOL

14/08/2021 06h00

Estamos habituados à tristeza, nos dias comuns ela tem nos feito companhia, tem impregnado as notícias, tem ditado o tom de quase todas as conversas. Mas não será preciso, em dias futuros ou nestes mesmos dias, aceitar que aconteça também a alegria, nossa ou alheia, passageira ou contínua, sutil ou intensa? Não será tempo de revogar os interditos, suspender os julgamentos, deixar de imputar imoralidade à diversão e à euforia? Não caberá abrir espaço às ocasiões mais leves, ao prazer distraído, ao riso sincero?

Durante toda a pandemia, ou desde antes, nestes anos trágicos do nosso país, a alegria tem sido um ato envergonhado, um privilégio que nos concedemos por um instante, antes de nos desculparmos. Tem sido sempre uma alegria vigiada, pelos outros, ou pelo outro que guardamos dentro de nós. Para muitos, a alegria alheia se fez inseparável do risco: vejam só como estão felizes, como estão embriagados de prazer, como podem sucumbir a qualquer momento à imprudência, à irresponsabilidade, à indiferença? E então, depois de anos em que tínhamos de cumprir o imperativo de ser felizes, agora estamos obrigados a ser tristes, a calar ou usar a nossa voz apenas para a indignação e o lamento.

Penso na mais célebre anotação do diário de Kafka, em 2 de agosto de 1914: "A Alemanha declarou guerra à Rússia. — À tarde, natação." A inserção já foi lida como prova de alienação ou de frieza. Algo atroz acaba de se dar, o mundo está prestes a colapsar, e o indiferente Franz segue sua vida como se nada acontecesse, jovialmente resolve ir nadar. Nadando naquela tarde terrível, mostra a lamentável dissociação entre a vida pública, política, histórica, e a existência comezinha do indivíduo, em sua insignificância, em sua insensibilidade.

Ora, a reação de Kafka ao acontecimento sinistro não é ter ido nadar naquela tarde, mas justamente ter feito a anotação. Não se trata de um lembrete qualquer para si mesmo, e sim de uma inserção literária, como tantas outras passagens sintéticas e agudas que encontramos em seus diários. A chave de sua compreensão talvez esteja na pontuação, no indiscreto travessão que liga uma coisa à outra enquanto finge separá-las. Não há distância entre a vida coletiva e a particular: há entre elas contiguidade e tensão. Ainda assim, sua escolha é ir à natação, porque cancelá-la seria uma insensatez, um gesto de absoluta inutilidade, o pensamento mágico do homem comum que acredita ditar os rumos do mundo com suas ações menores.

A alegria nunca chegou a ser a vocação de Kafka, sendo até estranho evocá-lo neste meu texto sisudo sobre a necessidade de rirmos mais. Mas acho que, ali como aqui, estamos diante do mesmo engano: da noção de que haveria algo de inconciliável entre a dor e a distração, entre o horror e o escape. Mesmo entre alegria e tristeza nem sempre há oposição, não é preciso presumir sua incompatibilidade. A alegria é tantas vezes uma desconexão necessária, a quebra momentânea da desolação que permite encará-la com novos olhos, entendê-la melhor, agir para transformá-la. É também em si mesma uma finalidade, e não há nenhum sentido em adiar uma felicidade à espera de tempos mais felizes.

A associação indevida que muitos fazem é entre alegria e inconsciência, entre alegria e esquecimento. Por estar alegres, nos tornaríamos inconsequentes, atentaríamos contra as restrições pandêmicas e, com nossas ações menores, acabaríamos por ditar, sim, os rumos de um mundo doentio. O que se propõe em vez disso é um compromisso com a tristeza, com a solidão, com o enclausuramento excessivo, quando seria igualmente possível propor um cuidado cálido e vivo, até festivo por vezes, um cuidado que não abdicasse da satisfação e do contentamento.

Não me esqueço do esquecimento. Por estar alegres, supõem os críticos da alegria, correríamos o risco de esquecer os males que nos foram cometidos, e assim de perdoar equívocos graves, de absolver crimes oficiais. Nosso país, cumpre conceder, tem sido mesmo propenso a essa impunidade, tem mantido historicamente intocados tantos de seus algozes. Mas isso nada diz sobre a alegria, e confundir essas instâncias é criar uma aliança imprópria entre a política e a tristeza, entre a política e a amargura. E se algum afeto nos trouxe a este indizível estado de coisas, talvez tenha sido justamente a amargura, a confluência infeliz entre a política e o ressentimento.

"Se eu não puder dançar, não é a minha revolução", disse celebremente a feminista Emma Goldman, citada por uma outra feminista, a que se recusava a parar de dançar na sala da nossa casa, me convidando a entrar na dança. Se eu não puder dançar, e cantar em uníssono com voz instável, e partilhar um mesmo riso desabrido, não é a minha pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL