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Cesvi precisa rever distorções em índice de manutenção de carros

Fernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Colunista do UOL

19/08/2015 11h43

A importância da manutenção e suas despesas não é tão valorada quando se vai comprar um carro novo. À medida que o veículo roda, os custos sobem. Donos de modelos mais velhos tendem a negligenciar os gastos com oficina, até por limitações financeiras. Daí a importância da ITV (Inspeção Técnica Veicular) para a segurança do trânsito, obrigatória há mais de 15 anos. Apenas o Estado do Rio de Janeiro implantou um arremedo de ITV, malfeita e mal controlada. Acham que é melhor que nada...

Comparar custos de manutenção entre mais de 400 modelos (sem contar as versões) de 50 marcas disponíveis no mercado brasileiro é tarefa difícil e ingrata. Mas o Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária) se voluntariou a criar o seu IMV (Índice de Manutenção Veicular). Para tanto, incluiu itens de manutenção periódica – óleo, fluidos e filtros – e de manutenção preventiva – embreagem, amortecedores, velas, cabos, elementos de freios, pneus, palhetas e correias.

Os conceitos estão certos, por evitarem a bem mais cara manutenção corretiva. Se negligenciadas, podem se tornar ameaça à segurança de todos.

Estabeleceu ainda parâmetros adequados, como os primeiros 100 mil quilômetros, e levantou valores médios de mão de obra em concessionárias de dez marcas por todo o Brasil. Quando não conseguiu o tempo-padrão de reparo, considerou 100 horas de manutenção naquela quilometragem e aí pode ter surgido a primeira distorção. O índice varia de 10 (até R$ 5.000 de gastos totais em 100 mil quilômetros) a 60 (mais de R$ 29.500) e contempla 86 modelos mais vendidos pelo (discutível) critério da Fenabrave (associação de concessionários).

Renault Sandero Stepway 2015 - Murilo Góes/UOL - Murilo Góes/UOL
Segundo Cesvi, Renault Sandero é mais caro de manter do que o Logan, mesmo compartilhando plataforma e todo o conjunto mecânico
Imagem: Murilo Góes/UOL
O grande problema do IMV é desconsiderar que manutenção leva em conta também tempo, independentemente da quilometragem rodada, para itens como óleo do motor e fluido de freio. Outro equívoco foi estabelecer a média de 20 mil quilômetros por ano para seus cálculos. Consultadas pela Coluna, Chevrolet, Fiat e Ford (Volkswagen não respondeu) informaram que a média anual registrada é de cerca de 12 mil km.

Os fabricantes estabelecem prazo de um ano para troca de óleo do motor, mas fazem ressalvas de quilometragem-limite e tipo de tráfego. A Volkswagen é a única que obriga a troca semestral de óleo do motor. Ford tinha essa política estranha, mas agora mudou para um esquema de troca semestral só nos seis primeiros meses de uso; depois, o ciclo vira anual.

Em alguns países já se adotou a troca de óleo bienal, favorável ao meio ambiente.

A tabela publicada pelo Cesvi traz outras distorções. Desconsidera, por exemplo, o dobro do número de vezes que um cliente Volkswagen tem que ir à oficina para troca de óleo rotineira, o que traz custos indiretos de tempo e deslocamentos. Os modelos mais bem classificados, nota 20, foram: Volkswagen Gol e Voyage 1.0; Chevrolet Celta 1.0; Fiat Uno e Fiorino 1.4; Toyota Etios hatch e sedã 1.5.

Versões 1.0 do Uno, mais vendidas que as de 1,4 litro, nem estão na lista. Outro ponto intrigante: enquanto Renault Sandero 1.0 e 1.6 aparecem com nota 25, o Logan, que conta com mesma plataforma e conjunto mecânico, alcança índices melhores, 23 (1.0) e 24 (1.6).

O Cesvi é uma entidade séria, mas poderia estudar melhor os critérios, rever cálculos e aprimorar a divulgação para evitar dados incongruentes.

Siga o colunista: twitter.com/fernandocalmon

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL