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Arte fora dos centros

Ser um jovem com perspectiva de mundo mais ampla, no interior, é triste

O pequeno niLL em festa com a família - Acervo Pessoal
O pequeno niLL em festa com a família Imagem: Acervo Pessoal
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

19/11/2020 04h00

"Periferia é periferia em qualquer lugar", mas têm umas que ficam mais no "centro" da cena do que outras. De onde vem os sotaques, as gírias, os beats e a moda que o Brasil enxerga como "periféricos"? Em grande parte, elas migram dos extremos da cidade de São Paulo, a maior da América Latina, cujas quebradas tornaram-se lendas nas periferias de todo Brasil. Quem nunca ouviu falar do Capão Redondo, da Cidade Tiradentes, de Pirituba ou do Jardim Cachoeira?

Mas o que há à margem da margem? Na década em que vivemos, a música urbana tem sido reinventada por vozes das grandes cidades do nordeste, centro-oeste, do norte e do sul que tentam ocupar um terreno que São Paulo (e Rio) lotearam desde os anos 80. Entre as grandes e populosas Salvador e BH, existe a simpática Cidade da Uva, também conhecida como Jundiaí, com seu Jardim Botânico, os piqueniques no Parque da Cidade e a fachada histórica do Teatro Polytheama, onde Sérgio Mallandro, outrora, apresentou seu show de stand up comedy no dia 18 de agosto de 2017.

"Se um adolescente em Jundiaí, ser um jovem com uma perspectiva de mundo mais ampla dentro de uma cidade de interior é muito complicado, é triste também, em um certo ponto, porque a gente está pensando lá na frente, nas possibilidades para a música e a gente sai na rua para materializar os planos e não encontra pessoas para falar sobre. E as pessoas que estão ao nosso redor não entendem o peso do que a gente faz, o sentimento de nós e a música, da obra para com o artista e depois para com o mundo. Eles também não são obrigados a entender isso. E graças a deus nós temos a Sound Food Gang que é o lugar para falar de música e para fazer música, é o nosso refúgio, porque a cidade breca a visão do jovem aqui.".

Com pouco mais de 400 mil habitantes, e localizada a 57 quilômetros da capital paulista, Jundiaí pariu uma das cenas mais interessantes do rap nacional, onde destacam-se a banca da Sound Food Gang, que inclui Yung Buda, Chinv, ManoWill, DJ Buck, Kado, Will Diamond, Ashira e seu nome mais conhecido: Davi Rezaque de Andrade, 27, o nILL.

Primeira noite

O hard rock do Kiss foi a porta de entrada para músicas mais pesadas de diversas crianças. A versão novaiorquina dos Secos & Molhados geralmente marca a biografia de músicos de heavy metal - como o baixista do Sepultura Paulo Jr. Mas o Kiss também fez a cabeça da "turma que conseguiu transpor a barreira do rap e é admirada por muitos indies do país", na definição que a revista Vice fez da Sound Food Gang.

"As primeiras músicas que me conquistaram foram as músicas do SNJ e do Kiss, também. Nem sabia quem era o Kiss. Comprei o cd só porque eu vi a capa. Fiquei louco pela capa, brisei muito, fiz minha mãe comprar. Ela falava:
-- Mas que é isso aqui.

-- Quero muito, mãe, quero muito.
Aí ela comprou. Quando consegui ouvir o disco, vi que era um bagulho pesado, e falei 'Daora, escolhi o cd certo, mano!' Fiquei mó feliz. Foram as primeiras músicas músicas que me impactaram. Eu nem sei o nome desse cd do Kiss, só lembro que tinha a faixa 'Rock And Roll All Nite' e eu fiquei 'Caralho, que daoooora'. Kiss e SNJ, caralho, porra, SJN todas, todas, deles."

A empolgação e a fala acelerada do rapper de Jundiaí me faz rir sozinho ouvindo sua entrevista. Criado entre a Vila Rami e Vila Helena, niLL lançou em agosto deste ano o disco "Good Smell Vol.2", em que todas as músicas levam nomes de grandes mulheres da história, apesar de, segundo ele, "as músicas não serem baseadas nos títulos, são sobre situações diversas. Aí, quando termino a música penso 'essa música aqui tem cara desse nome."

niLL acaba de lançar "Primeira Noite" com o produtor notvrno - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
niLL acaba de lançar "Primeira Noite" com o produtor notvrno
Imagem: Acervo Pessoal

niLL também escreveu, este ano, a faixa "Primeira Noite", parte do projeto Jardim do Flow que conta com beats do produtor Notvrno e curadoria musical do rapper e apresentador Max B.O.

"Jardim do Flow é muito foda, gostei muito da estética deles, do conceito da proposta. O estúdio [Trampolim, no Bixiga, ] é sensacional. Além de ser um projeto que dá um material de qualidade pro artista, o Jardim do Flow proporcionou também uma vivência num estúdio real, com a galera que trabalha lá, toda aquela movimentação. E a gente está programando o lançamento dos vinis [colorido], agora, mais um material pra soltarmos na rua."

A primeira música do Jardim do Flow contou com as rimas de Max B.O. registradas em um compacto azul, e a próxima bolachinha produzida por Notvrno terá a lírica de niLL.

Atari

Depois do Kiss e do SNJ, a saga musical vapor wave do jovem niLL foi puxada pelos mestres ninjas da trilha sonora do game Tony Hawk's Pro Skate. "Tinha Ramones, depois veio Nirvana, Racionais, RZO. Sempre gostei de videogame, parece que nasci gostando de videogame. Eu me lembro jogando fliperama no bar que tinha em frente da minha casa, ou jogando Master System na minha goma, jogando Mega Drive na casa do parceiro.", relembra o autor do clássico da neurose amorosa "Minha mulher acha que eu sou o Brad Pitt"

A influência pesada dos vídeo-games, animes e da cultura pop retrô são nítidas tanto nas rimas de músicas como "Lilith" , quanto na base grave de beats como "Lógos", faixa que dá título ao seu disco homônimo de 2019. No treinamento do jovem Davi, a caminho de se tornar niLL (corruptela de "new", que o rapper escreveu errado em uma aula de inglês), o vídeo-game veio antes da arte.

("Mas não seriam os vídeo-games, também, uma forma de arte?", pergunta o leitor atento)

"Meu primeiro contato com a arte foi através do desenho, da pintura, essas coisas na escola, né? A escola que foi meu fio condutor com a cultura, com a arte em si. Eu ia pra escola e me interessava mais pelas aulas de artes, de português, de filosofia e de história."

Cutucando as lembranças de niLL, que já foi emo e andou de skate, chegamos até os lanches de trailer que ele costumava comer no "Bigode", o melhor da sua quebrada. No entanto, a Jundiaí que niLL mantém gravada nos neurônios, não é a mesma que descrevi no início desse texto, com destaque para o show de stand up de Sérgio Mallandro, no tombado Teatro Polytheama.

"Era totalmente diferente, uma outra cidade. Jundiaí há 20 anos. Eu era pequeno, mas eu lembro. Tinha muito atrativo na cidade, muito entretenimento. Tinha uns comícios, aí tinha um telão que passava filmes, vi "Central do Brasil" em um desses. Eles montavam um cinema ao céu aberto, na rua. Tinha desfile de escolas de samba na Avenida, tipo os que a gente vê no Sambódromo na tv. Era incrível pra mim. Eu ainda era muito novo nessa época, mas eu vi uns flyers de um show do Sabotage aqui por 7 reais, porque Jundiaí tinha um evento chamado 'Hip Hop Pela Paz. Sabe? Todos grupos do rap nacional da geração "Golden Era" passaram por aqui. Desde Thaíde até Facção Central."

Antes da música, os vídeo-games - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
Antes da música, os vídeo-games
Imagem: Acervo Pessoal

Regina

Apesar de ter começado utltrajovem com o grupo Sem Modos, o nome de niLL se tornou popular no meio do rap em 2017, quando ele lançou o conceitual "Regina". Com participações pesadas como Ogi, De Leve e Victor Xamã; "Regina" também abria as portas do mundão para os Mcs de Jundiaí, como Yung Buda. Tudo puxado por um conceito "familiar", uma espécie de longa ligação telefônica via WiFi de niLL para sua falecida mãe Regina, onde ele a atualiza sobre sua vida cotidiana e a carreira musical. De base, beats low-fi, entrecortado por áudios reais de suas irmãs, sua sobrinha (que também desenhou a capa do disco) e de camaradas.

"Espero que [o Regina] tenha quebrado alguns paradigmas. Não só em estrutura lírica, né ? Em questão de temas [sobre família], mas como estrutura musical porque são estruturas que não condizem com o mercado, uma construção sonora toda fora do padrão que acabou sendo aceita."

O pequeno niLL já demonstrava ter estilo - Acervo Pessoal - Acervo Pessoal
O pequeno niLL já demonstrava ter estilo
Imagem: Acervo Pessoal

A homenagem à mãe, a capa da sobrinha, a lírica que versa sobre questões familiares não parecem aleatórias para niLL: "Meus pais sempre foram casados, sempre ficaram juntos. Nós nunca tivemos problemas com isso não. Só tivemos problemas financeiros, né? Eu lembro muito disso, de faltar rango, esses baguio, tá ligado? De às vezes ir no mercado e na hora que vai passar as compras no mercado o dinheiro não tinha caído na conta. Mas eu tive uma liberdade muito grande na minha infância, sabe? Eu podia fazer o que eu queria, em questão de planos de vida, quando eu era adolescente, por mais pequenos que eles fossem. Então eu não tinha essas barreiras em casa. Eu tinha liberdade com minha mãe, ela me deixava sair na rua. Então eu fui aprendendo as coisas na rua".

"Regina", conceitual e inovador, foi eleito pelo site Genius disco do ano, de 2017, e inseriu niLL no pódio do rap game nacional: "Uma parada que eu sempre tive desde pequeno, até quando eu comecei a fazer música, eu pensava "o que esses caras grandes fazem eu também consigo fazer. Talvez de um jeito mais louco. Não melhor ou pior, mas diferente, mais interessante. Eu só preciso das ferramentas certas e de força de vontade. Aí eu fui que fui. Quando eu pego os discos que foram feitos na época pelo site Genius, eram discos super produzidos mixados pelos grandes engenheiros da MPB e do rap também. Mas o que a gente fez aqui foi mixado e masterizdo por nós mesmos, mixados pelo RA. E o computador que eu usei pra produzir era um i3, que estava travando demais, e depois que eu acabei de gravar o disco, ele pifou de vez."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.