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Mão de jambo

Jarid Arraes é escritora e criadora do Clube da Escrita Para Mulheres - Arquivo pessoal
Jarid Arraes é escritora e criadora do Clube da Escrita Para Mulheres Imagem: Arquivo pessoal

Jarid Arraes*

01/12/2019 04h00

Quando ele me chamou pra conhecer a casa dele pela primeira vez, eu não fui porque queria jogar bila. Uma bila que batia na outra e saía espalhando todas as bilas. Ganhar bila dos outros, encher a sacola de bila, ouvir o barulho das bilas no chão de cimento rachado. Eu só queria jogar bila, então não fui, disse que não ia, depois eu ia, outro dia eu ia. Ele fez que sim com a cabeça, a cara de vergonha, meio sem graça, a cara mexendo.

Era um menino desses que não sabem fazer nada além de ajudar o pai. Pra cima e pra baixo com a corda da burra pendurada no ombro. As chinelas velhas sempre sujas de barro, a camiseta do Flamengo sempre fubazenta. A cara sempre com aquele jeito tão bonzinho. Tão bonzinho, meu deus. Como me doía.

Eu não gostava de Ciço, mas eu achava que o certo mesmo era gostar. Quando eu reparei que ele gostava de mim, que ele vinha sentar na calçada da minha casa, as pernas dois sibitos, os olhos dois bilotos marrons, a boca uma linha meio sorrindo pra mim. Eita que meu coração só me dizia tu tem que gostar dele, ele é tão bonzinho, o bichim, deixa de tu ser ruim, deixa de tu ser assim, olha como ele é, olha como ele vem atrás de tu.

A casa dele era de taipa, a única da rua que era de taipa. Era ele e mais cinco filhos. O irmão João, a irmã Lucinha, a outra era Paula, a outra Marina e o último, mais bebê, era Jorge. Só nome bonito, pelo menos na minha opinião. O pobre, que era mais velho, tinha o nome de Ciço. Cícero. Feito o padre Romão Batista. Promessa é coisa triste, quem paga mesmo é quem não jurou nada. Ninguém sabe qual foi a graça alcançada. Olhando a casa de taipa, que graça que tinha sido? O parto dar certo? Muitas vezes eu penso mesmo que, no meu caso, aqui entre nós, não conte pra ninguém, eu preferia não ter vingado. Ciço vingou muito, era alto. Mais alto que eu uns dois palmos. Ou três. A pele marrom bonita, isso eu achava bonito. E o nariz também, que era afilado, como mainha dizia dos narizes compridos.

Ciço gostava de mim e da calçada da minha casa. A casa dele não tinha calçada. Era terra batida e a casa mais pra dentro do terreno. A porta de madeira, o telhado eu não sei descrever direito. Na primeira vez que ele me chamou pra conhecer, eu não fui. Nem pensei que era feia, só tava ocupada. Depois, por acaso, fui parar lá dentro porque peguei uma briga com João.

Cheguei gritando por Dona Jurema. Ô, Dona Jurema, mãe de João, teu filho é um desgramado, veio pra cima de mim com uma tora de pau, se não fosse eu pegar uma pedra, Dona Jurema, tinha me matado, a senhora imagina se mainha souber? A senhora imagina? E Dona Jurema fumaçando. João no canto da sala, que só depois reparei que era uma sala normal no meio de quatro paredes de taipa. Uma televisão num armário de madeira, dois sofás com estampa feia, uma mesinha de centro, um vilotrol, uma passagem dando pros quartos, que dava pra cozinha, que dava pro quintal. Aí eu quis entrar, quis conhecer, mas Ciço não tava lá pra me convidar.

Depois que a briga foi resolvida, eu fiquei pensando que fazia sentido ele ter me convidado pra ver a casa por dentro. Porque todo mundo pensava que só podia ser tudo caindo os pedaços, mas não era. Tudo era arrumadinho, limpo, com as coisas no lugar que era pra ser. E se ele gostava de mim, minha opinião era a que mais importava daquela rua inteira.

Aí cheguei em Ciço, quando já era de noite, e falei que vi a casa dele por dentro e que gostei da sala. Que o sofá tinha uma estampa estranha, mas era melhor que o da minha casa, que tinha cor de merda. A gente riu junto, andou junto até a budega, sentou debaixo do pé de jambo, ficou catando jambo caído. Um cheiro bom. Ele olhando pra mim, né, com aquela cara. Eu morrendo de pena, me acabando de pena. Disse Ciço eu já vou que mainha tá me esperando. Ele ficou com um jambo na mão, como se fosse me entregar.

Soube dois dias depois que ele tinha viajado com o pai. Trabalho num sítio. Fui me distrair com bola, com escola, com o menino que, esse sim, era bonito e não me dava pena, mas não tinha a mão de quem me daria uma fruta. Foram duas semanas, três semanas, um mês e aí a casa de taipa começou a ser mexida. Chegou uma carroça com terra, depois saco de cimento, tudo isso que se usa pra construir uma casa. E então a taipa virou tijolo, azulejo cinza, porta de ferro, telha laranja. Bonita, bonita, não era. Era bonita do mesmo jeito que uma casa comum era bonita. Casa que a gente mora porque tem que morar. Até pensei que Dona Jurema tava era melhor do que mainha, porque a casa era dela, não alugada. Então está aí a lição.

Ciço voltou do sítio e de longe eu vi que tava vestido com a farda da escola da rua de cima. Ninguém que prestava estudava lá, mainha dizia, por isso eu estudava longe. Mas Ciço prestava, isso eu sabia com certeza. Também Lucinha, Paula e Marina. João mais ou menos. Mas cada um com sua farda. Vinham correndo na frente de Ciço, as chinelas levantando a terra da rua inteira, assustando um gato, coitado, que só queria dormir escorado num garajau.

Eu dei tchau pra Ciço, ele deu tchau pra mim. Ficou nisso. A mão dele de quem ia me dar um jambo e ficou segurando o jambo. A cara meio boba, a cara boazinha, de quem me convidou pra conhecer a casa de taipa, porque queria que eu fosse junto, e eu não fui, e acabei conhecendo a casa com o irmão com quem eu tinha brigado por causa de bila. Agora a casa era de tijolo. Ir todo dia pra escola dava uma ajuda, mainha disse. A casa se transformou.

Na última vez que eu encontrei Ciço, eu tava na calçada esperando o menino que eu gostava passar. Uma moto desceu com o cano estourando e não escutei quando ele apareceu do meu lado. A cara de bichinho, de bonzinho. Estendeu a mão de jambo. Mas não era fruta, era um pirulo do Zorro. Comprei pra tu.

Eu sorri pro sorriso dele. Queria sentar debaixo de uma árvore, passar a tarde fazendo de conta que não percebia que gostava de mim, aprendendo a gostar dele até o momento em que gostasse de verdade.

Mas não deu tempo daquela tristezinha virar uma paixãozinha. Não consegui transformar a dor fina em alguma coisa pela camiseta fubazenta do Flamento. Eu torcia pelo Flamengo. Não deu tempo de nada e eu nem sabia que não ia dar tempo. Ciço me entregou o pirulo do Zorro, deu tchau, os olhos bilotos sorriram mais do que a boca, parecia que se cansava do sol, e partiu na direção da casa de tijolo.

Foi pro sítio.

* Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 12 de Fevereiro de 1991, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora dos livros "Redemoinho em dia quente", "Um buraco com meu nome", "As Lendas de Dandara" e "Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis". Curadora do selo literário Ferina, atualmente vive em São Paulo (SP), onde criou o Clube da Escrita Para Mulheres e tem mais de 70 títulos publicados em Literatura de Cordel.

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