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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por um Outubro Rosa diferente

Outubro Rosa - MicroStockHub/iStock
Outubro Rosa Imagem: MicroStockHub/iStock
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

19/10/2021 12h55

Por onde começar a falar de um mês colorido direcionado à promoção da saúde da mulher chamado Outubro Rosa? Começar pelo fato de que saúde se promove continuamente pode ser bom... Passar pela associação da mulher com o rosa talvez seja chover no molhado, mas acho que prefiro começar dizendo que meses coloridos são desnecessários, ineficientes, potencialmente danosos e acentuadores de desigualdades.

A campanha que hoje conhecemos como outubro rosa já nasceu de um arranjo bastante questionável de interesses. De um lado, uma sociedade médica. Do outro, empresas produtoras de medicamentos e em defesa da mamografia como intervenção no combate ao câncer.

A campanha que teve seus primeiros passos dados na década de 90 acabou se apropriando de uma justa demanda por mais acesso à saúde das mulheres. Como resposta, propôs intervenções que basicamente reduziram os cuidados em saúde dessas pessoas às suas mamas e vaginas.

Hoje, no Brasil, o Outubro Rosa se propõe apenas a ser um mês de incentivo vazio e acrítico à realização de mamografias sem que se debata de forma contundente as inúmeras limitações inerentes a qualquer programa de rastreamento.

Na prática, o que se vê é a comercialização dos exames para quem pode pagar. Mulheres saudáveis cada vez mais jovens são incentivadas a realizar mamografias que sequer são capazes de avaliar mamas densas como as delas, com a desculpa de que prevenir é sempre melhor que remediar. Já se sabe que isso é uma falácia quando se trata de rastreamento.

Enquanto isso, corre a passos largos o sucateamento do SUS que, ao fim e ao cabo, limita o acesso de mulheres pobres, inclusive aquelas cheias de sintomas de câncer e que de fato precisam realizar o exame com a máxima urgência.

Mais uma vez, como escreveu Julian Tudor Hart (1927-2018) no seu memorável artigo "A Lei dos Cuidados Inversos", quando um país deixa que as leis de mercado e não a ciência direcionem seus recursos públicos destinados à saúde, o que vemos é isso: "Quem mais precisa de cuidados é quem menos recebe."

Temos em nossas cidades mulheres sem qualquer fator de risco para o desenvolvimento do câncer de mama, sem casos na família e sem sintomas sendo radiografadas excessivamente. Elas estão nos planos de saúde ou em outros pontos da rede privada. São majoritariamente brancas e podem pagar.

Engana-se quem acha que por isso estão em vantagem no que diz respeito ao cuidado em saúde. Estão, isto sim, correndo mais riscos de sobrediagnóstico e sobretratamento de lesões inofensivas. Esse assunto eu discuti de forma mais profunda e didática em um vídeo lançado há dois dias no meu canal no YouTube.

Se há salvação para transformar o Outubro Rosa em algo relevante para a saúde das mulheres reais, as trabalhadoras de um Brasil profundo, que morrem pela violência perpetrada por seus parceiros, que vivenciam violências de gênero em casa, no trabalho, na sala de parto, na clínica clandestina de aborto, na rua e em tantos outros ambientes, isso se dará a partir da nossa mobilização para um cuidado em saúde integral, baseado em evidências e livre dos interesses puramente mercadológicos. Precisamos nós mesmas construir um Outubro Rosa que preste. Que seja capaz de dar voz às reais demandas das mulheres brasileiras, e isso inclui ouvir homens e mulheres trans e travestis.

É urgente a construção de um Outubro Rosa que não se limite ao outubro, nem ao rosa. Ver a saúde das mulheres além das áreas cobertas por sutiãs e calcinhas é um bom começo para aqueles profissionais que pretendem tratar mulheres como seres humanos e não como partes de um objeto. Enxergar e reconhecer as muitas mulheres brasileiras que são negras, indígenas, quilombolas, trabalhadoras rurais e urbanas, sem teto, sem terra, doutoras, analfabetas, brancas, gordas, magras, cis, trans, travestis, católicas, evangélicas, candomblecistas, judias, umbandistas, espiritas e muçulmanas.

Mês colorido que não pauta o fortalecimento de um sistema único de saúde, público, universal e integral é balcão de venda de exames e não devia sequer existir, pois não gera saúde. Mulheres precisam de cuidado integral, de acolhimento real e escuta cuidadosa de suas demandas e só o SUS, maior conquista do povo brasileiro, será capaz de nos proteger de programas que passam ao largo da ciência para lucrar em cima do nosso sofrimento.

Esta coluna foi escrita em parceria com Rodrigo Penha. Ele é professor na UFSJ e doutorando no Grupo de Pesquisa em Câncer da UFJF.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL