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Júlia Rocha

O que o futuro reserva para este paciente chamado Brasil?

Camila Rosa/UOL VivaBem
Imagem: Camila Rosa/UOL VivaBem
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

12/01/2021 13h22

Nosso corpo é uma máquina viciada em movimento. Inclusive aqueles corpos que julgamos menos eficientes e que parecem inertes sobre camas, cadeiras de roda e andadores. Também estes gostam do embalo, do ritmo, do vai e vem cotidiano. Seja na beleza da dança, na monotonia das esteiras das academias, no compasso das caminhadas ou no sobe e desce das escadas, a vida normal é de se mover.

Vida normal não é exatamente o que vivemos desde março de 2020 e o nosso corpo todo vem sentindo as restrições do ir e vir. Alguns quilos a mais, dores musculares, articulares, alterações metabólicas, exames laboratoriais mostrando a piora do controle das condições crônicas como diabetes, alterações do colesterol, do triglicérides, da função do rim, da gordura no fígado, sem contar com o imenso impacto das restrições do isolamento sobre a nossa saúde mental.

Esta redução drástica das nossas atividades vem lentamente mostrando a falta que faz manter-se ativo e vem forçando profissionais de saúde a medicalizar mais e mais aquilo que antes era possível controlar nas pistas de corrida e caminhada, na orla das praias e lagoas ou até nos encontros de forró e samba com muito mais eficácia e menos efeitos colaterais do que o controle com comprimidos.

Mesmo aqueles que teimam em não seguir as regras de isolamento e distanciamento sofrem com esta nova realidade. Por que não se trata apenas de contar o que se fazia de ginástica na academia ou na aula de dança, ou o que se praticava nas praças de caminhada ou corrida ao ar livre. Trata-se de descontar o ir e vir dentro do ambiente de trabalho, a caminhada até o ônibus, os andares de escada, o levar os filhos na escola, as visitas a casa dos pais ou dos filhos, as brincadeiras com sobrinhos, as pequenas viagens a passeio, a convivência nas praças, as idas ao comércio próximo de casa.

A ansiedade gerada por um cenário de tantas incertezas em relação ao futuro mexeu também com a nossa alimentação. Estamos comendo mais e escolhendo alimentos mais calóricos e açucarados desde o início do isolamento. É o que mostram estudos como o realizado pela Fundação Oswaldo Cruz em parceria com a UFMG, a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, que aponta um crescimento deste consumo, principalmente entre jovens. Os dados também mostram uma piora da qualidade da alimentação entre adultos e idosos que passaram a comer menos porções de vegetais e produtos frescos e ainda aumentaram o consumo de embutidos e outros itens processados.

Não bastasse estarmos mais sedentários, comendo mais e escolhendo alimentos ricos em gordura e açúcar, as restrições trazidas pela Pandemia trouxeram também a piora de nossas condições psíquicas. Queixas de ansiedade, melancolia, tristeza, desânimo, falta de prazer e até outras queixas menos óbvias como alterações do sono, dores no corpo, piora da memória são queixas cada vez mais comuns nos consultórios e os estudos já apontam um aumento substancial na venda de medicamentos psiquiátricos desde o início do isolamento.

Um levantamento feito a pedido do Conselho Federal de Farmácia em junho de 2020 já mostrava sinais do impacto de todo este contexto na saúde mental dos brasileiros. Havia já naquele momento um aumento de quase 14% na venda de antidepressivos e estabilizadores de humor.

Somos portanto, em conjunto, um paciente que está sedentário, ansioso, medicalizado em excesso devido a essas circunstâncias, com a piora das condições de saúde e comendo mal. Não há dúvidas de que as consequências vão chegar. Por óbvio, não vão chegar para todos da mesma forma, por que vivemos condições de vida diferentes.

Quem consegue pagar para ter acesso a atendimento psicológico por vídeo-chamada, possivelmente conseguirá reduzir a necessidade de aumentar doses ou acrescentar medicamentos para conter sintomas psíquicos.

Quem puder pagar por um treinamento personalizado em casa, ou quem tem casa grande, com bom acesso a internet, pode tentar se exercitar e evitar assim o ganho de peso, a piora do controle da pressão alta, do diabetes, da ansiedade, segurando os valores dos exames de sangue (glicose, colesterol, triglicérides, ácido úrico, função do rim, e tantos outros) mais próximos da normalidade.

O que me parece certo é que tantas condições desfavoráveis vão culminar, em algum momento, em um aumento das instabilizações e agudizações graves. O que eu falaria para um paciente diabético, hipertenso que engordou, está sedentário, mais ansioso e se alimentando mal, com exames mostrando uma piora do seu controle e o avanço da sua doença? Eu diria: cuidado. É preciso agir para se evitar infarto do coração, piora da capacidade dos rins, AVCs, alterações articulares, entre outras coisas.

Até agora, o que temos feito é alertar, sugerir soluções individuais e aumentar a dose das medicações. Não é, nem de longe, uma saída possível para a coletividade, principalmente num país tão desigual como o nosso.

Outra vez, como em tantos outros momentos nesta pandemia, a saída é coletiva e passa por tomada centralizada de decisões por parte das lideranças políticas. Quanto menos tempo as condições de distanciamento e isolamento perdurarem, menores os custos financeiros e de vidas precisaremos pagar ao final desta travessia.