Jorge Moraes

Jorge Moraes

Siga nas redes
Só para assinantesAssine UOL
ReportagemCarros

Carros elétricos mais caros: o que falta para governo aplicar imposto

A próxima sexta-feira (10) será decisiva para decisão do governo sobre retomar impostos de importação de carros elétricos. Nesta data serão definidas as regras e prazos sobre a tarifa, que ainda pode ser reduzida a pedido da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) - que alega que a cobrança prevista afetará fortemente o mercado.

A entidade pleiteia uma redução de 35% para 20% no imposto, além de diluição do prazo em até cinco anos (ao contrário dos três já anunciados. Ainda defende uma cota de 30 mil carros livre da cobrança dividida entre todas as empresas, assim como a garantia de que não será cobrado imposto sobre veículos que já foram comprados ou estejam em trânsito em navios.

"Pedimos um prazo de 90 dias para o início de tudo assim como de forma sensata estamos aguardando o novo Rota 2030 porque de fato o Brasil não pode se fechar", disse Ricardo Bastos, presidente da ABVE.

A proposta passará por órgãos do governo federal e a expectativa é de que o imposto passe a valer a partir de dezembro. O Executivo, porém, ainda não oficializou a retomada da taxação ou deixou claro como será distribuída.

Atualmente os carros elétricos são todos importados e isentos do tributo. Entretanto, o governo retomará a cobrança, o que deve fazer com que o valor final do veículo fique cerca de 10% ou 20% maior. O BYD Dolphin, por exemplo, é vendido hoje por R$ 149.800 e a mesma marca promete para o primeiro trimestre de 2024 o Seagull, compacto que provavelmente custará até R$ 110 mil.

Para o consultor Cássio Pagliarini, da Bright Consulting, estes modelos considerados "baratos" podem chegar na casa dos R$ 175 mil a R$ 180 mil com o imposto. "Fiz alguns cálculos com a planilha que tenho e cheguei a um aumento de 9,5% no preço final se o imposto de importação for a 10% para um automóvel 100% elétrico. Se for a 20%, o veículo aumenta 18,9%. Tudo proporcional", explica.

Vale salientar que a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) defende a volta do imposto sobre a importação de veículos elétricos, alegando como pilar o desenvolvimento da indústria nacional. O tributo é zerado desde 2015.

"Quem vai investir no Brasil pensa: vou investir na produção de um carro elétrico no país ou vou importar? Ele vai importar, porque custa mais barato você fazer lá fora do que nas nossas próprias fábricas", disse o presidente da Anfavea, Márcio de Lima Leite, em entrevista coletiva.

Para Pagliarini, existe a necessidade de proteção do mercado doméstico através de uma barreira fiscal. "Essa barreira deve ser conhecida com antecedência e ser gradativa, permitindo que as empresas se adaptem às regras", diz.

Continua após a publicidade

Ainda de acordo com o consultor, a volta do tributo pode resultar em um aumento direto no preço dos eletrificados. "Da forma como está hoje, se o imposto de importação for a 10%, o resultado imediato será a diminuição na venda de veículos eletrificados, pois não dá tempo de montar a fábrica e produzir. Os preços dos eletrificados vão aumentar e cairá o volume vendido", detalha.

Tributação aumenta competitividade

Na análise do professor de MBAs da FGV e especialista no setor automobilístico Antônio Jorge Martins, a retomada também favorecerá o grau de competitividade das montadoras que se instalaram por aqui primeiro. "Hoje a cobrança de impostos de torna imprescindível para beneficiar este e outros setores", diz.

Na visão de Martins, o Brasil tem capacidade para produzir os carros elétricos sem a necessidade de importação e caminha para isso. Sobre os preços, ele acredita que não deve haver grandes mudanças. "Se não for uma alíquota exagerada ou se os fabricantes não capricharem nos valores, o impacto será relevado pelos consumidores. Lembro que a produção dos carros elétricos está prevista e será necessária por aqui", explica.

Para Ricardo Bastos, que também é diretor de Assuntos Institucionais da GWM Brasil, o momento ideal para o imposto seria após 2025. "A GWM entende que ainda não é o momento de se aumentar o imposto e fechar a entrada de veículos híbridos e elétricos. Precisamos de mais vendas, que as pessoas experimentem os carros e as diferentes combinações de tecnologias", avalia.

Na visão da BMW, o segmento de carros elétricos cresce no Brasil, mas ainda é muito incipiente, com participação de cerca de 0,4% do total das vendas. "A medida de redução de imposto de importação para veículos elétricos e híbridos foi extremamente importante para fomentar a chegada da tecnologia ao mercado brasileiro. Dessa forma, incentivamos que o consumidor tenha acesso a tecnologia mais avançada em mobilidade elétrica", explicou a montadora alemã.

Continua após a publicidade

Trâmite

Segundo apuração da reportagem, a proposta está em fase final de construção e será apresentada ao Comitê-Executivo de Gestão (Gecex) da Câmara de Comércio Exterior (Camex), que é o órgão integrante do Conselho de Governo da Presidência da República.

Na reunião do Comissão de Assuntos Técnicos (CAT), no fim do mês passado, foi apresentada uma nova proposta de recomendação para o imposto de importação, mas não foi tornada pública. Esse encaminhamento técnico será discutido no Gecex na reunião do próximo dia 10 que poderá ser seguida ou não.

* Colaborou Rodrigo Barroa

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes