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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


Após cirurgia na mandíbula, eles relatam melhoras na saúde e na autoestima

A carioca Maria Eduarda, 22, em antes e depois da cirurgia ortognática; leia relato mais abaixo - Arquivo pessoal
A carioca Maria Eduarda, 22, em antes e depois da cirurgia ortognática; leia relato mais abaixo Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

04/10/2021 04h00

Dificuldades para mastigar e respirar, problemas no sono, impactos na autoestima. Essas são algumas das queixas de pessoas diagnosticadas com o que os especialistas chamam de deformidade ou anomalia dentofacial, que é quando as estruturas da mandíbula e/ou da maxila crescem de forma anormal, causando uma falta de simetria no rosto.

A maxila é o osso responsável por suportar os dentes superiores e a mandíbula, os inferiores. No entanto, por diversas causas, principalmente genéticas, algumas pessoas desenvolvem as estruturas com maior discrepância entre elas.

Para ficar mais claro, são pacientes que possuem um queixo mais avantajado, por exemplo, ou ao contrário, com o maxilar maior do que a mandíbula.

Para corrigir essas alterações do crescimento, os especialistas realizam um diagnóstico preciso e, se o problema for identificado, indicam a cirurgia ortognática, um procedimento estético-funcional capaz de resolver as principais queixas relacionadas à saúde e bem-estar, além de restaurar a harmonia facial.

"É uma cirurgia indicada para adultos ou para quem já tem os esqueletos com crescimento consolidado", explica Sidney Rafael das Neves, membro da câmara técnica de cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial do Crosp (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo).

exame de imagem mostra parafusos e placas de Juliana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem mostra parafusos e placas na face de Juliana após cirurgia; leia relato mais abaixo
Imagem: Arquivo pessoal

Isso porque, em crianças, tenta-se corrigir o problema com aparelhos ortodônticos. Às vezes, dá certo, mas em outras situações, só com esse paciente mais velho é possível realizar o procedimento. Em pessoas com útero, isso ocorre quando ela menstrua. Caso contrário, é por volta dos 18 anos.

O procedimento consiste em realinhar as estruturas da mandíbula e/ou da maxila, com serras, parafusos e placas de titânio em um centro cirúrgico, além do acompanhamento odontológico prévio —exceto em alguns casos, chamados de benefício antecipado.

'Tenho 33 parafusos e 9 placas de titânio'

Daniel Carvalho, 21, tinha muitos problemas de saúde: dificuldades para falar, mastigar e também para respirar. Segundo os médicos, os pacientes geralmente respiram mais pela boca, principalmente à noite, e tendem a desenvolver apneia obstrutiva do sono.

Daniel antes e depois - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Daniel, à esquerda, antes de realizar o procedimento
Imagem: Arquivo pessoal

"Tem esses dois lados. O da estética que, para quem tem o problema, não é nada agradável, você fica com a autoestima baixa. Mas a parte da saúde era o mais importante para mim", conta o técnico de internet, de Pará de Minas (MG).

Em junho de 2020, Daniel fez a cirurgia após utilizar aparelho fixo por 4 anos —o tempo varia de acordo com paciente.

O uso do aparelho antes —para ajeitar os dentes— e durante a cirurgia faz parte do tratamento, conforme explica o cirurgião Ciro Duailibe, mestre e doutor em cirurgia bucomaxilofacial e professor de odontologia da Faculdade Pitágoras de São Luís (MA).

"O ortodontista faz o trabalho de deixar tudo alinhado e nivelado em relação às bases ósseas porque, durante a cirurgia, vamos movimentar o segmento da mandíbula e da maxila. E a intenção é que os dentes encaixem da maneira perfeita após a cirurgia", afirma.

O aparelho também é utilizado durante o procedimento para "segurar" todos os dentes. Imagine que, durante a cirurgia, todos os ossos serão "soltos" para, então, serem serrados e recolocados no local certo.

Todo esse planejamento é feito antes da cirurgia, de forma digital, com auxílio de exames de imagens, em que é possível simular como será o "depois" da cirurgia —sempre alinhando com a expectativa dos pacientes. Depois, a pessoa também deve continuar o tratamento ortodôntico.

Hoje, Daniel tem 33 parafusos e 9 placas na boca, mas nem dá para perceber que as peças estão ali. "Elas não oferecem nenhum problema nos lugares, com nas portas de banco, por exemplo. A cirurgia só trouxe vantagens."

Raio-x da boca Daniel Carvalho - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raio-X da boca de Daniel mostra os 33 parafusos e as 9 placas; colegas acham o fato curioso e engraçado
Imagem: Arquivo pessoal

Cirurgia auxilia na estética, mas não é o objetivo

Embora seja algo que afete, sim, a autoestima, é fundamental compreender que o procedimento não vai mudar completamente o rosto. O foco número 1 é trazer mais qualidade de vida, segundo Gabriel Pastore, cirurgião bucomaxilo do Hospital Moriah (SP).

"É claro que, quando fazemos a cirurgia e corrigimos essa falta de sincronismo entre os ossos, tem um ganho estético, que é importante. Mas não é o primeiro foco", explica.

Não é incomum, inclusive, ouvir pacientes com relatos de bullying ou de piadinhas envolvendo a aparência deles. Caso de Maria Eduarda Sousa, 22, estudante e modelo que mora em Portugal atualmente.

"Não chegava a ser um bullying, mas era algo que incomodava, principalmente quando as pessoas começaram a reparar mais", conta. "Não conseguia tirar da minha cabeça a ideia de fazer a cirurgia."

No final de 2015, quando tinha quase 17 anos, resolveu realizar o procedimento. "Fui muito disciplinada, usei corretamente o aparelho porque, na época, queria muito trabalhar como modelo e não podia perder o timing", lembra a jovem.

Maria Eduarda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Maria Eduarda em foto recente
Imagem: Arquivo pessoal

Mesmo motivada pela estética, Maria sentiu todos os benefícios que nem tinha noção na época. "Eu era nova, mas também sabia que, com o tempo, as coisas poderiam piorar, principalmente na parte da oclusão [ato de fechar a boca]."

'Recuperação é chata, mas faria tudo de novo'

Isso também vai depender de cada paciente. Daniel e Maria, citados antes, relembram como algo "chato", mas "sem dor".

Toda a preparação feita de forma digital já auxilia para que a recuperação ocorra da melhor forma. Além dos medicamentos para evitar dor, o paciente sai com o uso do elástico na boca —para os ossos se "acostumarem" como a nova posição.

É uma recuperação chatinha mesmo, mas passa, e os resultados são para o resto da vida. Se precisasse fazer tudo de novo, eu faria, de tanto que me ajudou. Maria Eduarda

De acordo com os especialistas, a pessoa fica, em média, uma noite no hospital e sai de lá com uma dieta envolvendo ingestão de líquidos ou alimentos pastosos. Isso dura 30 dias, mais ou menos, e pode se estender por mais tempo se preciso.

"Hoje em dia, usamos técnicas minimamente invasivas, com acessos menores, e realizamos a cirurgia com tempo reduzido. Tudo isso influencia nesses fatores, trazendo mais conforto ao paciente, que tem um pós-operatório mais tranquilo. Antigamente, o paciente era liberado com a mandíbula totalmente travada. Isso já evoluiu há um bom tempo", explica o cirurgião de São Luís.

Todos os pontos ficam localizados internamente e não há nenhuma cicatriz externa. Também não é necessário retirar os parafusos ou placas, que são bem aceitos pelo corpo e não causam problemas de saúde —só quando há incômodo por parte do paciente.

'Tenho dormência em partes do rosto'

A carioca Juliana dos Santos, 22, notou as mudanças no rosto quando foi ficando mais velha. Era uma adolescente "normal" até que começou a se sentir mal com aparência. "Afetou meu estilo de vida, não queria sair de casa, ficava trancada no quarto", lembra.

Juliana antes e depois - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Juliana, à esquerda, antes da cirurgia; na foto da direita, ela diz estar mais magra por ter passado muitas semanas sem poder mastigar
Imagem: Arquivo pessoal

Passou pelo procedimento duas vezes. Na primeira, não gostou dos resultados, então, depois de alguns anos, procurou por uma nova cirurgiã, quando o resultado foi mais satisfatório. Precisou de 52 parafusos e 9 placas.

"Tinha muitas queixas, a ponto de não conseguir nem reparar. Respirava muito mal, tinha problemas para mastigar e minha oclusão era ruim. Achava normal. Hoje, já percebo a diferença. A qualidade de vida é bem melhor", conta a estudante e professora do Rio de Janeiro.

Hoje, não tenho mais vergonha de mostrar o meu rosto e nem me escondo mais. Juliana dos Santos

Embora tenha ficado com "sequelas", vive a vida normalmente e até esquece que passou pelo procedimento. "O único detalhe é que fiquei com parestesia, que é uma dormência em algumas partes do rosto."

Isso pode mesmo acontecer, segundo Márcio de Morais, professor da área de cirurgia bucomaxilofacial da Faculdade de Odontologia de Piracicaba da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). "Todo paciente que passa por uma cirurgia ortodôntica vai ter um certo grau de dormência. Isso é uma ocorrência da cirurgia", explica.

A sensação de dormência pode passar com o tempo ou acompanhar a pessoa pelo resto da vida. Mas o cirurgião ressalta que dormência é diferente de paralisia.

Por fim, vale ressaltar que a cirurgia deve ser realizada pelos planos de saúde, pois consta no rol de procedimentos da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar). O SUS (Sistema Único de Saúde) também faz a cirurgia, mas a fila pode ser um pouco mais demorada.

Porém, segundo os especialistas, o acompanhamento ortodôntico fica por conta do paciente. Em caso de necessidade, ele deve procurar um CEO (Centro de Especialidade Odontológica) mais próximo para avaliação.

Contraindicações e riscos

É importante deixar claro que, para realizar a cirurgia, é preciso ter diagnóstico de que alteração na mandíbula ou na maxila afetam a qualidade de vida do paciente —conforme citado, a operação é recomendada para quem tem dificuldade para mastigar, falar e até para dormir (apneia). Inclusive, há situações de pacientes que sofrem com problemas na coluna.

A cirurgia é invasiva e o processo de recuperação nem sempre é simples —varia de acordo com o quadro do paciente, ou seja, quais estruturas foram alteradas. As primeiras 48 horas são as mais delicadas.

O indicado, no geral, é que a pessoa fique afastada, no mínimo, 15 dias do trabalho, em repouso (é possível andar, ir até o banheiro, etc). A recuperação, gradativa, deve ocorrer após 1 mês. Antes desse período, o paciente não pode fazer atividades físicas que demandem muito esforço e/ou de esportes de contato.

O procedimento é contraindicado para pessoas com doenças descompensadas, como diabetes ou hipertensão. Até por isso são solicitados diversos exames pré-operatórios antes do procedimento —como ocorre em qualquer cirurgia.

Como citado acima, cirurgia quando realizada na mandíbula pode apresentar uma certa dormência no lábio inferior, que normalmente diminui após uso de terapia a laser e medicamentos, pois, no procedimento, as bases ósseas são movimentadas e nelas há a presença de diversos nervos. Inclusive, os cirurgiões orientam que os pacientes procurem o auxílio de fisioterapeutas e fonoaudiólogos após o procedimento cirúrgico.

Como em qualquer operação, existe risco de infecção pós-operatório, além de sangramentos. Ainda em ambiente hospitalar, o paciente já inicia a medicação com antibióticos, que pode durar até duas semanas.

Por haver um caráter estético, há o risco do paciente não ficar satisfeito com o resultado. Por isso, é importante alinhar as expectativas do processo todo, conforme ressalta Neves. "Às vezes, a expectativa é muito grande e a pessoa pode viver um relacionamento muito conflituoso com a própria imagem e, neste caso, é bom ter um acompanhamento psicológico ou psiquiátrico", explica. "O acompanhamento psicológico é recomendado somente em raras exceções, quando o paciente apresente grande ansiedade ou tenha altíssima expectativa não contemplada através da manobra técnica."

O ideal é que essa avaliação com psicólogo ou psiquiatra, inclusive, seja feita antes mesmo de o paciente marcar a cirurgia, pois muitas vezes a busca pela operação pode ser motivada por um transtorno de imagem, que a cirurgia não irá resolver e ainda pode trazer ainda mais insatisfação ao paciente, caso ela não gere o resultado esperado.