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Quando os pássaros cantam a noite

Karol Coelho - Reprodução/Facebook
Karol Coelho Imagem: Reprodução/Facebook

Karol Coelho

Agência Mural

10/11/2019 04h00

Você sabia que algumas aves que não têm hábitos noturnos e vivem nas cidades são atraídas pelas luzes artificiais, que afetam o ciclo natural do seu dia? Por isso, alguns pássaros cantam a noite. Dito isso, penso que o trabalho era a poluição luminosa da minha mãe.

"É hora de acordar. Os passarinhos estão cantando, e o sol está brilhando". Era com essas observações que mãe acordava meu irmão e eu quando éramos crianças. E eram estas mesmas palavras que usávamos contra ela quando queríamos brincar logo cedo, sem levar em conta que ela tinha acabado de chegar do trabalho.

Ela é técnica de enfermagem e os seus turnos nos hospitais quase sempre foram noturnos. "Uma noite sim, uma noite não", era como explicávamos para os outros sobre o motivo dela dormir durante o dia (o que facilitava as nossas pedaladas escondidas em bairros vizinhos).

Nas manhãs das noites em que ela passava em casa, era a sua voz que ouvíamos logo cedo a cantarolar. E eu ficava brava, a maioria das vezes, porque queria dormir mais.

"Durmam bastante mesmo, que um dia vocês não poderão dormir tanto assim. Aproveitem", dizia ela com a sua experiência de quem tinha poucas noites de sono.

Ela estava certa. Durmo menos hoje em dia. São 1h47 da madrugada e estou acordada em busca de uma história para contar. A página em branco da tela do celular é a minha poluição luminosa. Sinto-me como os pássaros que cantam lá fora agora e que tenho escutado todas as noites.

Dos ruídos dos carros, motos e pessoas falando alto, a música deles é a única coisa que não me deixa irritada a esta hora. Se fico até tarde pensando na vida, é com eles que conversam minha imaginação de futuros, ao mesmo tempo que danço com as memórias da voz de minha mãe dizendo "os passarinhos estão cantando".

Acordei às 2h38 e durmo menos, mãe, ao mesmo tempo que sonho mais. Seu esforço me trouxe aqui, à liberdade de ser eu. Isso porque você dormiu menos para poder trabalhar e passar tempo suficiente com seus filhos.

Minha preocupação hoje, mãe, é se tenho uma história para contar nessa coluna. Os passarinhos estão cantando às 2h50 e eu tô aqui pensando na sua.

Entre céus nublados e dias ensolarados, suas forças se renovam para um novo canto. Não há mais filho e filha para criar, mas há novos voos para se descobrir, sonhos para recuperar.

Agora, é a saudade talvez sua nova poluição luminosa. Quer voltar para as manhãs de passarinhos cantantes e para as madrugadas que tu cantastes. Mas não pode.

Há novos futuros para fazer. E, agora, é para você, principalmente, cada nova alvorada. És mais que mãe. És passarinha.

*Karol Coelho é cofundadora e editora de projetos especiais da Agência Mural de Jornalismo das Periferias. Jornalista, é formada principalmente pelas histórias do Campo Limpo, zona sul de São Paulo, onde também colaborou com a criação da Escola Comunitária de Comunicação da Escola de Notícias. Escreve poesias e tem um livro chamado "Estado Atmosférico", que produziu de maneira independente.

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