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Americano completa 50 anos comendo Big Mac todo dia; tem como ser saudável?

Reprodução/Guinness World Records
Imagem: Reprodução/Guinness World Records

Bruna Alves

Do VivaBem, em São Paulo

18/05/2022 12h22

Ontem (17), o americano apaixonado por Big Macs, Don Gorske, alcançou seu terceiro recorde: completou 50 anos comendo o sanduíche todos os dias, ininterruptamente. Por dia, ele come dois lanches nas suas principais refeições, ou seja, 14 hambúrgueres por semana. A informação foi divulgada pelo próprio Guinness World Records, que autenticou todos os feitos do fã do lanche.

Don já completou duas marcas que entrou para o chamado livro dos recordes. Em 1999, ele se tornou a pessoa que mais tinha comido Big Macs no mundo até então. Já em 2021, 22 anos depois, ele quebrou o próprio recorde e totalizou 32.340 já ingeridos ao longo da sua vida.

Apesar da quantidade, Gorske disse, recentemente, que está com um ótimo nível de açúcar no sangue e um colesterol excepcionalmente bom. Ele alega que para manter a "saúde" caminha cerca de dez quilômetros por dia e foge das batatas fritas.

Mas dá para ser saudável comendo tanto fast food?

Para começar, Andressa Heimbecher Soares, médica endocrinologista, membro da SBEM-SP (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), questiona: "Ele dosou o LDL (colesterol ruim) ou o colesterol total? Não sei. Atendo muitos pacientes de fora do Brasil e, muitos deles, não costumam fazer avaliações detalhadas."

E veja bem: se você comesse dois sanduíches, como no caso do Big Mac, que tem 563 calorias, estaria ingerindo 1.126 calorias por dia. Considerando que a média geral diária que deveria ser ingerida é de 2.000 calorias, restariam apenas 874 para outros alimentos ao longo do dia.

Contudo, na hora de obter o valor energético total é importante individualizar a necessidade de acordo com peso, altura, idade, gênero, exercício físico, entre outros fatores.

Liane Gonçalves Borges, médica nutróloga pela USP-RP (Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto), especialista pela Abran (Associação Brasileira de Nutrologia) e professora do curso de pós-graduação em nutrologia da USP, avalia que, sem dúvida, a retirada da batata frita e a associação com exercício físico —caminhada de 10 km por dia—, pode contribuir para manutenção de peso e resultados de exames laboratoriais.

"Entretanto, vale ressaltar que alimentos fast food são ricos em sódio, açúcares, gordura saturada, trans e aditivos químicos que tornam o produto mais palatável, saboroso e com baixa qualidade nutricional. Portanto, além de avaliar apenas níveis glicêmicos e de colesterol, muitas vezes, parte de vitaminas e minerais estão reduzidas", pondera.

E, nesse sentido, vale ressaltar que não temos acesso a todos os indicadores de saúde do americano comedor de Big Mac. Borges explica que o fato de apenas exames básicos estarem normais não significa que a pessoa esteja saudável por completo.

"Pode ocorrer depósito de gordura no fígado (esteatose hepática), presença de placa aterosclerótica nos vasos, que aumentam o risco de aparecimento de doenças cardiovasculares e complicações relacionadas. E esses diagnósticos, por exemplo, são obtidos através de exames de imagem e não de sangue", alerta.

A endocrinologista, por sua vez, acrescenta que, quando consumimos mil calorias de alimentos saudáveis, o pâncreas não é forçado a trabalhar mais e, consequentemente não gera um padrão inflamatório no organismo.

"Os parâmetros dosados mais comumente podem até vir bons, mas e exames que são pouco pedidos, que avaliam o risco cardíaco antes do colesterol, como a lipoproteína A; apolipoproteínas A-1 (Apo A-1) e B-100 (Apo B-100); homocisteína; proteína C reativa (PCR) de alta sensibilidade?", exemplifica Soares.

Em outras palavras: não dá para dizer que uma pessoa que consome dois hambúrgueres por dia seja saudável, ainda mais depois de tanto tempo. "O ideal é buscar equilibrar a alimentação, consumir maior quantidade de alimentos in natura, minimamente processados como frutas e vegetais e, claro, ter os momentos de pizza, hambúrgueres, mas com moderação", diz Borges.

Exercício não é desculpa

De acordo com OMS (Organização Mundial da Saúde), a quantidade recomendada é de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada a vigorosa por semana para todos os adultos, incluindo quem vive com doenças crônicas ou incapacidade.

A entidade destaca ainda que a frequência também é importante: é melhor fazer 30 minutos cinco vezes na semana, do que apenas um dia por 150 minutos. E os benefícios são diversos.

Isso significa que se uma pessoa caminha 10 km por dia, totalizando 70 km por semana, ela realiza uma quantidade de exercício que promove benefícios para sua saúde, sim.

Mas, quando os hábitos alimentares não andam lado a lado, o máximo que se obtém é o retardo ou o controle do surgimento de doenças. O desfecho, contudo, é inevitável, cedo ou tarde. Há exceções, sim, mas a questão é: vale a pena testar?

*Com informações de reportagem publicada em 10/08/2021.