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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O caminho para a educação: a pé e de bicicleta para a escola

Getty Images
Imagem: Getty Images
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

29/04/2022 04h00

Como você reagiria frente ao pedido de uma criança para caminhar ou pedalar sozinha até a escola? É muito provável que a resposta para a pergunta varie muito de acordo com a cidade, com o contexto social, situação econômica e experiência pessoal.

Porém, uma certa dose de preocupação deve ser um sentimento que acompanha todas e todos nós, pois sabemos que as ruas e demais espaços públicos da maioria das cidades brasileiras não estão preparados para que crianças e jovens tenham experiências de liberdade e autonomia.

Pessoas ao redor do mundo, ao se depararem com os mesmos medos e inseguranças, construíram soluções e iniciativas como o Bicibús, com origem na Espanha, que proporciona que crianças, acompanhadas ou não de cuidadores, pedalem com mais segurança pelas ruas de cidades como Madri e Barcelona.

O programa iniciou com 5 crianças e, hoje, são centenas delas que vão para a escola pedalando em grupos às sextas-feiras. Com horário e rota definida, as crianças tomam o espaço da rua em uma jornada divertida acompanhadas de músicas e do som das buzinas das bicicletas.

A quantidade de Bicibús cresceu e, atualmente, mais de 1.000 pessoas fazem parte dessa iniciativa. A Bicibús demonstra como coletivizar um modo de transporte individual pode tornar o deslocamento até a escola mais divertido e seguro.

Além de construir condições seguras, essa iniciativa contesta a prioridade dada aos carros e às motos nas vias das cidades, ocupando-as por completo em vez de restringir a circulação das crianças à circulação em ciclovias e ciclofaixas. Isso porque os espaços dedicados para a mobilidade ativa são quase sempre insuficientes ou projetados exclusivamente para atender deslocamento para o trabalho e não para o acesso seguro à escola e a outros locais de atividades ligadas às compras, ao lazer ou à saúde.

É importante destacar que algumas iniciativas no Brasil também promovem ações para transformar o caminho até a escola. Tais como as promovidas pela Corrida Amiga que realiza várias ações em escolas, públicas e privadas, através de atividades educativas como caminhadas orientadas pela cidade, aprendizagem sobre questões conceituais, atividades culturais e recreativas em espaços públicos etc. Tudo isso para incentivar a adoção da caminhada como meio de transporte para ir à escola.

Segundo Silvia Stuchi, diretora-fundadora da ONG, "a criança que se desloca para a escola de carro ou no transporte escolar não tem a mesma vivência que uma criança que se desloca a pé pela cidade, isso considerando a possibilidade de atividade física, aprendizagem na cidade, pois a cidade é rica de conteúdo que não pode ser acessado só através de livros, o que só contribui para o enriquecimento do conteúdo pedagógico de cada disciplina".

A diretora da organização destaca que, entre as principais dificuldades comumente identificadas para a realização das caminhadas até a escola, está o medo sentido pelos adultos responsáveis por essas crianças. Em relato, Stuchi revela que, de início, era solicitado que as crianças fossem escoltadas por agentes de trânsito nas atividades externas. Porém, ao refletir sobre qual mensagem seria passada para as crianças, a opção de prosseguir sem agentes revelou-se viável e segura, o que também proporcionou um processo de aprendizagem para as pessoas cuidadoras e equipes das escolas.

O mapa de trajetos é uma das ferramentas utilizadas pela organização para induzir as crianças a refletirem sobre o local que moram e vivem, o trajeto que realizam e o meio de transporte que utilizam. A exemplo, podemos citar a experiência da Vila Cisper, bairro da cidade de São Paulo, onde durante uma atividade uma criança revelou que seu trajeto era muito inseguro e perigoso dada às grandes chances de atropelamento por causa da alta velocidade dos veículos e da embriaguez dos motoristas.

Como alternativa, a criança apontou que se sentiria mais segura se houvesse gradis em todo o percurso separando a calçada da pista para protegê-la dos carros. Relato que só ressalta a importância de atividades como a promovida pela organização, tendo em vista, como defende Silvia, que "não é emparedar a cidade, mas sim fiscalizar, educar e gerar ambientes que favoreçam a convivência entre os diferentes meios de transporte''.

Após coletar dados com o objetivo de verificar o impacto das ações promovidas, a organização constatou que houve o aumento da quantidade de crianças e cuidadores que passaram a adotar o transporte a pé para ir à escola.

Aproveito o ensejo do dia 28 de abril, Dia Mundial da Educação comemorado na última quinta-feira, para lembrar que é preciso repensar o acesso à educação sob diferentes perspectivas, inclusive no que se refere ao meio de transporte e aos caminhos utilizados para chegar até escolas, quadras esportivas, centros educacionais e demais locais de encontro. Pois a aprendizagem não começa na sala de aula, estende-se por todas as oportunidades de aprender um pouco mais sobre a vida, o mundo e a sociedade. Então, para criar cidadãs e cidadãos mais conscientes, é preciso possibilitar seus caminhos até a escola.