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"Fiquei entre a vida e a morte", relata advogada que teve pré-eclâmpsia

Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Bruna Alves

Colaboração para VivaBem

26/04/2020 04h00

Karen Nunes Machado, 31, é advogada, casada e mãe do Felipe, de 9 meses. Até engravidar, ela nunca havia tido nenhum problema de pressão, mas passou um susto no final da gestação, quando descobriu que desenvolveu pré-eclâmpsia. A seguir, ela conta como tudo aconteceu e faz um alerta para a doença que pode levar à morte.

"Planejei por um tempo engravidar e queria muito. E quando a gente decidiu ter o bebê foi rápido —com três meses estava grávida. No começo tive muito enjoo e, às vezes, não conseguia ir trabalhar porque acordava passando muito mal.

Ao longo da gravidez, teve uns dois dias que eu tive muita cólica, e minhas pernas ficavam um pouco inchadas, mas nada de anormal.

Lembro que quando estava de 24 semanas, que foi exatamente no Carnaval do ano passado, fiquei sentada muito tempo e fiquei muito inchada, essa foi a primeira vez que olhei e falei: 'nossa, estou muito inchada, daí eu comecei a usar meia de compressão.'

Quando estava de 28 semanas, fui na consulta com o obstetra, ele mediu minha pressão e estava alta (14 por 9), mas ele não passou nenhuma recomendação diferente.

Achava que era da gravidez

Tive umas duas vezes queda de pressão, e na segunda vez passei muito mal. Estava fazendo a mão no salão e tive que deitar no chão, colocaram um ventilador na minha cara, foi bem feio.

Não me preocupava, porque achava que era da gravidez, e meu médico não tinha me alertado —ele estava bem tranquilo.

No final da 31ª semana, lembro que era uma sexta-feira a consulta com o obstetra, às 08h30 da manhã, ele mediu a minha pressão e estava muito alta, e ele me achou muito inchada —mais do que o normal.

Daí ele falou: 'Karen, sai daqui e vai fazer esses exames no laboratório e toma corticoide —tem que tomar uma dose hoje e uma amanhã, que é para amadurecer o pulmão do neném, para caso aconteça qualquer coisa, e você tenha uma pré-eclâmpsia'.

Saí de lá muito nervosa porque a minha irmã é obstetra, e tinha uma noção do que era a pré-eclâmpsia, mas nunca achei que fosse acontecer comigo.

Fui para o laboratório fazer exame, como era cedo, pedi urgência e eles conseguiram naquele mesmo dia. Eu fui trabalhar e o resultado saiu umas 17h30. Mandei para o médico, ele olhou e falou que era uma pré-eclâmpsia.

Então falou que a gente ia manter a mesma conduta, que era tomar corticoide e ficar atenta a dor no estômago, dor na nuca e visão turva, com estrelinha, e medir a pressão.

Depois, achava que era azia por causa de empadão

Estava muito inchada e preocupada. Dor na nuca não tinha, mas no sábado tive duas vezes aquela visão com estrelinha que ele também disse para ficar atenta.

No domingo à noite, compramos um empadão. A moça da padaria ainda falou: 'Karen, olha, esse empadão é meio pesado para você que está grávida'. Mas eu falei: não tem outro, vai esse mesmo.

Jantei no domingo e não me senti muito bem à noite, com uma dorzinha no estômago. Na segunda acordei mal, mas achava que era azia do final da gravidez.

Até fiquei trabalhando de casa, e na noite de segunda para terça, sofri com muita azia. Achava que era azia.

Sou forte para dor, e realmente era uma dor forte na barriga, mas ainda achava que era o empadão. Na terça, quando acordei, pensei: vou esperar até a hora do almoço, se não melhorar, vou avisar ao médico porque pode ser a tal da dor no estômago que ele pediu para que ficasse atenta.

Na terça, já estava com essa azia muito forte e mandei mensagem para o médico e relatei os sintomas. Ele disse para repetir os exames que tinha feito —que tinha dado a pré-eclâmpsia.

Cheguei ao hospital perto de 13h30, eles mediram minha pressão e estava alta. Eles perguntaram como era a dor que sentia no estômago, falei que parecia que tinha levado um soco. O médico então me encaminhou para fazer exame de sangue, de urina, ecografia e cardiotocografia, que é para ouvir o coraçãozinho do neném.

Eu fiz ecografia e o Felipe (o neném) estava super bem, então meu marido ficou calmo e até foi embora do hospital, porque a gente ficou tranquilo, a gente pensa no neném, né? Nessa hora a gente nunca acha que é com a gente.

A gente não acha que vai acontecer com a gente

Fiz os exames e lembro que era 18h20 quando o plantonista me chamou bem preocupado falando que a pré-eclâmpsia tinha evoluído para síndrome de hellp —é a complicação mais grave da condição, que não tem tratamento e que eu e o bebê corríamos risco de vida. E disse que a única coisa que podia fazer para tentar salvar a nossa vida era interromper a gravidez e tirar a placenta.

Ele ainda emendou: 'O Felipe tem que nascer agora, a gente não tem tempo, você não pode nem esperar até amanhã'.

Perdi o chão, porque realmente não esperava aquilo, o negócio evoluiu muito rápido e foi um susto.

E nunca tinha ouvido falar em síndrome de hellp, ele tentava me explicar, mas estava tão nervosa na hora que não entendia.

É um choque você ouvir que vai para uma UTI e seu filho para outra —que os dois estão em risco. Não pude ir para casa pegar uma escova de dente, arrumar uma mala —nada, eu fui dali da consulta com o plantonista para a sala de cirurgia.

Meu obstetra já estava a caminho. Mandei mensagem para a minha irmã pedi ajuda. É muito difícil aceitar a notícia, eu falava que nem tinha arrumado a mala dele, e a enfermeira falava assim: 'mãezinha, ele não vai usar roupa na UTI'.

Tive que ter o bebê naquele dia. Fui para a sala de preparo tomar uma medicação que se chama sulfato, e é o que segura para você não convulsionar, porque estava correndo um risco bem iminente de ter uma convulsão a qualquer momento.

E é uma medicação que passa 1 ml por minuto e precisa de 20 ml para poder ir para a sala de cirurgia um pouco mais estável. Então são 20 minutos que você está ali entre a vida e a morte. A minha pressão na sala de cirurgia chegou a 18 por 10. Era desesperador.

Naquele momento meu fígado já estava bem comprometido e as plaquetas muito baixas, e se tivesse esperado mais um dia para avisar o médico, podia não estar aqui —ou o meu filho.

Karen Nunes Machado - pré-eclâmpsia 2 - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Felipe nasceu prematuro e às pressas por que a mãe teve síndrome de hellp
Imagem: Arquivo pessoal

Sustos da UTI não são nada fáceis

Então ele nasceu e foi para a UTI. No outro dia me deixaram vê-lo na UTI. Ele não mamava e não digeria o leite, teve uma distensão no abdome e parada respiratória. Ele passou pelos riscos que todo prematuro passa. É bem triste, ele chegou a pesar 1,9 kg na UTI, usando sonda para se alimentar e tendo essas intercorrências.

A partir do momento que você recebe a notícia que vai ter que ter o neném antes, porque está correndo risco de vida, é só o primeiro susto, porque depois, os sustos da UTI não são nada fáceis.

No segundo dia já saí da UTI e fui para o quarto. Fiquei cinco dias internada tomando medicações. Todos os dias meus exames eram coletados e melhoravam um pouquinho, até que no quinto dia eu pude ter alta, mas meu filho saiu do hospital com 15 dias.

É algo que a gente não acha que vai acontecer com a gente, mas tem que ser falado. Fui entender o que era hellp uma semana depois que meu filho nasceu, porque você é pega muito no susto. A partir do momento que a gente sabe da gravidade da pré-eclâmpsia, a gente fica mais atenta".

O que é a pré-eclâmpsia

A pré-eclâmpsia é uma doença hipertensiva (pressão alta), acompanhada da perda de proteína na urina (proteinúria) que aparece nas gestações a partir da 20ª semana. Segundo os especialistas, considera-se hipertensão arterial igual ou acima de 140/90 mmHg.

A causa mais comum é decorrente da alteração na implantação da placenta, que quando não ocorre de maneira adequada ocasiona aumento na resistência dentro dos vasos sanguíneos, fazendo com que a pressão se eleve. A doença pode ser diagnosticada por meio de exames e avaliações médicas.

Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 92% das mortes maternas são consideradas evitáveis, e ocorrem, principalmente, por hipertensão (incluindo pré-eclâmpsia), hemorragia ou infecções puerperais. A morte materna é qualquer morte que ocorra durante a gestação, parto ou até 42 dias após o parto.

Entre os fatores de risco para o desenvolvimento da pré-eclâmpsia, podemos destacar, principalmente:

  • Pacientes muito jovens (geralmente abaixo dos 19 anos);
  • Pacientes acima dos 35 anos;
  • Hipertensão (quem já tinha problemas de pressão);
  • Diabetes;
  • Obesidade;
  • Pré-eclâmpsia em gestações anteriores;
  • Gestação múltipla;
  • Trombofilias (síndrome do anticorpo antifosfolípide);
  • Lúpus.

Mas calma, sempre há um caminho mais seguro. Se houver um diagnóstico precoce, que aponte a probabilidade de a paciente desenvolver a pré-eclâmpsia é possível receitar ácido acetilsalicílico (AAS) e cálcio, como forma preventiva.

Pequenas doses de AAS (100 a 150mg/dia) entre 12 a 36 semanas de gravidez, e a administração de cálcio, de 1 a 2 gramas por dia, principalmente em mulheres com baixa ingestão deste nutriente, diminui, em até 70% o risco de pré-eclâmpsia. Mas qualquer medicamento só deve ser ingerido com prescrição e avaliação médica.

A pré-eclâmpsia não se trata de uma doença hereditária. O que se sabe, entretanto, é que pacientes que desenvolveram a doença em uma gestação tem mais chance de desenvolver novamente.

Ela pode vir acompanhada de inchaço no corpo todo, alteração de visão, diminuição do volume urinário, falta de ar, redução do líquido amniótico e, em sua evolução, pode afetar e causar graves lesões nos rins, no fígado e, em casos extremos, levar ao inchaço do cérebro. Pode também haver alteração na função hepática (síndrome de Hellp) e, eventualmente, derrame.

Síndrome de Hellp

Considerada pelos especialistas uma das doenças mais graves gestacionais, a pré-eclâmpsia também pode evoluir para eclampsia (convulsões), com risco de morte e também para síndrome de Hellp.

O termo HELLP deriva do inglês e refere-se à associação de intensa hemólise (Hemolysis), comprometimento hepático (Elevated Liver enzymes) e consumo de plaquetas com risco de sangramento (Low Platelets), em pacientes com pré-eclâmpsia.

É a evolução mais grave da doença, com risco iminente de morte.

Para o bebê, a doença também pode ser perigosa, levando a restrição do crescimento e ganho de peso, devido a perda da função da placenta que, em caso extremo, pode diminuir a passagem de oxigênio para o feto e levar a morte.

Além disso, a prematuridade da criança, ou seja, o nascimento antes da hora, também pode desencadear em uma série de perigos para a saúde, como infecções, dificuldades respiratórias (necessitando do auxílio de aparelhos) atraso no desenvolvimento motor e neurológico, hemorragias intracranianas, dentre outros.

A pré-eclâmpsia não tem cura, porém é possível controlar o aumento da pressão arterial até a realização do parto, com remédios anti-hipertensivos, exames e avaliações constantes. No entanto, em muitos casos, os partos precisam ser antecipados, já que há risco para a mãe e para o bebê.

Saúde da mulher volta ao normal após o parto

Em até seis semanas após o parto, a maioria das mulheres volta ao seu estado de saúde normal. Algumas ainda precisam ser acompanhadas pelos médicos e tomar remédios para controlar a pressão. No entanto, embora seja a minoria, há casos em que a mulher se torna hipertensa para toda a vida.

De acordo com os especialistas ouvidos por VivaBem, um planejamento gestacional é o ideal para prevenir doenças ou saber da predisposição em desenvolvê-las. O cuidado e acompanhamento não poderão zerar a chance de ter pré-eclâmpsia, mas ajudarão na prevenção. Dentre as dicas estão:

  • Atividade física regular;
  • Dieta balanceada (manter o peso adequado);
  • Cuidar da pressão arterial;
  • Não fumar;
  • Não engravidar na adolescência ou muito tarde.

Fontes: Marina Nunes Machado, coordenadora do Departamento de Obstetrícia de Alto Risco do Hospital do Rocio; Alexandre Pupo Nogueira, ginecologista e obstetra do Hospital Albert Einstein e do Hospital Sírio-Libanês; Pedro Paulo Pereira, obstetra e ginecologista responsável pelo Pronto-Socorro da obstetrícia no HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e Lídia Hyun Joo Myung, ginecologista e obstetra da Beneficência Portuguesa de São Paulo.

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