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Sintomas, prevenção e tratamentos para uma vida melhor


"Ver pessoas morrendo aos montes nunca vai ser tranquilo", diz médica de AL

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Yara Achôa

Colaboração para VivaBem

02/07/2020 11h00

Em meados de abril, o governo de Alagoas divulgou que o estado havia alcançado o pior índice de isolamento social entre os estados do Nordeste. O topo do ranking foi atingido por conta do aumento da circulação de pessoas na capital e no interior, mostrando que parte da população ignorava uma das mais importantes medidas para conter o avanço da covid-19.

Na frente de batalha desde o início, a cirurgiã geral Lígia Teixeira, do HGE (Hospital Geral do Estado de Alagoas), 38, casada, mãe de duas meninas, relata a seguir os desafios, os medos e as alegrias no enfrentamento à pandemia.

"Antes da pandemia, como cirurgiã geral, eu e minha equipe ficávamos responsáveis pelo atendimento de pacientes potencialmente cirúrgicos, como pessoas vítimas de traumas, pacientes com dor abdominal, entre outros. Atendíamos apenas esses e operávamos os casos que se confirmavam como cirúrgicos.

Desde que tudo começou, todo médico que trabalhava em hospital com porta aberta foi para a linha de frente do combate ao novo coronavírus. Isso porque com o aumento do contágio, até que se prove o contrário, todo paciente podia estar contaminado por coronavírus. Inclusive alguns daqueles que já estavam internados por patologias cirúrgicas acabaram se contaminando no próprio hospital e isso, infelizmente, foi inevitável.

Há algumas semanas começamos a perceber que os pacientes que antes eram só cirúrgicos também estavam chegando ao hospital com quadros suspeitos de coronavírus. Por exemplo: um paciente que dava entrada com dor abdominal, realizava tomografia de abdome e nós acabávamos vendo também lesão pulmonar —ou a pneumonia por covid era, na verdade, a causa da dor abdominal. Isso mexeu comigo.

Voltei a avaliar todos os meus pacientes de forma integral, para que não passasse batido nenhum caso de covid-19. Comecei também a auxiliar meus colegas da clínica médica que já estavam sobrecarregados e passei a me oferecer para ajudar a pegar acesso venoso central para os pacientes com covid. Nesse cenário essa seria a melhor forma de ajudar, fazendo algo que já faço muito como cirurgiã.

Tensão o tempo todo

Os primeiros dias foram muito tensos, com todos preocupados com o que estava por vir e se iríamos dar conta. E a tensão só aumentou com o passar do tempo. Colegas de equipe começaram a adoecer por coronavírus.

Logo depois, o número de pacientes com sintomas suspeitos também aumentou e nós, profissionais, estávamos em número reduzido. Agora, a rotina está cada dia mais cansativa. A equipe voltou a funcionar com quase todo mundo, mas o número de pacientes aumentou em um volume assustador. Ainda estamos em ascensão no número de casos e de óbitos diários no meu estado, ainda estamos no olho do furacão, com hospitais lotados, próximos de seus limites.

Filhos de Lígia - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Para proteger a mim e à minha família, desde o início reduzi ao mínimo necessário o contato com meus familiares e dispensei minha funcionária que ajudava em casa —muito mais para protegê-la, até porque eu e meu esposo estamos na linha de frente e temos receio de contaminar outras pessoas.

E então minha mãe passou a cuidar das minhas filhas enquanto estou no trabalho. Isso sempre foi um motivo de muita preocupação para mim, pois escolhi essa profissão e esse risco —mas meus familiares não. Essas medidas de proteção continuam em vigor até agora e acho que permanecerão por muito tempo.

Meu maior medo sempre foi trazer contaminação do meu trabalho para alguém da minha família. Sempre senti uma culpa antecipada por isso.

Tem sido muito difícil dar conta da família, da casa e do trabalho. Nesse momento meu sentimento é de querer ser duas para poder trabalhar mais. Queria ter uma de mim para deixar em casa cuidando da família e outra para dar duro a semana inteira e ajudar o máximo de pacientes. A sensação é de angústia e tristeza por ver tantas pessoas morrendo ao mesmo tempo.

O amor da vida de alguém

O pior momento para mim até agora foi meu plantão de 16 de maio, quando o número de óbitos aumentou em uma proporção que nunca presenciei antes. Ver as pessoas morrendo aos montes nunca vai ser tranquilo para ninguém.

Sempre penso que cada vida ali faz muito sentido para tantas outras vidas. Tem uma frase que gosto muito: 'O paciente não é só o paciente, ele é o amor de alguém'.

Ver colegas médicos internados em estado grave e alguns não resistirem também é desolador. A super lotação por causa da covid-19 infelizmente é uma realidade no mundo —nenhum sistema hospitalar suporta uma pandemia como essa com tranquilidade.

Uma atitude que incomoda muito diante desse cenário caótico é encontrar pessoas circulando por aí como se nada estivesse acontecendo. Ainda hoje vejo atletas pedalando e correndo pelas ruas, se arriscando inclusive a sofrerem acidentes e irem parar em um hospital já lotado e em estado de tensão.

Entre os momentos tristes também acontecem boas descobertas. Em meio a tudo isso, por exemplo, percebi que não sou só uma especialista, sou uma médica e ainda sei cuidar de pessoas na sua integralidade.

Solidariedade para o bem-estar

Lígia na bicicleta - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Para manter minha saúde física e mental, procurei estabelecer uma rotina de bem-estar que inclui pelo menos meia hora de bicicleta ergométrica sempre que possível e meditação duas vezes por semana. O contato com minhas filhas também me salva —elas têm me feito sorrir nos dias mais difíceis.

E ainda encontrei uma maneira muito bacana de me sentir bem nesse período: estou participando de ações solidárias para arrecadação de alimentos, roupas e equipamentos para pessoas que estão necessitando mais do que nunca. Isso tem sido um bálsamo! A sensação de ajudar é maravilhosa. Tenho certeza de que quem mais ganha sou eu.

Para os próximos tempos, espero que cada ser humano melhore em algum aspecto com essa mensagem clara do universo de que precisamos mudar e para melhor.

Para quem ainda duvida da gravidade da situação, digo que não espere a morte atingir um ente querido para acreditar no potencial avassalador dessa pandemia. Para quem está ansioso para que tudo isso passe, acredite: vai passar! Mas o principal é como você vai passar por isso. 'Seja a mudança que você quer ver no mundo', como dizia Mahatma Gandhi."

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