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Blog da Sophie Deram

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

É possível treinar o cérebro e reeducar o paladar? Estudo sugere que sim

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

07/07/2021 04h00

Muito da nossa alimentação é aprendizado. Não nascemos gostando de tudo. Com o tempo vamos desenvolvendo nossas preferências e aversões. Pense em um bebê. Quando ele inicia a introdução alimentar, geralmente vira o rosto para muitos alimentos, sendo preciso oferecê-los várias vezes até que aprenda a apreciá-los. Mas parece que também é possível aprender (ou melhor, reaprender) a gostar de certos alimentos na vida adulta.

De acordo com um estudo publicado em 2014 por pesquisadores da Universidade Tufts e do Hospital Geral de Massachusetts, é possível treinar ou reprogramar o cérebro, condicionar o sistema de recompensa e reeducar as preferências alimentares.

As preferências alimentares e o sistema de recompensa

O cérebro apresenta centros de recompensa que são ativados em diversas situações, inclusive quando nos alimentamos. Sabe-se que essa recompensa é maior quando consumimos alimentos com alta densidade energética, ricos em açúcares e gorduras.

Isso tem um papel muito importante para a nossa sobrevivência. Durante os períodos históricos de escassez, quando não existia uma grande oferta de comida, esse mecanismo inato era de grande valia, pois induzia os seres humanos a preferir alimentos energéticos.

No entanto, hoje em dia, essa ativação da recompensa pode, diante do estilo de vida e do ambiente com grande oferta de alimentos no qual vivemos, contribuir para o desenvolvimento da obesidade.

O estudo em questão leva isso em consideração, mas deseja entender até que ponto essa ativação pode ser revertida, o cérebro reprogramado e as preferências alimentares modificadas. Anteriormente eles já haviam demonstrado a diminuição do apetite combinado à redução do desejo por comida rica em gorduras e açúcares, a partir de uma intervenção comportamental de longo prazo.

Agora, contaram com a participação de 13 homens e mulheres com sobrepeso e obesidade, sendo oito dessas pessoas participantes de um programa comportamental de perda de peso desenvolvido pela Tufts University, com incentivo à mudança de hábitos alimentares e maior consumo de alimentos ricos em fibras, vegetais e proteínas. As outras cinco pessoas que fizeram parte do grupo controle seguiram com sua alimentação habitual.

Ambos os grupos foram submetidos a exames de ressonância magnética no início do estudo e após seis meses, para avaliar as mudanças cerebrais e de ativação do sistema de recompensa. Eles foram expostos a imagens de alimentos de alta densidade energética (embutidos, doces, salgadinhos, frituras) e de alimentos considerados mais saudáveis (frutas, legumes, alimentos ricos em fibras e com menor índice glicêmico).

É possível reverter a ativação do sistema de recompensa e mudar os gostos alimentares

No início do estudo, os exames de imagens mostraram que ambos os grupos foram mais estimulados pelos alimentos de alta densidade energética.

No entanto, após seis meses, os participantes do grupo intervenção apresentaram imagens cerebrais que revelaram mudanças na ativação do sistema de recompensa, com um aumento da sensibilidade e prazer diante de alimentos considerados mais saudáveis. Ao mesmo tempo, observou-se uma diminuição da recompensa diante de alimentos com alta densidade calórica.

Esse mesmo grupo também apresentou uma perda de peso média três vezes maior que aquela verificada no grupo controle, sendo de aproximadamente 6 kg.

Os pesquisadores acreditam que as atividades de cunho educativo, as mudanças comportamentais, o incentivo ao consumo de alimentos com alto teor de fibras e desencorajamento do consumo de alimentos ricos em carboidratos de alto índice glicêmico (conhecidos por aumentarem a ativação do sistema de recompensa) foram importantes para os resultados obtidos.

Esse estudo, apesar de ter sido realizado com um número pequeno de participantes e apresentar diversas limitações, incluindo a dificuldade de avaliar a regulação da ingestão alimentar por meio de sistemas de recompensa, foi o primeiro a apresentar, por meio de imagens de ressonância magnética, que os mecanismos recompensadores relacionados ao desejo por alimentos podem ser alterados por meio de mudanças comportamentais.

4 dicas para ajudar a reprogramar o cérebro e mudar o paladar

Esta é uma descoberta promissora, que pode contribuir para um novo olhar sobre obesidade e ajudar as pessoas com paladar infantil (ou seletividade alimentar).

Além disso, é um ótimo indicativo de que precisamos comer melhor, e não menos! Não é necessário restringir os alimentos, mas sim treinar o cérebro a partir de hábitos alimentares mais saudáveis, sem precisar abandonar as comidas mais prazerosas. Veja 4 dicas que podem ajudar nisso.

1- Diga não às dietas restritivas

Para emagrecer ou comer mais saudável, é muito comum as pessoas buscarem dietas restritivas que, na verdade, não contribuem em nada para a nossa saúde, geram mais desejo pelos alimentos restritos (geralmente de alta densidade energética), contribuem para o exagero alimentar e diminuem a variedade da alimentação.

2- Cozinhe mais

Cozinhar proporciona bem-estar, é um ótimo recurso para comer de forma mais saudável e pode ser uma forma de meditar. Cozinhando temos mais consciência do que estamos consumindo, conhecemos melhor os alimentos, comemos mais comida fresca e caseira, nos tornamos mais autônomos e reduzimos o consumo de alimentos ultraprocessados, bastante recompensadores.

3- Reduza o açúcar

Nosso cérebro adora açúcar, pois é uma comida muito recompensadora. Por isso, sugiro que você preste atenção ao seu consumo e tente reduzir o seu consumo. Isso não quer dizer cortar e substituir por adoçantes. Não pense que o açúcar é um vilão, o seu excesso é que pode contribuir para problemas de saúde. Se você adoça o seu café com uma colher de sopa de açúcar, tente reduzir para meia, depois para uma de chá e assim sucessivamente. Veja o resultado. Provavelmente, com o tempo, você sentirá menos necessidade de adoçar essa bebida. Vale a pena acrescentar que, caso você use adoçantes, é também interessante você reduzir o consumo deles.

4- Varie a alimentação e permita-se experimentar novos sabores

Inclua na sua alimentação todos os grupos alimentares. Somos onívoros, nosso corpo adora a diversidade. Não precisa excluir o que gosta, mas se abra para o novo. Se não gosta de alimentos como legumes e verduras, escolha um ou dois com os quais tenha mais familiaridade e vá inserindo na sua alimentação. Aos poucos poderá experimentar outros e ter uma alimentação mais variada.

O segredo é mudar os hábitos aos poucos e resgatar uma relação saudável com a comida, como explico no meu novo livro "Os 7 Pilares das Saúde Alimentar".

Assim é possível condicionar seu paladar para que sinta mais prazer na alimentação e ficar em paz com a comida!

Bon appétit!

Sophie Deram

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL