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Júlia Rocha

AmarElo: não morrer é teimar

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

13/12/2020 11h23

Como a arte é eficiente, senhoras e senhores! Obrigada Emicida, Ruth de Souza, Pablo, Maju, Wilson das Neves, Donga, Mestre Marçal, Jovelina, Dona Ivone, Leci e tantos outros. Mal consigo contar aqui a emoção que foi revê-los depois de um ano estranhamente caótico, difícil e doído como este que se encerra.

AmarElo, documentário do rapper Emicida, fez florescer em mim novamente o senso de urgência que as tristezas destes tempos me roubaram. "É tudo pra ontem", inclusive o resgate da nossa história e da história dos nossos. É tudo POR ontem, pelo passado, pelos nossos que tombaram ou viveram menos, ou viveram pior, justo por que nos roubaram vida. Tempo. Vida plena com os nossos amores. Tempo com os nossos afetos. Possibilidades.

"Exú matou um pássaro ontem com a pedra que jogou hoje." É com a sabedoria Yorubá que AmarElo abre e fecha a tampa da minha cabeça. Escrevo essas linhas ainda impactada por esta obra cuidadosa e potente construída coletivamente mas nascida da genialidade de Emicida.

Tudo que foi escrito pode ser reescrito, contado de outras formas, de modos mais justos e verdadeiros. Tudo que foi feito pode e deve ser refeito de um jeito que cada um e cada uma possa existir à luz do dia. Podemos e devemos resgatar as injustiças que nos amarram para depois olhar para frente e enxergar um horizonte de beleza que traduza o mundo pelo qual lutamos.

Emicida e AmarElo renovaram em mim o sentido para as lutas. Estamos em uma jornada que não começou em nós e não se findará em nós. É corrida de bastão. Eu o recebo das mãos de minha mãe que, por sua vez, recebeu de minha avó. Eu corro o máximo que posso e em seguida o entrego nas mãos de minha filha, que o entregará para minha neta.

Ver na plateia do Theatro Municipal de São Paulo o POVO BRASILEIRO, aqueles homens e mulheres que dia desses não puderam estar ali. Ver no palco artistas de todas as cores que pisavam pela primeira vez naquelas terras é, sim, transformador. É para nunca esquecer que isso só foi possível por que há centenas de anos estamos resistindo, brigando pelos nossos, lutando para que o mundo seja mais justo.

Esta jornada só acontece se a gente se ajuda e se apoia. Esse é o maior barato dessa história. Nossa história nos ensina a forma como devemos lutar: coletivamente. Temos missão a cumprir. Temos compromisso ancestral. Foram muitas e muitos os que enfrentaram polícia, milícia, sinhô, governador para que hoje, ao menos, respirássemos neste país que nos nega reconhecimento e valor. Sobreviver virou nossa lição de casa. Mais do que isso, viver. Mais do que resistir, queremos existir em paz.

Quando essa carnificina passar, quando esse governo passar, quando o neoliberalismo passar, quando os ataques ao SUS, à educação pública passarem, quando o racismo, o machismo, a homofobia, o ódio passarem... Quando essa dor que foi viver este ano passar, vamos saber que fomos nós que fizemos a história. Nada passa como mágica. Fascistas, racistas, genocidas devem ser arrancados do poder pela força popular. E tudo começa com o povo sonhando que pode mais. Emicida me fez sonhar.

Não é à toa que poderosos queimam livros, fecham teatros, centros culturais. Não é à toa que perseguem artistas, religiosos que falam do Cristo de verdade, lideranças populares. É por que ideias mudam as coisas. Cada cena, cada contextualização histórica, cada momento do documentário e do show estão ali para mexer com a gente, com as nossas ideias e nos impulsionar para frente. AmarElo é pra ontem.