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Júlia Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O dia seguinte aos atos de 29M e o compromisso em defesa da vida do povo

Grupo de idosos na manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, no centro do Rio - Zô Guimarães/UOL
Grupo de idosos na manifestação contra o governo de Jair Bolsonaro, no centro do Rio Imagem: Zô Guimarães/UOL
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

01/06/2021 10h12

O último sábado, dia 29 de maio, foi de mobilizações massivas em centenas de cidades brasileiras. Os atos convocados por setores da esquerda e por movimentos sociais atraíram milhares de pessoas. A adesão popular surpreendeu até mesmo os mais otimistas dos seus organizadores.

Além da clara superioridade numérica em relação aos recentes atos da extrema-direita, comprovada por fotos e vídeos que correram as redes nos últimos dias, era evidente a superioridade organizativa. Desde o chamado para ocupar as ruas, houve especial atenção na educação sobre os riscos e a necessidade de proteção individual e coletiva através do uso de máscaras mais eficientes, higienização das mãos e do cuidado para se manter o máximo distanciamento possível para eventos como este.

Embasadas em estudos que demonstraram a efetividade das máscaras na redução dos riscos de transmissão do coronavírus e a superioridade das máscaras PFF2 em relação aos outros modelos para proteger quem as usa e as pessoas que estão próximas, as comissões formadas para a organização dos atos arrecadaram doações com o objetivo de conseguir distribuir este modelo de respirador para a maioria das pessoas. E conseguiu.

Os manifestantes foram incentivados a comparecer usando o equipamento. Quem chegou sem a sua PFF2 recebeu de muitos grupos independentes e dos organizadores as máscaras previamente arrecadadas e a instrução de como usá-la corretamente.

A informação foi tão insistentemente repetida que em um dado momento era difícil encontrar alguém que não estivesse usando a melhor máscara.

Para os que questionam a legitimidade dos atos apontando para uma suposta incoerência de quem pede por políticas públicas de enfrentamento da pandemia e depois se "aglomera", vale lembrar que a multidão estava a céu aberto, usando os mesmos equipamentos que médicos usam em ambientes de UTI, portanto ambientes fechados, com pessoas gravemente adoecidas por covid. Estes profissionais ficam com o rosto a 30 centímetros destes doentes, com partículas virais dispersas por todo canto, enquanto realizam o procedimento de intubação. Ou seja, a prioridade da organização foi garantir segurança a quem decidiu se manifestar e isto se repetiu em todos os atos. Basta procurar uma imagem da multidão em qualquer capital do país e ampliá-la para constatar este fato.

Os desafios: trabalho de base e organização coletiva

Como foi perceptível, as manifestações, por todo o Brasil, foram gigantescas. Não é exagero afirmar que foram as maiores manifestações dos últimos três ou quatro anos. O povo trabalhador desse país, esgotado, cansado desse governo genocida, saiu às ruas dando um grito de basta. As manifestações também serviram como um fio de esperança. Muitas pessoas, depois de passarem mais de um ano isoladas, perceberam que não estavam sozinhas e que seu sentimento de indignação é compartilhado por outras milhares ou milhões.

É possível que em próximos atos, não tenhamos o mesmo número de pessoas nas ruas. Isso não significa nenhum esvaziamento ou perda de apoio - é parte da dinâmica normal de movimentos de massas. O que precisamos, nas próximas mobilizações, é não secundarizar o trabalho de base, o diálogo, as campanhas para comprar e distribuir máscaras e álcool em gel. Este é o exato momento de ampliar o diálogo com o povo trabalhador, fortalecer as iniciativas de trabalho de base, solidariedade de classe, ações de denúncia dos abusos que ocorrem há tempos e que pioraram na pandemia.

Um exemplo? As empresas de ônibus, em aliança promíscua com o poder público, reduziram a frota, aumentaram o tempo de espera e a lotação nos veículos. Essa aglomeração cotidiana, perigosa e que já matou milhares de pessoas pobres, é mantida nas sombras e não é questionada por quase ninguém nos grandes meios de comunicação. Tudo em nome da manutenção do lucro de poucos e às custas da vida de trabalhadores.

Precisa ser parte da nossa estratégia organizativa a criação de campanhas de denúncia e cobrança imediata por circulação de mais ônibus. Que circulem veículos com um número de pessoas capaz de reduzir drasticamente a chance de que elas sejam contaminadas no trajeto para o trabalho. É uma situação inadmissível e que até hoje, quase 1 ano e meio depois do início desta pandemia, não foi enfrentada de forma séria pelo poder público. Exigir o aumento da frota com redução do tempo de espera é algo central no empenho pela redução dos casos de covid, principalmente entre os mais pobres.

Pautar o debate por melhores condições de transporte é algo para se fazer ao vivo! No mundo real, hashtags e tuitaços não são capazes de pressionar as empresas que dominam o transporte público nos grandes centros. Com a mesma segurança sanitária que já demonstramos que sabemos promover, devemos estar juntos aos trabalhadores nos terminais de ônibus, estações do metrô, balsas para informar sobre os melhores equipamentos para proteção individual e coletiva e para propor saídas organizadas como exigir que o poder público distribua boas máscaras e fiscalize diuturnamente a lotação dos ônibus.

Neste momento de absurdos aumentos dos preços dos alimentos, dos combustíveis e do custo de vida de um modo geral, recolocar na ordem do dia os debates sobre o passe livre e o valor dos transportes é um modo eficiente e corajoso de dialogar com as necessidades mais básicas da classe trabalhadora que se sente aviltada em seu direito à cidade.

Precisamos exercitar a criatividade política e não pensar apenas em atos massivos. Os atos, por óbvio, devem continuar acontecendo, inclusive com certa periodicidade, mas é necessário pensar além. Criar um conjunto articulado de mobilizações e ações que tocam nos temas fundamentais da vida do povo trabalhador: aumento da fome, aumento do custo de vida, crescimento do desemprego, ataque às empresas públicas, aumento da violência policial etc.

A esquerda séria, consequente e realmente comprometida com o povo trabalhador não deve apenas esperar o próximo ato e tentar ser a organização que mais aparece nas imagens. Ao contrário, deve atuar de forma constante, organizada e planejada para potencializar a força dos protestos populares e criar o clima político para mudar os rumos do país.

O que nos espera?

Frente a tudo isso algumas constatações práticas podem ser apontadas. A primeira, é que está claro que não podemos, de forma alguma, esperar até 2022. No ritmo atual, tudo constante, teremos mais de 2 milhões de mortes no final do ano que vem. É necessário derrotar esse projeto liberal assassino agora. Imediatamente. Agitar o "Fora Bolsonaro e Mourão" como bandeira majoritária e assunto cotidiano em todos os cantos do país é demonstração de compromisso com a preservação da vida do povo brasileiro.

As lideranças de esquerda que ainda não pautam o impeachment e esperam as eleições precisam ser cobradas para que tragam seus argumentos para o debate urgentemente. Optar pela tática de deixar "Bolsonaro sangrar" na expectativa de ter uma vitória mais fácil na próxima eleição é uma decisão que inevitavelmente naturaliza e aceita outras centenas de milhares de mortes EVITÁVEIS de brasileiros e brasileiras para uma doença contra a qual já existe vacina! Estas pessoas não merecem e não precisam morrer. Estas famílias não merecem e não precisam chorar outras centenas de milhares de vezes. O povo quer viver, inclusive para poder votar em 2022!

O próximo passo: um calendário de lutas

O sucesso dos atos ocorridos no último sábado não pode ser motivo de estagnação. Pelo contrário, deve ser inspiração para mais planejamento, mais organização, mais ações solidárias e para a proposição de uma agenda de diálogo amplo com a classe trabalhadora, de construção popular de saídas para este estado de caos sanitário e de luta por benefícios concretos para o povo.

Pautas importantes não faltam:

  • Melhoria das condições do transporte público
  • Combate à fome
  • Revogação do teto de gastos e de todas as contrarreformas
  • Por investimentos massivos em saúde e educação
  • Pelo fim das operações policiais que seguem matando pessoas em suas casas nas comunidades mais pobres

Para a continuidade das mobilizações, é necessário um envolvimento orgânico de todas e todos que queiram se somar às lutas. É indispensável a formação de um calendário nacional de lutas articulado com calendários estaduais - tocando nos problemas particulares de cada região, através, inclusive, da realização de grandes plenárias virtuais e campanhas de mobilização amplas e efetivas. Qualquer tentativa de desviar as mobilizações de base e de rua para institucionalidade ou paralisar as ações esperando que as ruas esfriem deve ser rechaçada. A lógica é esquentar a temperatura política nas ruas para causar impactos na institucionalidade, alterando assim a correlação de forças.

Sim! É possível parar o genocídio em curso no Brasil. É possível ter esperança e esta esperança nasce da luta. Só a luta popular muda a vida e o curso da história.

Vale a pena acreditar. Vale a pena esperançar.

* Esta coluna foi escrita em parceria com o historiador e educador popular Jones Manoel

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL