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Escritora Thata Alves estreia coluna "Contém histórias" com "Ereziando"

Thata Alves - Edilaine Pereira
Thata Alves Imagem: Edilaine Pereira

Thata Alves*

13/10/2019 07h00

Para escrever este texto, eu ativei o lápis que fica na ponta da minha unha, que é o meu super poder quase secreto.

Quando eu fecho os olhos bem forte, posso acessar as vezes que fui criança junto com os meus (não tô falando só de Bryan e Brenno), tô falando de toda criança que se sentiu aninhada em meu colo.

Nessas memórias me vêm as vezes em que fui criança com elas... Meus filhos escreveram um livro, esse livro trouxe fãs pra eles, eles quiseram aprender a autografar. Os meus filhos têm 8 anos, quando fizeram o livro tinham 3. Sim ! Porque reconheci na oralidade de meus erês (criança em yoruba) como eles eram potências literárias.

Com meus filhos autores, vi como cada espaço perdeu o privilégio de abrigar essas potências que eles são quando nos convidaram a nos retirar a cada:

-Xiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiu!!!

Eram espaços adultos demais e por isso tivemos alergia.

A gente sempre leu histórias clássicas: do príncipe encantado, da princesinha, até dos monstros, mas nem os meus filhos e nem eu, em minha infância, pudemos compor as características dos personagens quando havia festas à fantasia. Não tinha pra mim a Preta de Neve, pra eles nao tinha os super gêmeos ativar com mais melanina…

Então, eles me disseram que eu era mais forte do que qualquer super-herói, porque eu escrevia e, escrevendo, podia eu (junto a eles, escolhendo nome, cor de roupa, objeto ou não), criar um personagem mais forte que aniquilasse outrem. Uauuu! Eu mesma nunca pensei isso.

Com os fãs dos ibejis (gêmeos em Yoruba) vieram presentes recebidos, e um desses foi uma piscina, mas quem ganhou a piscina foi todo o bairro, porque antes nossa casa era o cartão postal da quebrada por ter uma rede, onde todas as crianças pós-creche, escola, projeto e natação paravam, happy hour dos erês. Agora, com a piscina, toda bermuda virou sunga, e todo vestido maiô, esse é o super poder das crianças.

Preparei um lanche pra elas enquanto as via brincar pela janela da cozinha que dá pro quintal e o pé de acerola. Miguel, o mais pequenino dos erês, veio a mim e disse: "Tia Thata, você é a mais rica, né? Porque você dá comida pra todos nós e amanhã tem de novo".

Nesse momento, a unha desativou o modo lápis, e o ponto final, que não é ponto final e sim reticências, foi assinado por Miguel.

Coisa de anjo mesmo…

* A escritora Thata Alves (ou Thayaneddy Alves), filha de Ione Alves e Custodio Souza, é uma artista multimídia, transitando entre vídeo, performance e poesia. Sempre foi autodidata. Essa escolha lhe permitiu ousadias como ser a precursora do Sarau da Ponte pra Cá há 5 anos, articulando, produzindo e organizando a realização desse evento bem como sua divulgação. Posteriormente, Thata Alves juntou seus versos e publicou de maneira independente seu primeiro livro de poesias, chamado "Em Reticências", 2016. Em 2017, lança seu segundo material literário, "Troca", e, em 2018, seu primeiro livro infantil baseado nas vivências de seus filhos gêmeos, Bryan e Brenno, chamado "Ibejis - Poesias do meu ventre". Toda essa trilogia é lançada pelo selo Academia Periférica de Letras. Thata participa, propõe espaços de discussão e realiza trabalhos em parceria com os coletivos Praçarau, Fala Guerreira, Sarau das Pretas, Slam das Minas, CITA (Cantinho de Integração de Todas as Artes) e a Casa de Cultura Candearte.

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