PUBLICIDADE
Topo

Arte fora dos centros

Onde o sertanejo não tem vez: você conhece os punks do interior do Brasil?

Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

13/08/2020 04h00

Rodeado por rodeios, sertanejo universitário, conservadorismo e igrejas, o caipira roqueiro é um forte. Mesmo sendo fortemente associada às violas, a região que vai do norte do Paraná, passa pelo interior do sudeste e desemboca no centro-oeste é celeiro de bandas pesadas há décadas; vide o grandes festivais que germinou como o "Goiânia Noise" e o "Bananada"

A banda Xupakabras de Dourados (MS) - Tiago Marques - Tiago Marques
A banda Xupakabras de Dourados (MS)
Imagem: Tiago Marques

Em breve traremos aqui na coluna "Arte fora dos Centros" um retrato da cena "Caipira Punk" que rolou entre 1990-2005, no noroeste paulista. Hoje, na onda dos três acordes com sotaque do interior, listamos doze bandas do Brasil profundo, entre clássicos que já acabaram a grupos novos que vão te parar de repetir que "não se faz mais rock bom hoje em dia". Viajamos pelos estados do Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo, Minas Gerais e qualquer canto do país onde se puxe o "erre" e faça-se punk rock rodeado por sertanejo, sítios e soja.

O DDO, de Goiânia, faz roçacore. - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O DDO, de Goiânia, faz roçacore.
Imagem: Reprodução/Facebook

D.D.O. , Goiânia (GO)
O crossover do D.D.O. (Discípulos Das Orige) vem de uma capital, Goiânia, mas seria impossível não citar os reis do roçacore em uma lista de punk caipira. Fazem uma mistura de metal, hardcore e música caipira com letras que enfiam um pé no humor e outro na crítica, resultando em histórias como a do casal "Ivan e Angélica que criaram uma igreja Ivangélica". Esqueça o Pantera, os verdadeiros cowboys from hell vem de Goiás.

Que miras Chicon, Monte Azul Paulista (SP)
Na pacata Monte Azul Paulista, onde não vivem nem 20 mil almas, surgiu uma das bandas mais criativas do rock nacional, a Que miras Chicon formada pelo casal Thaysa e Danilo Zuccherato. A dupla fazia um hardcore baseado em bateria e viola caipira. Isso mesmo: bateria e viola punk. (Bem, às vezes, a viola dava lugar a um banjo.) O repertório do Que Miras Chicon era composto de músicas próprias, com pouco mais de um minuto cada, e de covers de clássicos caipiras como "Moda da Pinga". Infelizmente, o duo encerrou suas atividades para criar o "Pinscher Attack" (outro excelente nome) com uma pegada mais crust e onde a viola deu lugar a uma guitarra elétrica.

Xupakabras, Dourados (MS)
Lar do clássico Cueio Limão e do rap indígena do Brô Mc's, a cidade de Dourados (MS) também pariu o hardcore existencialista do Xupakabras. O grupo acaba de lançar o single "Todo homem é uma ilha", que parafraseia o poeta John Donne para falar sobre o isolamento social em tempos de Covid-19. Formado em 2007, o Xupakabras passou a chamar atenção a partir do disco Copa Y Pelea, lançado em 2014, e já fizeram shows no vizinho Paraguai.

Restos, Birigui (SP)
Antes da internet, quando tudo era mato, nos distantes anos 90, algumas bandas do "interior próximo" - como Street Bulldogs, Fistt e Muzzarelas - conseguiram se integrar ao cenário punk rock da capital paulista e ter algum destaque na cena independente. No entanto, as bandas do extremo oeste do estado, longe demais das capitais, já próximas ali da fronteira com o Mato Grosso do Sul, viviam em um completo isolamento. Esse isolamento gerou um punk rock anarquista, cru e com fortes semelhanças com a primeira geração paulista do estilo. O ícone dessa cena - que também incluía bandas como Menstruation, Sexo Oposto, Desnutrição e Denúncia - foi a banda Restos, de Birigui, surgida em 1993, e dona do hino "Resistência Anarquista". Nos anos 2000, Black, o batera da Restos, seria um dos fundadores de outro clássico da região, a banda "Tumulto", espécie de Chico Science hardcore.

Muzzarelas, Campinas (SP)
Com quase 30 anos de mistura de punk, hard rock, cerveja e filmes B, o Muzzarelas é uma instituição do punk interiorano. A bonachona banda de Campinas (SP) é uma das mais conhecidas desta lista e fez sucesso no underground dos anos 90 com sua versão roqueira de "Macho Man", do Village People, entre outros marcos como "Sometimes I cry when I watch TV".

Black Pantera, Uberaba (MG)
Há apenas seis anos na estrada, a Black Pantera, de Uberaba, triângulo mineiro, teve uma ascensão meteórica com sua mistura de punk rock e heavy metal, influenciado por Bad Brains e Living Colour. Capitaneada pelos irmãos Chaene e Charles Gama, Black Pantera se apresentou em festivais internacionais como Download e Afropunk, antes de ser contratada pela gravadora DeckDisc de Rafael Ramos. Suas letras combativas, sustentadas por um instrumental preciso, atacam o racismo e exaltam Zumbi dos Palmares.



Fistt, Jundiaí (SP)
Em 2001, um riffzinho de guitarra melódico acompanhado por vocais grudentos virou hit punk rock na Mtv e no programa Alto-Falante, da Rede Minas. "Vinteum" levava a assinatura da banda Fistt, formada em Jundiaí, em 1994, e que conseguiu se integrar ao cenário hardcore nacional, sendo destaque diversas vezes no site Zona Punk (o que rendeu até letra) e contando com participações de Rodrigo Lima (Dead Fish) e Fabrizio Martinelli (Hateen) no épico de 8:46 "Carnaval", do disco "Como fazer inimigos?" (2008)

Cueio Limão, Dourados (MS)
Assim como o Muzzarelas, o Cueio Limão é velho conhecido dos fãs brasileiros de punk rock. Temperando suas ótimas letras com humor e acelerando seu ritmo na levada hardcore, os sul-matogrossenses estrearam em disco com o clássico "Quem matou Bozo?". A partir daí, invadiram São Paulo e foram indicados para prêmios na Mtv, canal televisivo onde lançaram diversos videoclipes embalados por guitarrinhas melódicas que não desgrudavam dos ouvidos punks de uma geração.

Street Bulldogs, Pindamonhangaba (SP)
Street Bulldogs foi uma das maiores bandas de hardcore do Brasil, e um dos grandes destaques da cena underground dos anos 90. De Pindamonhangaba e cantando em inglês, eles estouraram quando a Mtv usou sua música "We Build Our Own Way", de 1998, em uma vinheta do canal. Na sequência, pariram o excelente disco "Question your Truth", um marco, com canções como "Tarde Demais" (em raro português), "Remains Clear" e "Red Rose Bouquet".

Caso Geral, Rio Preto (SP)
Assim como o Restos, a banda de hardcore Caso Geral vem da cena pouco conhecida do velho oeste paulista, mais especificamente dos anos 2000, na calorenta cidade de Rio Preto - que também pariu Xiosporks, Swear, Diskusteen e Nevrose. Em 2014, depois de muitas demos e shows no underground, eles lançaram seu primeiro videoclipe oficial "Controverso" - parte do bem produzido disco Ciclo. As influências sonoras do grupo ficam suas raízes no hardcore de bandas como Dead Fish e Pennywise. Crias das quebradas da região norte da cidade, fizeram diversos apresentações memoráveis pelos buracos mais sujos da região.

Autoboneco+<, Bauru (SP)
Não, o Autoboneco+< não toca punk rock clássico. Na verdade, Aran e sua trupe fazem "antimúsica" misturando ruídos, garage, noise, pós-punk, programação e até folk em seu som. Os veteranos de Bauru (na estrada há mais de 23 anos), que já fizeram turnê pela Europa e pela América do Sul, têm, no entanto, os três pés enfiados na filosofia "faça você mesmo" do punk e participaram de diversos festivais e eventos organizados pelos anarcopunks do interior paulista. As influências do estilo também podem ser ouvidas nas guitarras distorcidas e vocais agressivos do ótimo EP Turnihil! disponível no Spotify desse grupo quem um dia já se chamou Bonequinho.

Atos Falhos, Ponta Porã (MS)
Da fronteira com o Paraguai vem o hardcore do Atos Falhos, formado em 2009, em Ponta Porã. Com influências de Hot Water Music e Garage Fuzz, o quinteto do Mato Grosso do Sul lançou, em 2019, o belo EP "Grite quando se queimar"

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Arte fora dos centros