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Kelly Fernandes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Empatia no trânsito: o que ocorre quando motorista assume lugar do ciclista

Fábio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo
Imagem: Fábio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo
Kelly Fernandes

Arquiteta e urbanista pela FAU-Mackenzie e especialista em Economia Urbana e Gestão Pública pela PUC/SP. Profissionalmente atua como pesquisadora em mobilidade urbana e é envolvida com a defesa dos direitos de quem anda a pé, pedala e usa transporte público.

Colunista do UOL

09/07/2021 04h00

O exercício de ver o mundo através dos olhos de outras pessoas e partilhar da perspectiva delas também pode ser nomeado como empatia. No trânsito, colocar-se no lugar do outro é essencial e pode significar a preservação da vida de uma pessoa caminhando, atravessando a rua apressadamente, montada em uma bicicleta voltando para casa, ou até mesmo adolescentes e crianças distraídas com o celular na saída da escola.

Recentemente, esse exercício de partilhar da perspectiva do outro foi ilustrado em um vídeo que viralizou nas redes sociais. Trata-se de um treinamento proposto pela Dirección de Movilidad y Espacio Público, órgão responsável pelas questões relativas à segurança no trânsito em San Luís Potos, México. Nele, motoristas de ônibus pedalam em bicicletas ergométricas (fixas ao chão) enquanto outros colegas passam dirigindo os ônibus ao seu lado.

O medo da proximidade do veículo sentido a partir da bicicleta, lugar inédito para alguns, provocou gritos e xingamentos por parte dos motoristas que estavam na posição de ciclistas - isso apesar da sensação de segurança por estarem entre amigos e em uma simulação, o que também promoveu alguns risos.

Após passarem pela experiência desse treinamento, provavelmente, muitos dos motoristas ao verem uma pessoa pedalando no bordo da pista incorporaram comportamentos preventivos e seguros. Em tradução: redução da velocidade e distância seguras durante a ultrapassagem. O treinamento, portanto, é um exercício de empatia, demonstrando que essa sensibilização pode ser estimulada por experiências práticas capazes de nos colocar no lugar do "outro".

É importante lembrar que algumas pessoas podem ser mais propensas a ter empatia, dada a preexistência de condições que exijam mais atenção com o "outro". Por exemplo, pessoas que exercem atividades de cuidado ou então que são oriundas de contexto sociais e econômicos que exigem o exercício diário de intercâmbio de sentimentos e partilha da escassez.

Mas a empatia não nasce com todo mundo e sempre precisa ser aperfeiçoada e exercitada, pois certos contextos podem fazer dela um desafio. É o caso da situação frequente de desumanização que ocorre no trânsito.

Por isso campanhas educativas como essa são tão importantes. Ao emocionarem ou abrirem os olhos para dificuldades e riscos que podem ser amenizados ou evitados a partir de atitudes simples, tais como respeitar as regras e normas de trânsito, provocam mudanças individuais e coletivas. Para a segurança no trânsito, o treinamento de pessoas que trabalham com transporte é estratégico, dada a quantidade de quilômetros percorridos e de pessoas que cruzam o seu caminho.

Inúmeros treinamentos como o realizado na cidade mexicana são realizados de tempos em tempos no Brasil, como resultado da articulação de gestões municipais comprometidas com a promoção de cidades mais seguras.

Muitas delas acontecem em parceria com a sociedade civil, como a ação "Motorista Vá de Boa", realizada na cidade de Salvador entre os anos 2016 e 2017 pelos coletivos Mobicidade Salvador e Bike Anjo Salvador; e o projeto promovido em 2013 pela Ameciclo, organização da sociedade civil localizada na Região Metropolitana do Recife, chamado "Como me sinto quando levo um fino", que cresceu e chegou a alcançar milhares de motoristas de ônibus e uma centena de taxistas.

Ações como as que ocorreram na cidade de Salvador, na Região Metropolitana de Recife e na cidade de San Luís Potosí precisam ser replicadas e ganhar escala, atingindo não só motoristas de ônibus, mas todas as pessoas que conduzem veículos motorizados.

Só assim será possível desfrutar de ruas mais seguras, onde pessoas não se relacionem apenas com as suas necessidades individuais, ao desenvolverem mais sensibilidade com as necessidades de todas as outras pessoas que cruzam seu caminho em diferentes meios de transporte. Afinal, o que há de mais público e que, portanto, precisa de mais atitudes empáticas do que as ruas e espaços compartilhados da cidade?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL