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Júlia Rocha

A fome avança. A resistência popular também

Moradores de uma ocupação dentro do Taquaril, em Belo Horizonte, organizam cozinha solidária - Arquivo pessoal
Moradores de uma ocupação dentro do Taquaril, em Belo Horizonte, organizam cozinha solidária Imagem: Arquivo pessoal
Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

04/10/2020 10h45

O único objetivo deste texto é ser um chamado para inspirar você a fazer algo pelas pessoas que estão famintas no Brasil de hoje. Minha meta é que ao final do último parágrafo você tenha pensado em uma forma de se organizar para doar tempo, trabalho, alimento ou qualquer outra coisa que seja necessária para ajudar quem tem fome a atravessar este momento, até que um tempo de justiça se estabeleça.

É um dever moral de toda a classe média que hoje tem um emprego, um salário e um teto agir para que não percamos vidas brasileiras para a fome. Para que sigamos podendo nos chamar de povo brasileiro, para que possamos nos denominar nação, não podemos deixar que nossos irmãos durmam com fome ou encontrem saciedade para o estômago na droga.

Se lhe faltam exemplos do caminho a seguir, do como fazer, inspire-se em Igor Lana e em sua companheira Marlei, moradores de uma ocupação dentro do Taquaril, em Belo Horizonte. Graças à iniciativa dos dois, um grupo de apoiadores foi criado e hoje este projeto alimenta 300 pessoas na favela.

No alto da comunidade Igor, Marlei e outros companheiros de luta fizeram brotar do chão seco, praticamente sem recursos uma cozinha feita de pedaços de madeira e lona. Ali, Marlei e Igor brigaram contra a fome que assolava a comunidade desde o início desta pandemia. Com tudo improvisado, Igor começou a perceber a necessidade de construir um cômodo mais seguro para o projeto. E assim fizeram.

Hoje, com ajuda de doações e com o apoio das pessoas na comunidade, o grupo iniciado por este casal inspirador mata a fome de 300 pessoas neste lugar.

O projeto do casal Igor e Marlei alimenta 300 pessoas da comunidade - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O projeto do casal Igor e Marlei alimenta 300 pessoas da comunidade
Imagem: Arquivo pessoal

Se você nunca se envolveu em organizações como esta, aprenda de uma vez que quando o assunto é solidariedade de classe, fazemos poucas coisas sozinhos. Somos capazes de dar poucos passos quando não nos organizamos de forma coletiva. Porém, montando nossa pequena brigada, com mais duas ou três pessoas ou nos associando a movimentos que já estão realizando projetos, podemos conseguir amenizar esta tragédia que é existirem pessoas famintas num país que oferece plenas condições para que todas comam bem.

Solidariedade de classe é necessidade urgente. Exercê-la é fazer o possível enquanto miramos no que hoje nos parece impossível. Se é um sonho distante demais a construção de uma sociedade justa, onde todas as pessoas tenham emprego, salário digno, alimento sobre a mesa e possam viver além de sobreviver, façamos hoje o que precisa ser feito para que cheguemos todos vivos do outro lado, na outra margem deste rio. E nesta travessia, seguimos sonhando com uma democracia que mereça este nome. Uma democracia genuinamente popular. Onde a dignidade humana de cada um e cada uma seja respeitada, preservada e tratada como algo precioso.

Não há nada mais importante e urgente do que garantir comida para todos e cada um neste país. E só será possível se muitos de nós nos inspirarmos em exemplos como o de Marlei e Igor.

Por que como disse o poeta russo Vladimir Maiakóvski e completou o poeta brasileiro Caetano Veloso, gente é pra brilhar. Não para morrer de fome! Acreditemos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.