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Pesquisadores descobrem mecanismo para bloquear ação do zika vírus

Jean Pierre Schatzmann Peron, imunologista e professor - Divulgação
Jean Pierre Schatzmann Peron, imunologista e professor Imagem: Divulgação

Bruna Alves

Colaboração VivaBem

20/07/2020 12h00

Após mais de três anos de pesquisa, cientistas brasileiros conseguem descobrir o mecanismo usado pelo zika vírus para derrotar o sistema imunológico de camundongos e conseguir atravessar a placenta, difundindo-se para o cérebro dos fetos e se multiplicando em seus neurônios.

Em 2016, Jean Pierre Schatzmann Peron, imunologista e professor, junto com sua equipe do ICB (Instituto de Ciências Biomédicas) da USP (Universidade de São Paulo) e da plataforma científica Pasteur-USP, conseguiu comprovar, pela primeira vez, a partir do estudo em camundongos que, de fato, o zika causava microcefalia, defeitos congênitos e morte de células precursoras de neurônios no cérebro.

No entanto, faltava compreender os mecanismos por trás da ação infecciosa do zika, e como ele manipula a resposta imune do hospedeiro a seu favor.

Agora, em parceria com americanos da Universidade Harvard e argentinos da Universidade de Buenos Aires, o imunologista do ICB-USP descobriu que durante a infecção do zika nas mães acontece a ativação de uma molécula (proteína) chamada AHR.

Essa molécula tem um efeito de suprimir a resposta imune. Feito isso, o vírus pode se replicar livremente no corpo do hospedeiro. E, ao invadir as células, o zika consegue desligar a produção de duas substâncias usadas pelo sistema imune para combater infecções virais: o interferon do tipo 1 e a proteína da leucemia promielocítica (PML).

Uma vez ativado, o receptor AHR limita a produção de interferon tipo I pelas células do sistema imune. Esses interferons são de enorme importância na imunidade antiviral inata de camundongos e humanos.

Além de limitar a produção de interferon, a ativação do AHR desencadeada pelo zika também suprime a imunidade intrínseca celular que é impulsionada pela substância PML, que age limitando a replicação do zika.

Portanto, com o desligamento dos mecanismos celulares responsáveis pela produção de interferon e PML, o vírus elimina as barreiras do sistema imune que impediriam a sua replicação.

E se a gente bloquear essa molécula?

Os cientistas então fizeram os testes experimentais nos camundongos para tentar encontrar uma forma de coibir o desenvolvimento do vírus no feto.

"A gente infectou as fêmeas de camundongos prenhes com o vírus e, ao mesmo tempo, a gente tratou com uma droga que bloqueia essa molécula que é o AHR. E, de fato, o vírus crescia menos", descreve Peron.

O professor explica que, durante os testes, a equipe percebeu uma redução muito significativa na quantidade de vírus que passava da mãe para o feto. Havia uma quantidade menor de vírus na placenta, no cérebro, nos olhos do filhote, e todas as medidas corporais estavam iguais ao grupo controle, não infectado.

Além disso, o peso do feto, o comprimento total e as medidas crânioencefálicas da cabecinha também estavam normais.

"Então, resumindo, o que o trabalho mostra são duas grandes coisas: primeiro, a molécula AHR é usada durante a infecção pelo vírus para suprimir a resposta imune e ele então conseguir se replicar e se multiplicar no organismo do hospedeiro. Esse é o primeiro achado", avalia Peron.

"E o segundo é que se eu bloqueio essa molécula com alguma droga, e trato as fêmeas infectadas com essas drogas, a gente consegue então reverter o quadro dramático da síndrome congênita do zika vírus, melhorando os impactos sobre o feto. Basicamente essa é a mensagem do trabalho", define.

O pesquisador salienta, ainda, que das duas drogas que foram testadas, uma é comercialmente disponível somente para pesquisa, mas a outra está em fase de testes já em seres humanos, o que significa que ela realmente tem potencial para virar um medicamento no futuro, capaz de bloquear a ação do zika no organismo.

Próximo passo

De acordo com Peron, agora que a droga experimental mostrou resultados excelentes nos camundongos, o próximo passo seria algum laboratório se interessar em fazer a mesma pesquisa com macacos, que é um estágio preliminar obrigatório antes do início dos testes clínicos em humanos.

"Seria fantástico se alguém tivesse o interesse de fazê-lo. E daí uma terceira fase, que precisa ficar claro que ela é distante, mas não impossível, que é tratar mulheres grávidas que se infectaram com vírus na gestação, para evitar então o desfecho grave que é a síndrome congênita do zika vírus e a microcefalia", finaliza o pesquisador.

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