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Anielle Franco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma carta de Marinete da Silva, nossa matriarca

Marinete, mãe de Marielle e Anielle - Divulgação/Canal Futura
Marinete, mãe de Marielle e Anielle Imagem: Divulgação/Canal Futura
Anielle Franco

Anielle é cria da favela da Maré, no Rio de Janeiro. É bacharel em Jornalismo e Inglês pela Universidade Central de Carolina do Norte e bacharel-licenciada em Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É mestra em Jornalismo e Inglês pela Universidade de Florida A&M, e atualmente é mestranda em uma universidade federal no Rio de Janeiro (Cefet) cursando relações étnico-raciais com o foco na identidade das mulheres negras através da memória e legado de Marielle Franco, sua irmã e inspiração diária. Publicou seu primeiro livro, "Cartas para Marielle", e tem participação importante em diversas publicações, incluindo a autobiografia de Angela Davis. Trabalha como professora, palestrante, escritora e é a atual diretora do Instituto Marielle Franco, curadora do Projeto Papo Franco e também do curso Marielles.

15/03/2021 04h00

Hoje abro espaço na coluna para quem me ensinou a ser a mulher que sou com muito orgulho. Minha mãe. Meu exemplo de mulher. Minha base e minha inspiração.

"Para mim, como mãe, tem sido um período de deserto que invade meu coração e afunda minha alma no mais profundo abismo."

Esta é uma frase que escrevi no livro Cartas Para Marielle, de minha filha Anielle Franco. Foi uma, entre as muitas cartas e textos que fiz depois do assassinato da minha filha Marielle. Escrever sobre esse dia e sobre como tudo mudou a partir disso é sempre difícil e cruel. É sempre difícil escrever sobre Marielle e o triste dia de sua perda. Até hoje, não teve um dia 14 em que senti meu coração em paz.

Eu costumo dizer que minha maternidade foi meu grande ato de amor, isso aprendi com minha mãe. Aquela mulher que foi exemplo de vida pra mim e minhas irmãs, quando se dedicava em tudo para me educar, formar e viver uma maternidade de renúncia, mas plena, com seus 11 filhos.

Gosto de lembrar que minhas raízes originam de uma estrutura matriarcal sólida, uma geração de mulheres fortes que até hoje produz resistência para superar os desafios do dia a dia. Será de minha origem que embarcarei nesta reflexão sobre o ato político que é ser mãe inserida nesta sociedade que produz a morte e a violência contra nossos filhos.

Cabe começar evidenciando que a "dor" é um substantivo feminino. Vivenciar a dor desde o início a maternidade, trata-se de construir linguagens corporais pelo afeto e pelas emoções que são tematizadas e dramatizadas - a alegria, a dor da perda, a saudade, a revolta com a injustiça, a incompreensão - tudo isso é o que compõem o combustível do que chamamos de "luta política". A minha dor e da nossa família é para sempre e espero que o legado de minha filha também seja.

De Filomena, matriarca de nossa família, passando por Marielle, Anielle, Luyara, Mariah e Eloah, o mundo pertence a mulheres como nós. O mundo é construído por mãos de lideranças como Marielle, que desafiou o sistema e não se omitiu quando chegou ao poder, mulheres como Filomena, que criou suas filhas enfrentando as fissuras cruéis da desigualdade no nordeste do país, de mulheres que avançam cotidianamente na luta contra os impactos da covid-19 em suas casas, seus territórios, cultivando resistência em suas favelas e periferias.

O assassinato de minha filha Marielle impulsionou aquilo que tenho de mais precioso guardado dentro de mim: a fé na luta. Minha fé quem me manteve de pé em todo esse tempo e, por mais que eu saiba que nem todas as pessoas compartilham o mesmo sentimento de algo divino e poderoso nos guardando e segurando nossas mãos em momentos de dor profunda, sei o quanto essa fé foi importante para me trazer aqui, após longos três anos. Lutando por respostas, falando do legado que minha filha deixou no mundo e construindo com nossa família uma organização que existe para defender e promover esse legado, o Instituto Marielle Franco.

É a luta de mães pretas, como Anielle, como Marielle e como eu, que movimentam a estrutura deste país para a frente, e sei que é a partir de nós e tantas outras, que conseguiremos alcançar a justiça, não só para mim, mas para todas as mães que já choraram a perda de uma filha.

Com isso, sigo daqui, transformando meu próprio substantivo em verbo, e lutando para que não demoremos mais três anos para avançarmos nas respostas do que foi a maior tragédia da minha vida e um divisor de águas na democracia brasileira.

Marinete da Silva, mãe de Marielle e Anielle

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL