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Blog da Sophie Deram

Padrões alimentares inflamatórios elevam risco de doenças cardiovasculares

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Sophie Deram

Sophie Deram é uma nutricionista franco-brasileira, autora do best-seller ?O Peso das Dietas?, palestrante, pesquisadora e doutora pela Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) no departamento de endocrinologia. Defende a importância do prazer de comer para a saúde e a ideia de comer melhor e não menos. Sophie não acredita nas dietas restritivas e no ?terrorismo nutricional?. Desenvolve programas online para transformar a relação das pessoas com comida e ensina profissionais de saúde sobre nutrição que alia ciência e consciência.Leia mais no site da Sophie Deram: https://www.sophiederam.com/br/

Colunista do UOL

27/01/2021 04h00

As doenças cardiovasculares (DCV), aquelas que afetam o coração e vasos sanguíneos, como hipertensão, infarto e insuficiência cardíaca, representaram mais de 30% das mortes do mundo segundo a OMS (Organização Mundial da saúde).

Hoje, sabemos que a inflamação crônica é algo que contribui substancialmente para o desenvolvimento dessas doenças e a alimentação tem um importante papel no seu desenvolvimento.

É o que mostra um estudo publicado no Journal of the American College of Cardiology. Os seus pesquisadores buscaram avaliar se os padrões alimentares pró-inflamatórios estão associados a um risco aumentado de desenvolver doenças cardiovasculares.

Uma forma inédita de estudar a relação da alimentação com o desenvolvimento de doenças cardiovasculares

Para o estudo, os pesquisadores contaram com 74 578 mulheres do Nurse's Health Study I (1984 - 2016), 91 656 mulheres do Nurse's Health Study II (1991 - 2015) e 43 911 homens do Health Professionals Follow-up Study (1986-2016) que não apresentavam câncer nem doenças cardiovasculares no início do estudo.

Como podemos perceber, esses homens e mulheres foram acompanhados por décadas e a alimentação foi avaliada a cada 4 anos através de um questionário de frequência alimentar. Essa ferramenta consiste em uma lista de alimentos e cada participante da pesquisa deveria relatar com que frequência consumia cada um dos itens listados.

A partir desse questionário de frequência alimentar, o potencial inflamatório da alimentação foi avaliado usando um escore de padrão alimentar inflamatório empírico (EDIP - Empirical Dietary Inflammatory Pattern), EDIPhttps://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S089990072030126X, uma escala indicativa do risco inflamatório relacionado com a dieta.

O EDIP tem como base as mudanças nos níveis de marcadores inflamatórios como interleucina 6, proteína C reativa e receptor de fator de necrose tumoral alfa 2, induzidos por 39 grupos de alimentos.

Uma maior ingestão de alimentos como carne vermelha, embutidos, carboidratos refinados e bebidas açucaradas aumenta o potencial inflamatório. Enquanto verduras, legumes, grãos integrais, frutas, chá, café e vinho são conhecidos por diminuir o potencial inflamatório.

De acordo com os autores, esse é o primeiro estudo a usar esse tipo de índice, que permite pensar em padrões alimentares inflamatórios em vez de alimentos específicos, para mostrar a associação entre a alimentação e o maior risco cardiovascular.

Para deixar claro, um padrão alimentar refere-se a um conjunto de alimentos que são frequentemente consumidos, seja individualmente ou considerando toda uma população.

Em comparação com os alimentos ou nutrientes vistos individualmente, esses padrões apresentam a interação dos componentes da alimentação.

Nesse caso, estudá-los pode trazer resultados mais fidedignos, pois como sabemos, alimentos ricos em gorduras insaturadas (azeite de oliva e peixes), antioxidantes e fibras (como frutas, legumes e verduras) têm potencial anti-inflamatório, mas não são esses alimentos individualmente que poderão contribuir com a nossa saúde, pois sozinhos são incapaz de inflamar ou desinflamar o corpo.

Padrão alimentar inflamatório e doenças cardiovasculares

A partir desse estudo, foram documentados 15 837 casos de DCV. Os padrões alimentares com maior potencial inflamatório foram associados a uma maior incidência dessas doenças, como doença cardíaca coronariana e acidente vascular cerebral.

Em comparação com os voluntários que tinham um padrão alimentar anti-inflamatório, aqueles com um padrão alimentar pró-inflamatório tiveram um risco 38% maior de desenvolver DCV.

No início e ao longo do estudo, os participantes que tinham um padrão alimentar pró-inflamatório apresentaram IMC mais alto, prática de atividade física mais baixa, eram mais propensos a terem uma história familiar de doença cardiovascular e consumiam menos frutas, vegetais e grãos integrais.

No entanto, o IMC não foi um modificador de efeito para a associação entre EDIP e risco de DCV, sugerindo que alimentação pró-inflamatória pode estar associada a DCV por mecanismos inflamatórios que não são necessariamente mediados pela obesidade.

Um padrão alimentar pró-inflamatório também foi associado a um maior nível de inflamação sistêmica, vascular e metabólica e a piores níveis de lipídios no sangue, como colesterol e triglicerídeos.

Por fim, os pesquisadores apontam a necessidade de estudos futuros para replicar os seus achados, confirmar a relação de causa e examinar os mecanismos inflamatórios dos padrões alimentares de forma detalhada. E reconhecem ainda que a redução do potencial inflamatório da alimentação pode fornecer uma estratégia eficaz para a prevenção de DCV, de outras doenças crônicas e para a saúde em geral.

Como ter um padrão alimentar anti-inflamatório?

Esse estudo também nos mostra que, apesar de se falar em "padrão" alimentar, isso não quer dizer que exista um modelo único a ser seguido.

Tome como exemplo a alimentação mediterrânea. Até hoje fala-se nela como um padrão alimentar considerado muito saudável e que diminui o risco de doenças cardiovasculares. Trata-se da alimentação de países banhados pelo mar Mediterrâneo (Espanha, Gilbraltar, França, Turquia, Chipre, Grécia, Albânia, Montenegro, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Malta, Itália e Mônaco). Você já deve ter ouvido falar sobre.

Realmente, é um padrão alimentar muito saudável que se caracteriza, de forma geral, por um elevado consumo de frutas, vegetais, nozes, cereais integrais, azeite de oliva, peixes, laticínios e por uma ingestão moderada de vinho. Mas mesmo entre esses países existem diversas diferenças e não é o único padrão alimentar saudável.

Na verdade, para outras populações, como a brasileira, não é viável adotar esse tipo de alimentação, pois é preciso considerar a disponibilidade e o acesso aos alimentos, como também a cultura e os hábitos locais. E olha só, no padrão alimentar do brasileiro temos o arroz com feijão como uma combinação muito saudável.

Por isso, para ter um padrão alimentar anti-inflamatório e saudável, lembre-se que eles são inúmeros e variáveis. Melhor que buscar uma "receita" ou modelo ideal, minha sugestão é que, em qualquer lugar do Brasil e do mundo em que esteja, busque uma alimentação baseada em alimentos in natura e minimamente processados que seja variada e contenha todos os grupos alimentares.

Ou seja, pode comer de tudo... só não pode comer tudo. Deixe as dietas restritivas de lado e fique em paz com a comida.

Bon appétit!

Sophie Deram

Errata: o texto foi atualizado
No início e ao longo do estudo, os participantes que tinham um padrão alimentar pró-inflamatório, e não, anti-inflamatório, como o texto dizia antes, apresentaram IMC mais alto, prática de atividade física mais baixa, eram mais propensos a terem uma história familiar de doença cardiovascular e consumiam menos frutas, vegetais e grãos integrais.