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Kelly Fernandes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É hora de falar na reconstrução das cidades destruídas pelas chuvas?

Manuella Luana/AFP
Imagem: Manuella Luana/AFP
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Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

14/01/2022 04h00

Enquanto a chuva cai, talvez seja cedo para falar em reconstrução, porém é fundamental começarmos a desenhar estratégias diante dos recentes desastres climáticos. Nas últimas semanas, diversas cidades brasileiras foram parcial ou totalmente destruídas pelas chuvas, caracterizadas por alguns especialistas como eventos extremos, dada a intensidade e volume atípicos decorrentes da mudança do clima. Isto é, do aquecimento global que incorre em alterações no volume de água, temperatura, composição do solo etc.

Milhares de pessoas viram seus lares e pertences escoando pelas águas dos rios que quadruplicaram de volume. Nos últimos dias, com a trégua, uma parcela de moradores afetados já retornou para suas casas.

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Em meio a devastação, o questionamento que fica é: por onde recomeçar? Pergunta que precisa ser respondida também pelo poder público, na medida que a prevenção de eventos similares no futuro requer a ação coordenada e direta de gestões municipais, estaduais e do Governo Federal.

Nesse sentido, cabe retornar um tema bastante recorrente nesta coluna, a adaptação ao clima, que foi, mais precisamente, assunto do texto "Precisamos preparar sistema de transporte para eventos climáticos extremos", publicado em julho de 2021.

Como eu escrevi naquela ocasião, as ações de adaptação visam "reduzir a exposição e vulnerabilidade das pessoas em relação aos efeitos inevitáveis da mudança no clima", o que requer a realização de previsões baseadas em evidências, ou seja, dados concretos sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos, com a finalidade de fazer estimativas e previsões.

Citando um exemplo pontual, após as chuvas no sul da Bahia, uma ponte foi completamente engolida pelo Rio dos Frades, localizado no município de Porto Seguro/BA, deixando inúmeros vilarejos completamente isolados. O barco restou como única opção de transporte de pessoas e mercadorias, mas, com o passar dos dias, o volume do rio foi reduzido e, aos poucos, ressurgiram trechos da estrada tornando possível a passagem de carros 4x4, motociclistas experientes e pessoas corajosas a pé.

Dentre as opções de travessia, certamente, a opção pelo barco continuava como a alternativa com menos risco, garantindo às pessoas da região a volta para casa e o transporte de mercadorias e de tudo o mais que for necessário para assegurar a manutenção da vida. Entre moradores circula o boato de que a prefeitura já está preparada para reconstruir a estrada, agora submersa, dessa vez 1 metro mais alta para que a tragédia não volte a acontecer.

A necessidade de contar sobre os desafios no Vale dos Búfalos vem da demanda de reconstruir e restabelecer as condições de vida das populações afetadas. Porém, sem deixar de lado a urgência de adaptar a infraestrutura de modo a deixá-la mais resiliente aos eventos climáticos extremos para que desastres da mesma magnitude não voltem a acontecer, que provavelmente requer mais do que aumentar a altura da ponte.

Em outros países que passaram por tragédias associadas com inundações a abordagem não foi diferente, uma vez que a aplicação de recursos intensivos na reconstrução das cidades não foi acompanhada da incorporação de medidas de adaptação climática.

No entanto, em economia emergentes como a brasileira, ou em desenvolvimento, a redução do tempo entre eventos climáticos extremos tornará ainda mais difícil e desafiadora a tarefa de reduzir as distâncias sociais, dada a desproporcionalidade dos efeitos de desastres naturais sobre pessoas mais vulneráveis, em sua maioria mulheres, pessoas negras, indígenas e empobrecidas.

Tudo isso coloca sobre a mesa a emergência de reduzir a sensibilidade da infraestrutura urbana aos eventos climáticos, tornando-as resilientes ao aumento do volume do mar, enchentes recorrentes, tempestades intensas, ondas de calor e outros efeitos já anunciados.

No que cabe à mobilidade urbana, essa pode ser desdobrada em mudanças nas características construtivas, redimensionamento dos sistemas de drenagem, realocação de sistemas de transporte e readaptação do uso e ocupação do solo, por exemplo, por meio da remoção de moradias de áreas de risco.

Com o aumento da resiliência da infraestrutura, talvez pessoas como as que moram no entorno do Vale dos Búfalos possam desfrutar novamente de noites de sono tranquilas enquanto a chuva cai lá fora, sem traumas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL