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Bianca Santana

Escrevivência de Elizandra Souza, em prosa e fogo

Capa do livro "Filha do Fogo - 12 Contos de Amor e Cura", de Elizandra Souza, com ilustrações de Vanessa Ferreira - Divulgação
Capa do livro "Filha do Fogo - 12 Contos de Amor e Cura", de Elizandra Souza, com ilustrações de Vanessa Ferreira Imagem: Divulgação
Bianca Santana

Bianca Santana é jornalista. Autora de "Quando me descobri negra" e organizadora de coletâneas sobre gênero e raça, foi convidada da Feira do Livro de Frankfurt em 2018 e da Feira do Livro de Buenos Aires em 2019, quando também foi curadora do Festival Literário de Iguape. Pela UNEafro Brasil, tem contribuído com a articulação da Coalizão Negra por Direitos. No doutorado em ciência da informação, na Universidade de São Paulo, pesquisou a escrita e a memória de mulheres negras. Foi professora da Faculdade Cásper Líbero e da pós-graduação em jornalismo multimídia na Faap. Atualmente, está escrevendo uma biografia sobre Sueli Carneiro.

21/07/2020 11h10

Na semana anterior ao início do isolamento social, eu estava no Maranhão. Recebia uma ou outra notícia de um tal coronavírus que se espalhava pelo mundo enquanto prazerosamente debatia a escrita de mulheres negras. De volta a São Paulo, na correspondência acumulada enquanto estive fora, estava o novo livro de Elizandra Souza: "Filha do fogo: 12 contos de amor e cura". A poeta que tanto admiro está agora publicando prosa? Animada, coloquei o livro na cabeceira — ainda sem o hábito de desinfetar com álcool 70 — na expectativa de iniciá-lo nos dias subsequentes. Mas o Tempo, nesta pandemia, não anda para brincadeira. E só quatro meses depois peguei o livro, que já não é tão novo, de Elizandra Souza.

Pisei com ela a terra que fica embaixo de um cajueiro no Cauê, interior da Bahia. Senti os cheiros das panelas de dona Dudu. Testemunhei como uma enfermeira foi revelada curandeira. Temporalidades, espaços e vivências múltiplas de mulheres negras, narradas com a destreza de quem te carrega para a história, como se não existissem mais as palavras, só a experiência. Personagens e imaginários bem construídos a cada conto, nas páginas planejadas por Silvana Martins, revisadas por Luciana Moreno, ressaltados nas ilustrações, em marrom, de Vanessa Ferreira. Mulheres negras, profissionais do livro, convocadas pela Mjiba - Comunicação, Produção e Literatura Negra, cuidada por Elizandra Souza.

O fogo de Xangô e Iansã, que a habitam, está manifestado nos contos mas também na capacidade de realização de Elizandra Souza. Poeta, prosadora, escritora, editora, produtora, jornalista. Elizandra Souza expressa em palavras o espiral de sua escrevivência e cuida de todo o processo de produção e distribuição de seus livros. Quem comprar um exemplar deste lançamento, receberá um pacote feito e levado aos correios pela própria autora. Amor e cura carregados nas palavras, mas também no manuseio generoso da escritora que investe tempo, dinheiro e energia de vida para fazer circular a escrevivência.

"A escre(vivência) das mulheres negras explicita as aventuras e as desventuras de quem conhece uma dupla condição, que a sociedade teima em querer inferiorizada (...)", explicou Conceição Evaristo em 2005. Desta perspectiva, Elizandra Souza inscreve, mais uma vez, no corpus literário brasileiro, imagens da autorrepresentação insurgentes de quem somos. Queima estereótipos e submissões. Incendeia silêncios impostos. Inflama leitoras e leitores a demandarem a nossa escrita. A literatura — que alguns classificam como universal — arde feminina e cada vez mais negra.

Filha do Fogo - 12 Contos de Amor e Cura

Autora: Elizandra Souza
Ilustradora: Vanessa Ferreira
Editora: Mjiba - Comunicação, Produção e Literatura Negra
96 páginas

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Bianca Santana