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Poeta premiado, Maílson Furtado vive quarentena em cidade de 20 mil pessoas

Foto de 1983 da pequena Varjota, cidade de 20 mil habitantes no Ceará - Arquivo pessoal/IBGE Cidades
Foto de 1983 da pequena Varjota, cidade de 20 mil habitantes no Ceará Imagem: Arquivo pessoal/IBGE Cidades
Fred Di Giacomo

Caipira punk de Penápolis, sertão paulista, Fred Di Giacomo é escritor e jornalista. Foi editor e professor na Énois, escola de jornalismo para jovens de periferia, onde editou o "Prato Firmeza: guia gastronômico das quebradas de SP" (finalista do Prêmio Jabuti). Seu primeiro romance "Desamparo" (Reformatório, 2018) foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura e um dos vencedores do Edital Para Publicação de Livros da Cidade de São Paulo. Nesta coluna, propõe um espaço para refletir, investigar e divulgar o trabalho de artistas do interior, sertões, pampas e florestas que se encontram longe demais de grandes capitais.

07/05/2020 04h00

As pessoas na calçada conversando enquanto o sol baixa no céu. Carros de som volantes pedem à população do agreste cearense "pelo amor de Deus, que não saiam de casa." Os vizinhos em resenha são as impressões digitais do interior do país. "A partir do primeiro caso confirmado [de Covid-19] a cidade encolheu, está um clima muito pesado", diz o poeta Maílson Furtado refletindo sobre rastros do coronavírus que já se espalham pelo sertão nordestino.

"Antes a gente ia pra casa dos outros, nas calçadas de outros bairros, outras ruas, agora é só vizinho com vizinho". Além de analista do vai-e-vem das calçadas, Maílson é poeta, dramaturgo, ator e produtor cultural. Carrega uma história cheia de maravilhamentos, mas ficou conhecido do Brasil ao voltar, migrante do avesso, da viagem São Paulo - Ceará grande vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura 2018.

O primeiro escritor independente a ganhar a principal premiação de nossas letras está em quarentena na pequena Varjota, menos de 20 mil habitantes, onde foi quase-nascido e criado. "Quase-nascido" porque quando sua mãe, dona de casa, o pariu, a cidade não tinha maternidade e o pai, bodegueiro e pequeno agricultor, teve de se mandar para a vizinha Cariré de modo que o poeta pudesse ganhar o mundo em 1991.

O poeta Maílson Furtado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

"1991?!", surpreendo-me. Sim, Maílson é ainda muito jovem, e foi aos malditos 27 anos que ganhou dois Prêmios Jabuti nas categorias melhor livro de poesia e livro do ano. Maldição dos 27 anos é coisa de roqueiro, nada a ver com poeta sertanejo, pensa você. Para Maílson, contrariando as estatísticas, os 27 foram começo de vida nova, encontro definitivo com sua voz literária mais madura e épica, quando abandonou as inspirações marginais, herança de Paulo Leminski e do rock'n'roll, e caiu de cabeça na épica. "Li a 'Divina Comédia', Dante mudou minha vida! E, também, 'A invenção do mar', de Gerardo Mello Mourão, a literatura de cordel nordestina (que pra ser cordel não basta ser rimada, tem que trazer uma narrativa), 'Uma Viagem à Índia' do Gonçalo M. Tavares, Ariano Suassuna e Dom Quixote", lista. Mas ressalta a importância de épicas contemporâneas como "Torto Arado" (Itamar Vieira Jr.) e "Um defeito de cor" (Ana Maria Gonçalves), ambos protagonizados por afrobrasileiras e que fogem do viés colonizador típico das narrativas europeias. Pensando nas epopeias que ainda não ganharam as páginas da literatura contemporânea, Maílson profetiza um "boom" de narrativas indígenas que singrem pelo mesmo caminho.

Voltemos ao rock: Kurt Cobain, membro do clube dos 27, foi um dos ídolos de adolescência de Furtado, quando este começou a vestir preto e ouvir rock oitentista, punk e grunge. Um punk no sertão cearense? Sim, que inclusive traduzia o lema "Do it yourself" como "Se vira!" e o leva como profissão de fé, editando, diagramando e ilustrando grande parte de seus livros independentes. (Só "à cidade", sem grande editora ou equipe de marketing, já vendeu mais de 4.500 exemplares, número quase impossível para poesia no Brasil).

Mailson e os roqueiros do agreste.

Furtado não segue à risca o traçado que sudeste e imprensa sudestina querem lhe impor. Poeta sertanejo tem que ser naivè, rural, com pé no barro e chapéu cangaceiro no coco? Tem que ser Patativa do Assaré 2.0? Furtado, fã de Patativa, apareceu de chapéu de couro no programa global Fantástico, mas despertou para a poesia quando tentava escrever letras de rock para bandas imaginárias em cadernos que o tempo comeu. Sim, apesar das leituras obrigatórias do colégio que lhe pareciam estéreis (preferia aprender a Teoria da Relatividade, comprovada na vizinha Sobral, e que já sabia explicar aos 13 de idade), a poesia entrou em sua vida primeiro pelos ouvidos, inspirado nas letras de Renato Russo, um evangelizador pop de poetas perdidos pelos subúrbios brasileiros. Maílson é o subúrbio brasileiro que a elite intelectual não digere, ele não se encaixa nas poucas gavetinhas de periferia que o mainstream aceita: não é o funk da favela, o rap da quebrada, nem o flagelado da seca, mas o jovem CDF filho de agricultores que estudou em escola pública a vida toda na região de Sobral (onde se encontram as melhores escolas públicas do Brasil) e foi pioneiro em uma universidade, onde formou-se cirurgião dentista.

Vista aérea de Varjota, cidade do poeta Maílson Furtado - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Seu subúrbio, no entanto, tinha rock, teatro estudantil, grêmio escolar e a influência marcante de um andarilho brasileiro, Demis Santana, que passou apenas seis meses em Varjota e convenceu Maílson e a trupe de adolescência a transformarem seu grupo de teatro, criado para apresentar uma única peça na escola, em projeto fixo e independente do colégio. No teatro, o poeta sertanejo encontrou outros jovens que se interessavam por literatura, filosofia, música e artes. Foi sua escola. Esses amigos, mais tarde, começariam a se encontrar nas margens do rio para cervejas e petiscos. Dessas conversas, na paisagem que se faz verde no verão e terra avermelhada no inverno, surgiria o coletivo "Pescaria" em que fisgavam palavras e rimas, cada um com um heterônimo que cravaria seus versos na antologia "O Cambo ". Não há curso de escrita criativa na zona oeste paulistana capaz de repetir a experiência.

Maílson ama a pequena Varjota, sua noite, seu povo e seus artistas. Não quer sair do sertão para fazer sua arte ou ser reconhecido como poeta maior. Não é à toa. Seu livro passou a se tornar presente obrigatório para os parentes que moram no sul-sudeste como são o fardo de rapadura e a cachaça de caju E mais: num país que não lê, o poeta foi recebido pela cidade em carreata quando ganhou o Prêmio Jabuti em São Paulo com o livro "à cidade", um longo poema-homenagem à pequenópole jovem como o poeta.

Maílson Furtado desfila em carro após ganhar o Prêmio Jabuti - Baldo Feitosa - Baldo Feitosa
Imagem: Baldo Feitosa

Varjota passou a existir, como cidade, apenas em 1985. Seus fundamentos, no entanto, são antigos e acompanham, enquanto vilarejo de 50 almas, o rio Acaraú. Na década de 1950, a região recebeu milhares de "cassacos" que vieram construir o grande Açude de Araras e ficaram. Como candangos de Brasília que não fossem expulsos do plano piloto, esses "cassacos" deram origem a um pequeno oásis no agreste, "polo de pesca e que exporta internacionalmente frutas em suas terras irrigadas", dados que Maílson compartilha orgulhoso, como sempre quando fala da cidade-mãe.

"Agora, somos nós que contamos nossa própria história. João Cabral de Mello Neto era filho de senhores de engenho. Rachel de Queiroz também". Furtado vê com bons olhos uma geração de autores (cita o baiano Itamar Vieira Jr e a brasiliense Deborah Dornelles) que faz, segundo ele, uma literatura de re-existência. Autoras e autores vindos dos sertões, florestas, subúrbios e interiores para romper e descolonizar nossa literatura tradicionalmente liderada por homens brancos e ricos vindos do sul. Apesar da cutelada no lugar de fala senhoril de João Cabral, cita o pernambucano como influência fundamental em seu livro "à cidade" ao lado do cearense Gerardo Mello Mourão e do maranhense Ferreira Gullar.

Acostumado com a distância das capitais, Maílson parece sofrer menos com o isolamento social do que seus contemporâneos metropolitanos. Organiza, no Instagram, lives com escritores e artistas com quem debate literatura todas as semanas. É uma forma de seguir os diálogos que lhe soam fundamentais. Adiou, para o segundo semestre, o lançamento de dois livros (o poema épico "ele: ou a epopeia rasa de um homem sem história" e a antologia "nômade" que reúne os melhores versos de seus dois primeiros livros, "imaturos" segundo o autor). Sente falta dos bares locais ("a noite acabou pra gente, está tudo fechado há 45 dias") e da vida que se forma nas calçadas com o fim do expediente. A vida que canta logo na abertura de sua obra maior, quando desenha a periferia de nossos múltiplos brasis que não se encontram nos restaurantes gourmets, nos cinemas, nas livrarias (que livrarias?), nos museus ou, mesmo, nos saraus. Brasis que se comunicam, encontram, trocam e criam nas pedras quentes e esburacadas das calçadas, com o azul tropical escurecendo sobre suas cabeças cheias de ideias.

Ou, como traduzem, melhor, os versos de Maílson que a pequena Varjota aprendeu a recitar:

"(...)
gracejos
de meros homens
de qualquer vida
que falam doutras
deles
em beiras de calçadas
desde as seis da tarde
(que vi minha mãe se benzer
Depois da zoada do badalo)
anoitece (...)

Poesia para os ouvidos

Uma playlist com as canções favoritas do poeta e produtor cultural Maílson Furtado


E um vídeo!

Arte fora dos centros