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Da subnutrição à obesidade

Por que as políticas públicas focadas em alimentação infantil são insuficientes na nova realidade do Brasil

oferecido por Selo Publieditorial

Há algumas décadas, a desnutrição era o único desafio quando abordávamos a má-alimentação infantil. Hoje, a subnutrição (carência de nutrientes) e a obesidade de crianças e adolescente se mostram um obstáculo ainda mais complexo dentro das políticas públicas nacionais. Focadas em ações que cobririam todo o amplo território do país, elas são pouco eficazes para mudar o cenário do Brasil.

O médico especialista em Nutrição Pediátrica Mauro Fisberg conversou com a gente sobre o assunto e ressaltou os principais pontos abordados na área de Segurança Alimentar, no 2º Fórum de Políticas Públicas em Saúde Infantil, que aconteceu no início de dezembro e foi organizado pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal, referência em disseminar informações de qualidade, principalmente por meio do seu braço de pesquisa, o Instituto PENSI.

O evento também discutiu saúde mental e imunizações.

A desnutrição ainda é um problema no Brasil?

"O índice de crianças com baixo peso no país já chegou a 28%. Agora, com o aumento do poder aquisitivo das famílias, essa quantidade está entre 5 e 7%. Programas do governo como o Fome Zero, Projetos para incentivo a amamentação, prevenção a anemia e a Merenda Escolar ajudaram a reduzir esse número. Porém, as ações se limitam a dar mais comida a elas, em vez de focar na qualidade das refeições e no aspecto educacional. Apesar de haver orientação de nutricionistas em muitas escolas e municípios, quem escolhe os ingredientes do preparo, é a própria cozinheira que pode acrescentar mais sal e preparações ricas em gordura para garantir mais sabor. A consequência é que as crianças ganham estatura e peso, mas continuam carentes de muitos nutrientes, principalmente do cálcio, ferro e vitaminas. Presentes nas carnes, verduras, frutas e no leite, são fundamentais para o crescimento e nosso desenvolvimento cognitivo, que inclui o aprimoramento da memória e a capacidade de aprendizado."

Como deveria funcionar a Merenda Escolar?

"A escola, em vez de ser vista como um local que apenas fornece comida na merenda, precisa se transformar em um verdadeiro centro de educação em nutrição. Outros países, como o Chile e a Coreia do Sul, e algumas experiências menores em nosso país, criaram currículos escolares que abordam o assunto em várias matérias: os alunos podem ir a campo para aprender matemática na feira, economia doméstica na escolha dos produtos do supermercado e biologia e química durante o preparo das refeições. Esse ensino deve ser uma comunicação participativa que promove o protagonismo dos envolvidos seguindo a realidade da sua comunidade, uma vez que o acesso aos alimentos e os fornecedores variam entre cada região do Brasil. O Projeto Experiências Que Alimentam é um bom exemplo de como educar nossas crianças: elas são colocadas em contato com diferentes temperos e tipos de preparação para descobrir novas possibilidades de refeição. Posso mostrar que o ovo é capaz de ser cozido, frito ou virar uma omelete, em pratos quentes e frios. Não queremos transformá-los Chefs Kids, mas ensiná-los a aproveitar e conhecer melhor os alimentos."

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A obesidade também é preocupante entre crianças e adolescentes?

"Com certeza: em uma década, o número dobrou. Antes, a obesidade atingia uma a cada 9 crianças; agora é uma a cada três. Entre os mais ricos, o motivo é a alta disponibilidade de alimentos em grandes quantidades. Já para as classes mais baixas, o problema é a carência de recursos para comprar opções mais nutritivas que, geralmente, são mais caras - ao contrário das com grande quantidade de açúcar e gordura. Se você parar para pensar, proporcionalmente para uma família de baixa renda, a compra no supermercado pesa muito mais."

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Basta impor uma dieta para mudar essa situação?

"Pelo contrário! Você não pode impor restrição de calorias para uma criança em fase de crescimento. O certo é aplicar uma reeducação alimentar para que o consumo dela seja de boa qualidade. Só que, para isso, você precisa envolver toda a família, que acaba sendo o principal fator de influência (ainda mais que a escola). Por isso, defendemos que o pediatra deve ter, pelo menos, alguns contatos com a gestante antes mesmo do parto. Assim, ele consegue bloquear crises previsíveis orientando previamente o que pode ser feito nos momentos cruciais do desenvolvimento da criança durante os três primeiros anos de vida."

A pesquisa tem um papel relevante nisso tudo?

"No Brasil, estamos acostumados a fazer estudos de trás para frente. Ou seja, selecionamos um grupo de pessoas e avaliamos como eram seus hábitos no passado. Por exemplo: analisamos se adultos com sobrepeso consumiam refrigerante na infância e fazemos conclusões em cima disso. O mecanismo contrário permite dados mais interessantes para definir causa e efeito: o mais importante seria conseguir acompanhar a população ao longo dos anos para monitorar o comportamento de cada um e entender a consequência de suas escolhas. Poderíamos usar pequenos Centros Sentinela com recursos locais de prefeituras, centros de saúde e universidades para fazer estudos menores que conseguissem dar continuidade nesse acompanhamento, assim como acontece em Pelotas*, no Rio Grande do Sul, uma das maiores referências em pesquisa populacional no mundo. Fazer um recorte nacional é muito mais desafiador."

Então, o ideal é que a comunidade esteja envolvida nos estudos?

"Exatamente. Quando a pessoa sabe que está trabalhando em prol de seus filhos e de seus vizinhos fica muito mais engajada no programa do que quando as ações não têm grande significado na vida dela. O Brasil é excelente para ter grandes projetos no papel, mas na prática é mais difícil. Só de trocar os vereadores de uma cidade, já corremos o risco de perder a continuidade do planejamento. As universidades de cada região podem liderar os estudos locais e contar com a tecnologia para receber o apoio dos grandes centros de pesquisa. Na Puericultura, por exemplo, podemos capacitar esses profissionais para fazer o acompanhamento com as famílias, coletar os dados e interpretá-los."

Segurança Alimentar

No 2º Fórum de Políticas Públicas em Saúde Infantil da Fundação José Luiz Egydio Setúbal, o médico Mauro Fisberg comandou um debate sobre as alternativas integrativas para prevenção de problemas nutricionais na infância, como a subnutrição e a obesidade. Quais ações deveriam acontecer desde o pré-natal até a fase de alimentação complementar para garantir bons hábitos para as crianças? Como superar o desafio e o custo de monitorar uma população espalhada em um território tão amplo como o Brasil? E como mudar as escolhas do indivíduo e da sociedade à sua volta? Essas e outras questões foram abordadas pelo especialista e pela sua equipe durante o evento que aconteceu em 8 de dezembro.

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