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Júlia Rocha


Por que sua classe social está a te proteger da Covid-19

Júlia Rocha

Mineira de Belo Horizonte, Júlia Rocha nasceu em uma família de músicos e médicos e decidiu conciliar as duas paixões também em sua vida. Tornou-se médica com a mesma naturalidade com que se tornou cantora. Júlia se apresenta como "especialista em gente, médica de família e comunidade".

08/05/2020 04h00

Nossa saúde não é determinada apenas por aspectos biológicos. Se assim fosse, não estaríamos acompanhando a escalada da letalidade do vírus nas comunidades mais pobres do país inteiro. São números que escancaram a desigualdade e que deveriam nos chamar para uma reflexão séria, se é que pretendemos viver em uma democracia real no futuro.

O que intriga a tantos, mas que para os estudiosos dos Determinantes Sociais da Saúde é claro como água (a água dos bairros ricos, diga-se de passagem), é uma constatação incômoda: se biológica e anatomicamente somos tão semelhantes, por que os números são tão desiguais quando informam quem morre e quem sobrevive?

Observando as comparações por territórios realizadas pela prefeitura de São Paulo e como elas mostram sem rodeios a diferença do impacto da COVID-19 entre bairros de classe média alta e comunidades pobres, lembrei-me de uma aula que tive durante minha formação como médica de família e comunidade. Uma aula que me marcou profundamente. Bruno Pedralva, médico de família daqueles que a gente tenta imitar, um preceptor querido, competentíssimo e exemplo em tantos aspectos nos falava sobre os Determinantes Sociais da Saúde. Para uma jovem médica que nunca havia ficado doente na vida, aquela foi uma tarde para nunca esquecer. Ele abriu sua fala perguntando:

"Afinal, como a pobreza, a miséria, as injustiças sociais entram no nosso corpo, invadem nossas células e nos matam mais cedo do que deveríamos morrer?"

Aquilo foi de algum modo tão inquietante para mim que carreguei comigo todas as palavras da frase dita, sem esquecer de nenhuma delas. Na época, nunca havia refletido ou me aprofundado em análise parecida. Hoje, depois de anos trabalhando em comunidades esquecidas, vendo pessoas pobres sobreviverem a tantas violências físicas e simbólicas, eu saberia responder sem pestanejar.

Pobreza mata. Desigualdade mata. Por inúmeros motivos. Mata porque se nega acesso aos direitos fundamentais como assistência à saúde, educação de qualidade, saneamento básico, alimentação saudável, tempo de lazer, transporte público seguro, vida em comunidade sem violência policial, acesso à justiça entre tantas outras coisas. O vírus trouxe consigo uma grande lupa capaz de ampliar o abismo que separa brancos e negros, ricos e pobres neste país.

Meu querido amigo Rafael Dragaud resumiu de forma genial o momento histórico que vivemos: "A doença é democrática. O remédio, não."

Ranço escravocrata, temos uma população negra empobrecida, exposta aos trabalhos mais insalubres, ao transporte público ruim, com níveis de escolaridade mais baixos, mais dependente do SUS sucateado, a que não terá dinheiro para pagar por assistência médica particular.

Mais do que reconhecer que o remédio não é democrático, é importante dizer que o vírus encontra pessoas em condições de saúde diferentes. A tuberculose está nas comunidades. A pressão alta sem controle adequado, o diabetes descompensado, a desnutrição, os transtornos psíquicos mais graves e desassistidos? Essas e tantas outras condições têm CEP.

A nova pergunta que me acorda a noite não é mais "como mudar esta realidade?". Ando querendo saber se é possível eliminar todas estas injustiças sem derrubar estruturas sistêmicas e construir novas. Suspeito que não.

Júlia Rocha