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Após três anos de espera, ele chegou: como é conviver com um cão-guia

Carla e seu cão-guia, Buster  - Arquivo Pessoal
Carla e seu cão-guia, Buster Imagem: Arquivo Pessoal

Carla Chierosa*

13/12/2019 08h49

Você sabe o que é comemorado no dia 13 de dezembro? Relaxa, eu também não fazia ideia até oito anos atrás! Se você tiver um pouquinho de paciência, eu te conto. Topa?

Meu nome é Carla Chierosa, tenho 26 anos, sou estudante de jornalismo e hoje em dia posso dizer que levo uma vida normal. Mas vou começar do início para você entender melhor isso!

No dia 22 de janeiro de alguns bons anos atrás eu nasci, e a minha mãe recebeu a notícia de que eu tinha uma doença congênita, um tal de Glaucoma. Apesar da doença, tive uma infância normal. Brincadeiras como pega-pega, esconde-esconde, andar de bicicleta e pintar livros infantis fazia parte do dia a dia.

A adolescência chegou e, com ela, veio a timidez; os livros viraram os meus melhores amigos. Acho que, como os meus dias eram pacatos e sem muitas emoções, a vida resolveu deixar tudo mais emocionante, e, aos 18 anos, recebi a notícia de que ficaria cega. Claro que não foi fácil, afinal fui forçada a me despedir dos meus amigos que habitavam as folhas de papel. Mal podia imaginar que, para compensar a falta dos personagens, o universo colocaria um companheiro na minha trajetória que, assim como um livro, consigo levá-lo aonde for.

Sempre pensei que eram os livros que me escolhiam, e nunca o contrário. Com esse novo amigo na minha vida, foi assim também: fui escolhida por ele!

Logo que fiquei cega e comecei a me adaptar à nova realidade, percebi que a vaidade tomava conta de mim, e andar de bengala foi um problema: achava feio e tinha muita vergonha. Caro leitor, não me julgue! Estava no auge da vida e andar de bengala, com certeza, não fazia parte dos meus planos!

Carla Chierosa é estudante e aguardou três anos para ter Buster como cão-guia - Arquivo Pessoal
Carla Chierosa é estudante e aguardou três anos para ter Buster como cão-guia
Imagem: Arquivo Pessoal
Descobri nas aulas de orientação e mobilidade que eu tinha outra forma de me locomover pelo mundo. Mas, naquele momento, era difícil me imaginar andando de qualquer forma que não fosse acompanhada de pessoas que enxergavam. Após muita conversa e persistência para ter a minha independência novamente, resolvi me entregar à bengala. Não tinha outro jeito, precisava voltar a viver minha vida de uma forma plena.

No primeiro mês de cegueira descobri as tecnologias assistivas (software de voz, bengalas, Braille, cão-guia). Isso mesmo: cão-guia é considerado uma tecnologia assistiva, e eu me inscrevi para conseguir um! Foi aquela euforia para fazer os cadastros, pesquisei tudo a respeito, deixei a timidez de lado e fui procurar pessoas que já usavam.

A cada novo contato, a vontade de ter o meu aumentava. Todos diziam que era incrível ter um cão-guia, só ouvi pessoas realizadas e felizes, e eu queria ser uma dessas pessoas.

Após as diversas inscrições, os meses iam passando, a ansiedade aumentando e a frustração tomando conta, pois não recebia nenhuma resposta. A bengala? Ela já até tinha nome, Fifi. Fifi foi minha companheira para tudo. Foi chutada, entortada por carros e até confundida como acessório de fantasia. Passamos por bons e maus bocados juntas, mas confesso que, apesar de a Fifi ser fiel, eu não via a hora de aposentá-la!

Após dois anos e meio, recebi uma ligação. E adivinha! Sim, era o instrutor de cão-guia me convidando para fazer uma entrevista para saber se eu era apta a ter um cão! Consegue imaginar a minha felicidade? Gritos, pulos e muito choro fizeram parte dos 30 minutos pós-ligação. Meu dia finalmente havia chegado!

Carla passou por treinamento antes de conhecer Buster - Arquivo Pessoal
Carla passou por treinamento antes de conhecer Buster
Imagem: Arquivo Pessoal
Dormir, comer e estudar por uma semana foi difícil, contava os segundos para a entrevista! Quando finalmente chegou, fiz alguns testes com a Fifi, o instrutor fez várias perguntas. Ali os meus nervos já haviam virado gelatina!

Após uma hora de muita conversa, fui apresentada a um peludo preto, com um rabo que parecia que ia se separar do corpo, de tanto que era abanado. Sim, diante de mim havia um cão-guia em treinamento, que podia ser meu!

Mas adivinha! Não passei no teste com esse cão, e nenhum dos outros cinco que estavam sendo treinados tinha o meu perfil. Consegue imaginar a minha frustração? O desânimo bateu e tomou conta de mim... Já há dois anos e meio na fila, cheguei tão próximo, mas o universo queria brincar. Fifi, a bengala, fiel escudeira, permaneceu fielmente me guiando para todo canto.

Seis meses se passaram até que eu recebi uma ligação perguntando se tinha interesse em pegar o cão-guia nos Estados Unidos. E lá fomos nós: mais gritos, pulos e choro de euforia! Testes feitos, vídeos e relatórios enviados com sucesso, e o tempo se arrastava, quando finalmente recebi o seguinte e-mail: "Prezada Carla Chierosa, temos um cão com o seu perfil, te aguardamos no dia 13 de setembro de 2014 para o treinamento de um mês".

Gostaria de saber como mandar gritos e muita euforia por email, a felicidade não cabia no peito. O dia 13 de setembro não chegava nunca, conseguia ouvir Fifi se lamentando pela aposentadoria precoce.

No dia 16 de setembro daquele ano, eu estava sentada em uma poltrona no meu quarto, quando o instrutor entrou e disse que o meu cão-guia se chamava Buster, era um labrador preto e tinha um ano e meio de vida. O que nos separava era uma porta fechada. Ele de um lado e eu do outro. Três anos esperando por esse momento, e me pareceu que os últimos dez segundos tinham levado cinco anos. Buster, ainda filhote, cheio de curiosidade em saber quem era aquela menina. Eu, aos 21 anos de idade, cheia de medo e incertezas de como seria dali para frente. Dois seres se encontrando para viver juntos 24 horas por dia.

Caro leitor, achei que daquele dia em diante a vida seria só cor-de-rosa. Mas o treinamento começou, o Buster se mostrou um cão de personalidade forte, e eu já estava com saudade da Fifi! Entre trancos e barrancos, teimosias de Buster e medos de Carla, completamos nosso treinamento com excelência!

No primeiro ano, eu até que gostava do Buster, e acho que ele gostava mais de mim na hora das refeições. Mas estamos juntos há cinco anos, e hoje não sei como seriam meus dias sem o Buster. E acredito que ele também não saberia. Não poderia ter companhia melhor.

Confesso que sinto falta dos meus amigos livros, mas ter a companhia desse serzinho 24 horas, dormir e acordar na companhia dele, é um sentimento que não conseguiria expor nessas linhas. No dia 13 de dezembro é comemorado o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Visual, e eu tenho a honra de comemorar esse dia enxergando por meio dos olhos do Buster.

*Cega desde os 18 anos, Carla Chierosa, 26, cursa o sexto semestre da graduação em jornalismo, em São Paulo. Passou três anos morando sozinha com o Buster em Santa Catarina, onde estudava e trabalhava. Atualmente mora com os pais na Grande SP e deve finalizar a faculdade no próximo ano.

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